A última conversa entre dois jihadistas antes de atentado ser frustrado na Bélgica

Élise Vincent

  • AFP/BELGA/BRUNO FAHY

Em janeiro de 2015, homens que se preparavam para atacar duas delegacias de Bruxelas comentavam o massacre do "Charlie". Eles não desconfiavam que estavam sendo monitorados

Para entender a cena, é preciso imaginar a intimidade de uma sala mal iluminada. A tela de uma televisão e, em um canto, uma mesa e algumas cadeiras. Em um ponto cego, dois homens dos quais só se percebem as vozes: "Que dia é hoje?", pergunta um. "Quarta-feira... é amanhã a vez dos belgas", responde outro. As palavras são deliberadamente alusivas. Era 14 de janeiro, dia de inverno e de neblina em Verviers, pequena comuna-dormitório de Liège, no sudeste de Bruxelas. Os ataques contra o "Charlie Hebdo" e o mercado HyperCacher haviam acabado de acontecer, e os noticiários na TV absorviam qualquer tipo de silêncio.

Naquela noite, no primeiro andar desse pequeno prédio banal, as imagens amadoras dos irmãos Kouachi, do dia 7 de janeiro, saindo de sangue frio da redação do "Charlie Hebdo" depois de terem matado onze pessoas, causavam fascinação. "Não viu o vídeo? Está no Facebook", diz um. Os Kouachi, terminaram, desceram para entrar no carro, mas eles colocaram suas armas no chão. Depois disseram que tinha acabado e o carro chegou, os policiais, e bum, bum, direto"

Paralelamente ouviram o barulho de uma arma. O som, mais abafado, de um objeto que largaram. E depois, mais ameaçador: "Não se esqueça de carregar"

Os dois homens que conversavam no dia 14 de janeiro também estavam preparando um atentado. Seus alvos eram duas delegacias de polícia, inclusive o quartel-general federal. Sua conversa aparentemente inofensiva não passava de fachada. O ataque era iminente. Como eles sabiam que podiam estar sendo grampeados, eles tomavam cuidado com suas palavras, evitavam usar nomes próprios e escondiam qualquer tipo de indicação específica. Sua desconfiança era justificada. Há vários dias os policiais belgas e as agências de inteligência haviam grampeado com microfones seu apartamento, por quatro dias em que dissecaram cada suspiro deles.

O que aconteceu durante as horas que precederam um arroubo mortífero? O que conversaram entre si neobandidos que ambicionavam virar "jihadistas"? Das conversas entre os irmãos Kouachi antes do "Charlie", ou de Amedy Coulibaly com seus comparsas da periferia, provavelmente nunca saberemos nada. O apartamento de Gennevilliers (Hauts-de-Seine) de Chérif Kouachi, assim como o de Amedy Coulibaly em Gentilly (Val-de-Marne), não estava grampeado. Nem mesmo havia sido notado. A investigação judiciária no máximo conseguiu chegar até esse último SMS, o sinal de largada combinado para as 10h19, enviado logo antes do início das operações no dia 7 de janeiro. Mas seu conteúdo continua até hoje perdido nos limbos da telefonia móvel.

Em compensação, sabemos tudo das últimas conversas em Verviers. Até o último suspiro. No dia 15 de janeiro, as autoridades belgas acabaram lançando uma incursão contra o apartamento dos dois indivíduos, que não conseguiram escapar. As conversas anteriores, a partir de 12 de janeiro, preencheram páginas inteiras de registros. Elas foram encobertas pelo sigilo da instrução, mas o "Le Monde" pôde ter acesso a elas. Decifrá-las requer paciência. Ali é possível ouvir vozes, muitas vezes sem conseguir atribui-las a ninguém, e ruídos nem sempre identificáveis. Um sussurro basta para destruir uma conversa-chave. Mas de forma subentendida desponta a psicologia dessa nova onda de assassinos fanáticos revelada, oito dias antes, pelos ataques contra o "Charlie Hebdo" e ao HyperCacher.

