"Jovens não diplomados ou atingidos pela precariedade são mais radicais politicamente"

Anne Muxel*

  • Ana Carolina Dani/Folha Imagem

    Um dos prédios da famosa universidade Sorbonne, em Paris, França

    Um dos prédios da famosa universidade Sorbonne, em Paris, França

Que consequências políticas podemos esperar da persistência e do agravamento do desemprego dos jovens?

A primeira é o aumento da desconfiança dos jovens em relação à política. Ela já é bastante forte, tanto entre os jovens quanto na população como um todo. Ela se traduz numa abstenção substancial, a exceção da eleição presidencial de 2007. Nas eleições europeias de 2009 e nas regionais de 2010, a abstenção atingiu recordes. A segunda consequência é um risco de radicalização política que beneficiará os extremos, tanto da direita quanto da esquerda. Foi o que aconteceu com a juventude que voltou nas eleições de 2009 e 2010. Dito isso, é preciso acrescentar que na França, o diploma cria uma divisão social, mas também política. Há várias juventudes. Os jovens não diplomados ou atingidos pela precariedade profissional são os mais radicais politicamente. A desconfiança existe da mesma forma entre os estudantes, assim como a abstenção, mas estes votam mais para os partidos do governo. Além disso, se a juventude estudantil manifesta uma tendência real para a esquerda, os jovens sem diplomas se pronunciam a favor da direita e extrema direita. No primeiro turno da última eleição presidencial, 22% de jovens sem diploma votaram em Jean-Marie Le Pen, contra 3% dos estudantes.

Este mal-estar anuncia problemas sociais?

As revoltas recorrentes nas periferias constituem uma forma de protesto proto-político: desorganizado, não assumido por líderes, sem palavras de ordem bem definidas nem negociações com o poder. Essa violência é portadora de um desespero e exprime um sentimento de exclusão social que ainda não encontrou uma vazão política.

Deve-se esperar uma desmobilização para a eleição presidencial de 2012?

Tudo dependerá da politização da eleição. Entretanto, não é impossível que tenhamos novamente uma configuração como a de 2002, ou seja, uma forte desmobilização dos jovens no primeiro turno. Eles não encontravam de fato motivos para votar. As promessas, os temas de campanha, não pareciam carregar esperança ou mudança para eles. Isso pode muito bem se reproduzir em 2012.

As dificuldades dos jovens modificam o voto das famílias?

Sim, com certeza. Os franceses são particularmente pessimistas, são muito inquietos em relação ao futuro de seus filhos. Isso influencia sua maneira de avaliar as políticas públicas e suas escolhas políticas. Em 2006, a mobilização dos jovens contra o CPE [contrato de primeiro emprego, que o primeiro ministro da época, Dominique de Villepin, queria instituir] teve o apoio da opinião.

Esta preocupação comum a muitas gerações pode ter consequência eleitorais e políticas. Quais?

A desconfiança, a abstenção, a radicalização. Em 2002, a abstenção e o voto extremo foram a escolha de um em cada dois franceses! É muita coisa. Podemos ver isso novamente em 2012 se os eleitores não perceberem nenhuma melhora.

Em relação a essas questões, existe uma especificidade francesa?

Encontramos alguns desses fenômenos em outros lugares. É o caso da radicalização política da juventude. A extrema direita progride em muitos países europeus. A atração da juventude pela extrema esquerda, por outro lado, é uma particularidade bem francesa. Em toda parte, a desconfiança em relação à representação política clássica é geral. Os partidos do governo parecem desgastados em inúmeros países. É o caso no sul da Europa. Lembre-se da revolta dos jovens gregos. Na Espanha, 40% dos jovens estão desempregados. O mal-estar em relação à política e a abstenção são muito amplos no país. O fato de que a abstenção seja um comportamento padrão no momento em que esses jovens iniciam sua vida de cidadãos é muito preocupante para nossas democracias. 

*Diretora de pesquisa do CNRS

Tradutor: Eloise De Vylder

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