Erro de identificação fez família chorar por desconhecido, após ataques em Paris

Aline Leclerc

  • Reprodução/Facebook

    Justine Moulin, 23, era estudante vinda da região da Normandia e vivia em Paris

    Justine Moulin, 23, era estudante vinda da região da Normandia e vivia em Paris

Após um erro de identificação, a família Moulin se sentiu maltratada pela unidade de ajuda às vítimas

Quando marcamos um encontro com Isabelle Moulin, foi para fazer o perfil de Justine, sua filha de 23 anos, morta no dia 13 de novembro de 2015 enquanto jantava no Petit Cambodge, no 10º distrito de Paris. Ela logo deu a entender que a semana seguinte ao atentado havia sido particularmente difícil, e que a maneira como sua família foi tratada era inaceitável. Mas na ocasião ela não teve coragem de falar a respeito.

A coragem lhe veio um mês depois. Ela conta que espera que seu depoimento "possa servir de feedback" para a unidade interministerial de ajuda às vítimas, criada após os atentados de janeiro e acionada pela primeira vez depois dos ataques de novembro. Com uma voz rouca motivada por uma raiva cega, Isabelle Moulin conta sobre seus dois choques de novembro: o do dia 13 de novembro, dia da morte de sua filha, e o do dia 18, quando ela sentiu que a havia perdido uma segunda vez.

Quando soube do tiroteio do lado de fora do restaurante Le Petit Cambodge, na noite de 13 de novembro, Isabelle Moulin logo ficou preocupada, pois sabia que sua filha, que morava com ela, estava jantando ali com uma amiga. Ela anotou o número de emergência que apareceu na televisão e ligou uma, dez, cem vezes até que atenderam e a encaminharam para outro número, e depois disseram para ligar novamente para o número anterior...

Enquanto isso, os dois irmãos de Justine a procuravam em todo lugar, deixando sua foto e seus números de telefone em todos os hospitais.

No sábado de manhã, por volta das 8h30, um deles recebeu a terrível confirmação: Justine estava entre a vida e a morte no La Pitié-Salpêtrière, tendo sido atingida por um tiro na cabeça. Seus pais e seus irmãos correram para o hospital.

"Eles nos anunciaram que ela havia falecido às 9h15. Eles nos perguntaram se queríamos vê-la, logo avisando que ela estaria irreconhecível, com o rosto completamente enfaixado", lembra Isabelle. O pai de Justine e seus dois filhos foram chorar e rezar durante duas horas junto a seu corpo, mas a mãe não teve forças para tal.

Para lidar com o horror, Isabelle se refugiou em questões bem pragmáticas: "Descobrir quando devolveriam o corpo, seus pertences, quando poderíamos organizar o funeral... Para as pessoas que me ofereciam ajuda, eu respondia que o único apoio que eu esperava era que me dessem respostas."

Ela descobriu que uma unidade de ajuda às vítimas havia sido criada pelo Ministério das Relações Exteriores e que as famílias seriam recebidas na Escola Militar, no 7º distrito de Paris. Ela foi até lá no domingo, 15 de novembro, onde uma funcionária do ministério foi chamada para lhe dar respostas.

"Perguntei quando eu poderia retirar o corpo de minha filha. Ela percorreu os olhos em um maço de anotações, e por fim me disse: 'Daqui a um tempo...'"

"Homônimos"

Na segunda-feira, Isabelle voltou a ligar para a unidade interministerial. Desde que ela soube que Justine havia sido atingida na cabeça, ela ficou obcecada pela ideia de mandar reconstruir seu rosto antes do velório, "o mínimo, antes que ela se fosse". Dessa vez, quem atendeu foi uma jovem da Federação Nacional das Vítimas de Atentados e de Acidentes Coletivos (Fenvac), parte da unidade.

"Em três dias, foi a primeira voz que realmente mostrou alguma compaixão. Fiz de novo as mesmas perguntas. Justine foi transferida para o instituto médico legal? Quando vamos retirar seu corpo?"

