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Fragilizado, atol de Tureia poderá sofrer um deslizamento de terra seguido de ondas oceânicas

Lana Lim

  • Divulgação/Governo da Polinésia Francesa

    VIsta do atol de Tureia, na Polinésia Francesa

    VIsta do atol de Tureia, na Polinésia Francesa

Os 227 habitantes do atol de Tureia, na Polinésia Francesa, estão vivendo atemorizados, após as revelações de riscos de tsunami associados ao possível colapso de uma parte do recife do atol de Mururoa, a 105 quilômetros de distância. No final de janeiro, Marcel Jurien de la Gravière, Delegado da Segurança Nuclear e da Radioproteção para as atividades e instalações da Defesa (DSND), responsável pelos antigos locais de testes, apresentou um relatório de monitoramento geomecânico do atol de Mururoa às autoridades e às associações polinésias. Esse documento apresenta uma simulação dos “efeitos hidráulicos” sobre Tureia, consequência de um colapso de 670 milhões de metros cúbicos da falésia a nordeste de Mururoa. Ele explica que uma sequência de ondas oceânicas poderá percorrer em 10 minutos a distância que separa os dois atóis, gerando vagas de 2 a 3 metros ao sul de Tureia, cujas zonas habitadas, situadas acima de 3 metros de altitude, não seriam atingidas. “Não podemos ignorar que esse fenômeno pode ocorrer”, afirma De la Gravière. “Somos incapazes de dizer quando exatamente ele aconteceria, mas teríamos condições de detectar os sinais prenunciativos de um deslizamento como esse”, com vários dias ou várias semanas de antecedência. Desde o início dos anos 1980, a Defesa de fato aparelhou o subsolo de Mururoa com um sistema de monitoramento geomecânico (Telsite) para alertar seus ocupantes sobre um deslizamento de terra. Esse dispositivo foi motivado pelo episódio Tydé, codinome do 97º teste nuclear efetuado pela França, em 25 de julho de 1979. O choque desse disparo subterrâneo, efetuado ao sudoeste do atol, levou ao tombamento de um bloco de corais de dezenas de milhões de metros cúbicos dentro do oceano. Esse deslizamento provocou uma onda de dois metros de altura nos entornos imediatos, que provocou ferimentos entre a equipe. Depois desse acidente, foram instalados um muro de proteção e plataformas elevadas em Mururoa. Os outros 105 testes realizados no atol até o último disparo, “Thémisto”, no final de 1995, só conseguiram fragilizar a coroa de corais. O risco geomecânico, por muito tempo negado pelo Ministério da Defesa, deu lugar a uma avaliação conduzida em 1998 por um grupo de peritos enviados pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Levando em conta os movimentos de terra observados desde 1980 na área norte do atol, esse relatório já havia considerado o colapso de uma enorme “lente” de calcário. Ele também mencionava os riscos para Tureia. O novo relatório apresentado por De la Gravière se baseia em simulações mais recentes. Em Mururoa, a onda atingiria 20 metros de altura em um raio de 500 metros a partir do colapso. E “a altura da água atingiria de 2 a 5 metros em zona habitada”, onde se encontram os 23 militares que servem permanentemente no local. Para Tureia, foi elaborado um mapa das zonas submersas. Portanto, para De La Gravière convém unir “ao longo do ano” o sistema Telsite àquele administrado pela segurança civil em Tureia e encarregado de prevenir a população em caso de ciclone ou de tsunami “natural”. O DSND também ressalta que a rede de captadores que permitem medir a evolução geomecânica de Mururoa deveria ser perpetuada e modernizada: “O ambiente marinho já corroeu e inutilizou alguns deles”, afirma. Está sendo feito um cálculo dos custos. Há ainda a questão radiológica: se houver o deslizamento, a radioatividade presa na rocha poluirá os arredores? “Se isso porventura ocorresse, as consequências ambientais seriam muito pequenas”, responde De la Gravière, que toma o cuidado de explicar que “a dissolução da radioatividade não é uma boa prática”. Mas, acrescenta, “estaríamos diante de um fato inevitável: esse conjunto de disparos nucleares é irreversível”. Indignada, a população de Tureia assinou uma petição enviada ao DSND, “exigindo explicações, a implantação de medidas de proteção de seu atol e o envio à Polinésia de uma missão de peritos independentes do Comissariado da Energia Atômica e dos Exércitos para avaliar os riscos geológicos e radiológicos e suas consequências, e para propor medidas de proteção dos habitantes do atol de Tureia”. A preocupação é geral. “Cada vez que uma marola é anunciada em Rapa no Arquipélago das Austrais, a mais de 1.000 quilômetros, nossa pista de aterrissagem é avariada, e nossa plataforma onde descarregam alimentos e carregam a copra é danificada”, conta uma habitante, Mauake Brander, “as consequências de uma onda como essa seriam a morte imediata”. Além disso, a população perde a confiança. Depois de o terem descartado, as autoridades admitem um possível colapso, “mas minimizam os riscos”, se revolta Bruno Barrillot, da associação dos veteranos dos testes Mururoa e Tatou. Ele já se preocupava com os colapsos ocorridos no fim dos anos 1970. Ele observa que na zona norte as falhas vêm se alargando, e que em dez anos as crepitações aumentaram três vezes. Foram constatados vazamentos no recife de corais. “Foram efetuados 28 testes subterrâneos nesta zona”, explica. “Uma dezena deles provocaram vazamentos e não foram vitrificados e contidos na lava, e as zonas coralinas foram contaminadas”. Entre riscos de tsunami e riscos de contaminação radioativa, “a população de Tureia tem medo”, segundo a prefeita Taitua Maro, “o que será de nós, teremos tempo de ser evacuados?” Mauake Brander é sarcástica: “Tudo que nos enviaram foram sirenes para nos avisar que a onda está chegando e que vamos morrer”. O administrador de Tuamotu, Eric Sacher, tentou tranquilizar a prefeita ao lembrar que “a onda de no máximo 20 metros se limitaria a Mururoa, na pior das hipóteses. Além disso, os captadores detectarão qualquer sinal de tremor e permitirão que sejamos advertidos com várias semanas de antecedência”. Mas a população espera por respostas mais precisas, segundo Taitua Maro. O exército acaba de desembarcar no atol para a missão Fakakite (informação, em Puamotu), uma missão prevista há muito tempo, segundo o administrador. Ele mesmo deveria viajar para o atol no início de março, mas teve de antecipar sua viagem e estará em Tureia a partir do dia 19 de fevereiro.

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