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O Paquistão está em estado de guerra permanente

Frédéric Bobin

Em Nova Déli

  • A. Majeed/AFP

    Atentado suicida no Paquistão deixa pelo menos 4 policiais mortos

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Fim sangrento de Bin Laden, contra-ataques terroristas, réplicas americanas... Para entender a espiral de violência que vem tomando conta do Paquistão há várias semanas, um olhar sobre a história a geografia de um país que nunca deixou de ser um importante ponto estratégico O Paquistão causa preocupações, medos ou mesmo angústias. Até mais que o Afeganistão, que é mais um campo de manobras do que um foco de contaminação. O Paquistão combina os dois, sendo ao mesmo tempo fonte e palco de um jihad que saiu de controle. “País mais perigoso do mundo”, “Estado falido”, “Nação à beira da implosão”: a hipérbole catastrofista, nem sempre boa conselheira, domina quando se fala em Paquistão. Sua condição de potência nuclear – a única do mundo islâmico – contribui para a paranoia. Os estrategistas ocidentais confessam: o medo de ver a bomba atômica cair em mãos jihadistas persegue seus cenários prospectivos. Como se chegou a esse ponto? Essa crise paquistanesa nasceu da colisão entre um risco externo – real ou imaginário – e um perigo interno que, como um vírus, foi sofrendo mutações ao longo do tempo. Desde que nasceu, em 1947, das ruínas sangrentas do ex-Império Britânico das índias, o Paquistão é uma nação problemática. Diante de uma índia multirreligiosa, ele se define como um Estado muçulmano. O choque entre esses dois projetos nacionais poderia ter se atenuado em um duelo retórico. No entanto, a divisão de 1947 nunca foi claramente resolvida. Ela deixou como herança uma ferida cada vez mais purulenta: a Caxemira, ex-Estado principesco de maioria muçulmana disputado pelo Paquistão. Três guerras (1947, 1965, 1999) não bastaram para esgotar essa rixa himalaia, forjando na psique paquistanesa um sólido ódio pela índia. O caso se complicou quando os dirigentes do Paquistão descobriram a fragilidade de sua construção nacional. Como ter uma convivência harmoniosa entre punjabis, bengalis, sindis, balúchis e pashtuns? A montagem heterogênea oscilou sob efeito das forças centrífugas etnolinguísticas. Essa crise da “ideia do Paquistão” assumiu a forma paroxística da secessão dos bengalis do Paquistão Oriental, que em 1972 se tornou o Estado Independente do Bangladesh. Depois da divisão da índia foi a vez da divisão do Paquistão. E ambas são ligadas, uma vez que a índia ajuda os bengalis separatistas. Essa fusão entre o perigo externo (a índia) e a ameaça interna (o separatismo) infligiu aos dirigentes de Islamabad um trauma indelével. A partir daí fermentou-se a ideia de reforçar a base muçulmana do país para conjurar a discórdia étnica ou o esgotamento patriótico. Contrariando a herança laica do pai fundador Ali Jinnah, Zulfikar Ali Bhutto (1971-1977) começou a flertar com o islamismo político. Seu sucessor – e carrasco – Zia Ul-Haq, general golpista (1977-1988) islamizou o Estado, com ainda mais zelo. Das escolas islâmicas de Zia saíram legiões de mujahidins, recrutados pelos serviços secretos do Exército para levar o jihad ao Afeganistão, e depois à Caxemira indiana. Apostaram que um jihadista era por natureza estrangeiro ao nacionalismo étnico. Numa época em que o separatismo fermentava no Baluchistão e na faixa fronteiriça pashtun, o investimento era precioso. A síndrome bengali ainda estava lá, pungente. Por acaso a índia não era suspeita de encorajar a rebelião balúchi e o sonho de um “Pashtunistão”? Assim nasceram os talebans afegãos. Os espiões-mestres de Islamabad os instalaram no poder em Cabul em 1996 e continuaram a apoiá-los na insurreição após sua queda pós-11 de Setembro. Auxiliares pashtuns, eles eram monitores encarregados de vigiar a fronteira ocidental do Paquistão contra as funestas intenções atribuídas à índia. A lógica geopolítica operante inevitavelmente lembrava o Grande Jogo que em outros tempos opôs a Inglaterra à Rússia. A fim de proteger seu Império das índias, “joia da Coroa”, Londres havia então tentado fazer do Afeganistão uma zona-tampão destinada a afastar a ameaça de São Petersburgo. Com esse objetivo, os britânicos impuseram o traçado de uma fronteira (a linha Durand de 1893), amputando a monarquia afegã de parte de suas tribos pashtuns. Cabul nunca reconheceu a legitimidade dessa fronteira, tanto no passado como agora. E por isso há uma disputa territorial entre o Afeganistão e o Paquistão – herdeiro da fronteira ocidental do ex-Império Britânico – que envenenou continuamente a relação bilateral desde 1947. Como o inimigo do seu inimigo é seu amigo, o eixo Cabul-Nova Déli sempre deu certo. A paranoia paquistanesa de um cerco indiano – a leste e a oeste -  encontrou ali sua fonte. A aposta de Islamabad sobre os talebans veio dessa ansiedade estratégica. Ela visava neutralizar o irredentismo pashtun que fragilizava sua fronteira ocidental. Mas a situação acabou saindo de controle. Ao usarem o jihad como antídoto para os particularismos étnicos, os serviços secretos paquistaneses acabaram abrindo uma caixa de Pandora. De produto de exportação – para o Afeganistão e para a Caxemira indiana – o jihadismo acabou atacando o mercado nacional. O aprendiz se voltou contra o mestre, sangrando a sociedade paquistanesa no caminho.

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