A jovem consultou suas listagens e lhe confirmou que o corpo de Justine continuava no necrotério do hospital. Parecia ser uma longa espera, mas o instituto médico legal (IML) não conseguia receber as 130 vítimas de uma vez só e as famílias precisavam aguardar.

Na noite de segunda-feira, a unidade finalmente ligou para Isabelle para lhe dizer que o corpo de Justine havia sido transferido para o IML. Foi um alívio, que durou pouco. Na manhã de terça-feira, uma nova ligação anulou a informação da véspera: o corpo continuava no necrotério. 

À tarde, uma terceira ligação da unidade aumentou a confusão: haveria duas Justine Moulins nas listas, uma no necrotério e a outra no IML.

"Explicaram que eram dois homônimos..." conta Isabelle Moulin, que confessa ter tido dificuldades para acreditar naquilo. "No dia seguinte, recebi outra ligação por volta das 7h15: um médico da unidade interministerial me perguntou se queríamos ver a Justine no IML, e me disse que para isso eu precisava ir rapidamente à Escola Militar para assinar alguns documentos."

Então ela foi para lá no final da manhã, dia 18 de novembro, onde teve a surpresa de encontrar a jovem da Fenvac que a esperava na entrada, e o médico com quem ela falara no telefone pouco antes, que veio ao seu encontro junto com um representante do Ministério das Relações Exteriores. Tudo isso por alguns documentos?

"Eles me disseram: 'Venha, senhora, vamos nos sentar...'Eu não entendia. O que me disseram, basicamente, era que aquela Justine não era a minha Justine. Que o corpo de minha filha nunca havia estado no hospital. Que ele estava no IML desde a noite de sexta-feira. Que ela não havia levado um tiro na cabeça, mas sim na barriga."

O corpo sobre o qual seu ex-marido e seus filhos haviam chorado durante duas horas no sábado não era o certo. Ela se lembra de ter ficado "meio louca", ter falado "palavras muito duras" e de ter visto seus interlocutores lhe pedirem para se acalmar, para confiar neles. "Mas como eu poderia confiar neles depois de descobrir aquilo?"

Para explicar essa situação trágica, que fez com que uma outra família ficasse sem notícias de sua filha até a noite de terça-feira, sendo que seu corpo estava desde sábado no La Pitié, os representantes da unidade disseram que a família de Justine foi a responsável pela confusão. Que eles haviam se confundido na identificação do corpo no primeiro dia, no hospital.

Mas a família Moulin foi categórica: "Nunca nos perguntaram se de fato era ela! Pelo contrário, avisaram-nos que poderíamos não reconhecê-la!", diz irritada Isabelle, para quem essa acusação piora sua dor. "Foi o hospital que ligou para nós! Então eles que teriam provas de que era ela, certo?"

Corpo errado

No dia 18 de novembro, Isabelle Moulin deixou os membros da unidade anunciarem a seus filhos que eles haviam chorado sobre o corpo errado.

"Eles saíram com muita raiva. Foi como se tivessem lhes roubado esse momento com ela...", conta a mãe. "Acho que eles precisavam ouvir desculpas, que infelizmente não vieram. O representante do ministério só me respondeu que eu estava sendo muito injusta porque eles haviam feito o melhor possível". "Injusta" é uma palavra da qual ela não se esquecerá tão cedo.

A família identificou o corpo verdadeiro de Justine na mesma noite. Seu rosto estava intacto. O corpo lhes foi devolvido no dia 27 de novembro, dia da homenagem nacional no palácio dos Invalides, durante o qual foi realizado o velório.

Em 7 de dezembro, Isabelle retirou os pertences da filha com a polícia judiciária. Algo que ainda não foi explicado foi o fato de que dentro da bolsa de Justine estava seu bilhete único de transporte, com uma foto que poderia ter evitado qualquer confusão.

Tradutor: UOL

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