No sul do Paquistão, enchentes atrapalham fornecimento de energia

Jacques Follorou

  • Saleem Raza/AP Photo

    Sobreviventes das enchentes no Paquistão usam camelo para passar por áreas alagadas

    Sobreviventes das enchentes no Paquistão usam camelo para passar por áreas alagadas

O Paquistão vem enfrentando há um mês um desastre humanitário sem precedentes, causado por enchentes que submergiram um território do tamanho da Itália. Segundo a ONU, 17 milhões de pessoas tiveram de deixar suas casas.

Esse país de 170 milhões de habitantes não passava por deslocamentos de populações como esses desde a divisão da Índia, em 1947, que lhe deu origem. O país tem procurado evitar a estagnação mantendo, por todos os meios, as vias de fornecimento de matérias-primas combustíveis. Sem combustível, as usinas termoelétricas, que já encontram dificuldades em tempos normais para fornecer uma energia racionada, teriam de fechar, mergulhando o país em uma crise ainda mais grave.

Na província do Sind, na estrada que sai de Shikarpur na direção da cidade de Kandhkot, mais ao norte, o centro regional petroleiro da empresa Pakistan State Oil (PSO), companhia que gerencia 70% do combustível no país, escapou por pouco da catástrofe.

A menos de 200 metros, as águas ainda atravessam a via e vão inundar a metade norte do Sind. Em torno das instalações, é possível notar as valas escavadas e as barreiras de sacos de areia erguidas às pressas para impedir que a água entrasse na área de estocagem do combustível, composta de imensas cisternas que dominam a planície.

Alimentado pelos oleodutos da companhia Pak Arab Refinery (PARCO), o centro regional servia todo o norte do Sind, o sul do Punjab e parte do Baluchistão, até Quetta, na fronteira com o Afeganistão. Em tempos normais, os caminhões vão até ali e fazem retiradas, abastecendo com combustível os postos de gasolina, as fábricas e as usinas elétricas.

Em seu escritório, o gerente, Deedar Ali Pathan, agradece ainda ao “Deus todo poderoso”. “A água chegou há quinze dias, durante a noite. Eu estava lá na hora, foi um pânico. Na estrada, milhares de pessoas corriam gritando “Saiam, saiam, tem uma onda imensa chegando”, conta. Os rumores mais malucos circulavam e ninguém nos havia avisado. Eu me perguntava se devia ir embora ou ficar, ninguém sabia o que ia acontecer... A imagem de toda essa gente, a pé, de bicicleta, de carroça ou de carro era aterrorizante. No final, com meus guardas, nós ficamos. Eu não podia fugir, ainda que fôssemos os únicos”.

Pela manhã, a água não ameaçava mais as instalações. “Graças a Deus”, diz, “há um pequeno canal a 200 metros daqui que desviou as ondas. Não havia mais ninguém: todo mundo tinha ido embora e o nível de água era alto demais para deixar passar outras”.

Deedar Ali Pathan não consegue se acalmar: “Ninguém pegou o telefone para me dizer, cuidado, tome precauções, a água está chegando”. Ele se refere sobretudo às autoridades locais. “Você viu aquilo que estocamos... elas nem sabiam de nossa presença aqui, no entanto só pensaram em dizer às pessoas para fugirem. Pior: alguns preferiram proteger suas terras e seus eleitores direcionando a água para nós”.

Sem citá-lo, o gerente da PSO se refere a Syed Khursheed Shah, ministro federal do Trabalho e do Emprego e representante da região de Sukkur, cidade vizinha. No decorrer da longa história dos transbordamentos do Rio Indo, as autoridades costumavam abrir uma brecha nos diques no nível da cidade de Ali Wahan, para frear a inundação do rio. Então a água ia para o leste, na direção de terras pouco habitadas, se perdendo no deserto de Thar.

Mas essa região também abriga a circunscrição eleitoral de Khursheed Shah e suas terras agrícolas prestes a ter suas colheitas. Segundo seus oponentes políticos locais, o ministro teria conseguido, em conluio com os serviços de irrigação, bloquear a abertura da brecha em Ali Wahan. Resultado: o dique se rompeu na outra margem do Indo, permitindo que a água corresse para áreas muito povoadas, em torno das cidades de Sukkur, Shikarpur, Jacobabad, e até as instalações da PSO.

“A água não nos cobriu”, acrescenta Deedar Ali, “mas nossos caminhões não podem mais abastecer o Baluchistão, nem o sul do Punjab, por causa da água. Foi preciso abrir outras vias de abastecimento”. Se essa instalação evitou a inundação por pouco, outros grandes centros regionais de distribuição ainda estão sob três metros de água. As amplas instalações de Lalpir e de Mahmud Kot, no Punjab, estão assim submersas há quase vinte dias.

Um dos diretores da PSO, Irfan Qureshi, na sede de Karachi, acredita que as inundações custarão à sua empresa, só no Sind e no Punjab, “mais de 3 bilhões de rúpias” (R$ 60 milhões). Segundo a PSO, 180 caminhões da empresa ainda estão bloqueados pelas águas, com seus carregamentos de combustíveis, e mais de 200 postos de gasolina, entre os 3.400 espalhados pelo país, estão inundados, e inacessíveis em sua grande parte.

“Nossa maior preocupação”, afirma Irfan Qureshi, “continua sendo o abastecimento das usinas elétricas do país. Com essa catástrofe, a maioria delas só tem estoque para 2 a 6 dias”. E por fim, algumas vias férreas não podem mais ser utilizadas, o que limita ainda mais os meios de transporte de matérias-primas vitais para o Paquistão.

Resultado: as principais estradas que podem servir o Punjab a partir de Karachi estão sobrecarregadas de caminhões-tanque. Gigantescos engarrafamentos são registrados todos os dias ao norte do Sind, entre Sukkur e Ghotki. Na principal via de circulação norte-sul do Paquistão, cheia de buracos e muitas vezes reduzida a duas pistas, também circulam charretes, bicicletas e búfalos. Ela está pontilhada por caminhões quebrados ou acidentados. A circulação maluca e anárquica complica ainda mais e retarda o abastecimento das zonas afetadas.
 

Tradutor: Lana Lim

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