Comprar imóveis de celebridades é nova tendência no mercado de luxo francês

Isabelle Rey Lefebvre

  • Féau/Reprodução

    Apartamento parisiense do pintor americano James Whistler, colocado à venda pela imobiliária Féau

    Apartamento parisiense do pintor americano James Whistler, colocado à venda pela imobiliária Féau

O setor de imóveis de luxo, que é ao mesmo tempo confidencial, visto que se dirige a menos de 0,5% dos franceses (aqueles que ganham mais de 165 mil euros por ano -- cerca de R$ 730 mil), e mundial, pois os ricos não têm fronteiras, cultiva seus próprios códigos e técnicas para vender bens avaliados em milhões de euros.

"Os ricos proprietários, vendedores ou compradores fogem de publicidade, sobretudo na França, e não querem que as pessoas saibam se eles estão vendendo ou comprando, nem a que preço", conta Charles-Marie Jottras, presidente da imobiliária Féau, líder desse setor na França e parceiro da Christie's no resto do mundo.

"Isso exige uma discrição tremenda, sem divulgação ampla dos anúncios, e que para cultivar permanentemente suas redes de relações requer que se frequentem os mesmos lugares de residência, de férias etc."

Entre as técnicas para despertar o desejo de comprar, contar uma história que valorize o bem é um procedimento muitas vezes certeiro. A Féau colocou à venda o apartamento parisiense do pintor americano James Whistler (1834-1903), com cerca de espetaculares 220 metros quadrados de espaço e um grande terraço, na rua Notre-Dame-des-Champs (6º distrito), a dois passos do Jardim de Luxemburgo.

Amigo de Monet, Renoir, Sisley e Fantin-Latour, mas também de Oscar Wilde, James Whistler fez de seu ateliê um ponto de encontro entre artistas e de debates intelectuais.

"Ninguém duvida que esse passado prestigioso interessará a americanos apaixonados por Paris", espera Nicolas Pettex, diretor-geral da Féau, que se recusa a anunciar um preço.

"Saber que uma casa pertenceu a uma celebridade do cinema ou a um artista massageia o ego do futuro proprietário, que poderá se gabar disso para seus amigos. É uma parte de nossa profissão valorizar isso", reconhece Laurent Demeure, CEO da Coldwell Banker França e Mônaco, cuja filial italiana também está colocando à venda o apartamento onde viveram, entre 1956 e 1968, Federico Fellini e Giuletta Masina, na Via Archimede, no bairro residencial de Parioli, em Roma.

É verdade que se trata de um belo apartamento de 280 metros quadrados, com terraço que dá para os jardins da Villa Elia, mas de decoração clássica e dentro de um prédio comum, não tão belo quanto carregado de história, uma vez que foi ali que o cineasta escreveu suas maiores obras de arte e conquistou seus três primeiros Oscar. Segundo as fontes, o preço varia entre 2 milhões e 4 milhões de euros (R$ 8,8 milhões a R$ 17,6 milhões).

Mas a fama de um proprietário não é tudo. A belíssima mansão de Gérard Depardieu, na rua do Cherche-Midi, no 6º distrito em Paris, está à venda desde o final de 2012. Seus 1.800 metros quadrados, com terraço, jardins, piscina no subsolo e seu preço de 50 milhões de euros (R$ 220 milhões) ainda não convenceram ninguém.

"Arquitetos traficantes"

Em compensação, a casa de temporada de 100 metros quadrados do grande estilista Christian Lacroix, perto da Place des Vosges, ou a casa em estilo japonês de Kenzo (1.200 metros quadrados), que o estilista havia vendido em 2009 a um produtor de cinema, hoje novamente à venda, encontraram compradores.

"Lugares assim são meio como objetos de arte ou históricos: o fato de que eles tenham pertencido a uma personalidade carrega um valor em si", analisa Charles-Marie Jottras da imobiliária Féau. Talvez seja por isso que o tríplex, situado na Quai Kennedy, em Paris, com vista para a Torre Eiffel, que abrigou o romance de Alain Delon e Romy Schneider, tenha encontrado um novo proprietário, vindo do Golfo, disposto a desembolsar 46 milhões de euros (preço anunciado; cerca de R$ 202).

E quanto você pagaria por um cenário de filme? Ainda há tempo de se candidatar junto à imobiliária Emile Garcin à compra de uma mansão situada a poucos quilômetros de Marrakesh, que hospedou a filmagem do último James Bond, "007 Contra Spectre".

Essa espetacular casa contemporânea de 640 metros quadrados, projetada pelo arquiteto Imaad Rahmouni, com piscinas e jardim, sem contar a casa de hóspedes e a do caseiro, está anunciada por 3,2 milhões de euros (R$ 14 milhões).

As casas projetadas ou decoradas por grandes arquitetos do século 20 como Le Corbusier, Robert Mallet-Stevens ou Claude Parent também são muito procuradas. Um "studio-building" de 100 metros quadrados e 5,5 metros de pé direito, assinado em 1927 por Henri Sauvage no Village d'Auteil (16º distrito), com uma fachada em art déco de azulejos (como seu famoso prédio na rua Vavin), acaba de ser vendido por mais de 900 mil euros (R$ 3,9 milhões) pela imobiliária Architecture de Collection.

"Nós somos 'traficantes de arquitetura', meio como marchands de arte, e queremos promover a arquitetura dos séculos 20 e 21, ensinar sobre as qualidades desses imóveis a um público de amadores, que aliás é cada vez maior e vai muito além de um círculo de arquitetos", se empolga Delphine Aboulker, historiadora de arte e fundadora dessa imobiliária.

"Sempre fico surpresa de constatar que os proprietários, ainda que inicialmente sejam pouco sensíveis à arquitetura, acabam se apaixonando por suas casas, procuram valorizá-la e depois não conseguem mais voltar a uma moradia tradicional."

Tradutor: UOL

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