Os dois homens que a polícia belga estava monitorando naquele início de janeiro, nesse pequeno apartamento do centro de Verviers, eram bem jovens. O primeiro, Khalid Ben Larbi, tem 23 anos, e o segundo, Soufiane Amghar, 26. Alguns anos a menos somente que os irmãos Kouachi e Amedy Coulibaly, que já passavam dos 30. Uma foto deles, radiantes, publicada na revista "Dabiq" da organização Estado Islâmico (EI), ainda circula na rede. Ali é possível vê-los de barba curta, camisa bege e sorriso simpático, ao lado de Abdelhamid Abaaoud, o suposto cérebro de seu plano de atentados e ataques parisienses de novembro de 2015.

Khalid Ben Larbi e Soufiane Amghar alegaram ser "soldados de Deus". Três dias antes da suposta data de seu atentado, a fé não os poupou nem da ansiedade, nem dos imprevistos. Assim como Chérif Kouachi, atacado por dores de estômago, e seu irmão Said que, no dia 6 de janeiro, véspera do ataque ao "Charlie Hebdo", passou o dia de cama devido a uma violenta gastroenterite. "O vizinho e a vizinha só entram e saem", resmunga com sono e preocupada, na manhã de 14 de janeiro, a voz de Soufiane ou de Khalid, quando não são nem 5h30. "Estou ouvindo a porta deles, está vendo a luz?" Um roteiro de fuga é repetido em voz baixa, caso as coisas saiam errado. "Você para lá. Depois que você for, eu atiro contra a porta e você abre."

Os dois rapazes sabiam que era um campo de guerra. Assim como Said Kouachi, que fora ao Iêmen em 2011, para uma curta estadia de treinamento nas fileiras da Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA), eles haviam acabado de voltar da Síria. Naquele início de janeiro de 2015, fazia menos de um semestre que eles haviam voltado. Eles fizeram um "estágio" com o EI na primavera de 2014, entre abril e agosto. Eles falavam sobre isso como para se convencerem de que estavam suficientemente experientes. "Eu me lembro de quando estive lá. Quando você ouve pela primeira vez. É isso, você não faz mais nada. Desde a primeira... bom.... dá... (ele imita suspiros e palpitações)."

E há sobretudo esse roteiro do ataque a dominar, esses alvos que não podem errar. Inclusive essa delegacia tão frequentada, tão detestada, do bairro onde eles cresceram, o tristemente célebre Molenbeek, essa dar ("casa" em árabe), como eles a chamam, pensando em enganar aqueles que escutam suas conversas. Seria possível imaginá-los manipulando planos: "Tem uma pequena vantagem quando eles vêm aqui, eles se esquecem de lá. Aqueles que entram por aqui vão parar lá. Sabe como é?" Ao fundo, é possível ouvir ainda a televisão, que dessa vez fala sobre os recordes de venda do "Charlie Hebdo". "É o que eu te dizia", interrompeu um deles, pego pela notícia, dando a entender que ele havia previsto esse ganho súbito de popularidade do semanário.

A tragédia que acabara de se abater sobre o jornal satírico quase que conseguiu retardar os dois aprendizes jihadistas. Eles riam nervosamente diante do noticiário de TV, e as manifestações maciças na França e no mundo os irritavam tanto quanto os intimidavam. Mas agora era 15 de janeiro, e até amanhã, dia 16, a princípio tudo estaria terminado. Eles também teriam "vingado o Profeta". A prioridade era não falhar.

"Só tem medroso. Acho que vou começar pelos caras, os policiais", vocifera um deles, como para se encorajar.

- Nunca tenho medo, diz o outro.

- Eles não fizeram nada quando publicaram as caricaturas, diz o primeiro, mostrando seus ressentimentos de que nenhuma ação violenta tivesse punido, na França, em 2006, a publicação desses desenhos que ele considera blasfemos.

- Você é louco ", retruca o segundo.

E agora eram três deles nesse pequeno apartamento de Verviers. Um outro jovem belga de 25 anos, chamado Marouane El Bali, juntou-se a eles. Foi sua chegada que precipitou a intervenção da polícia, ainda que o acaso quisesse que no final das contas ele fosse o único a sobreviver à incursão policial, ao pular da janela. Eram pouco mais de 17h quando bateram à porta. Barulho de passos. "Ah, senti tua falta, cara!" "Abraços, risos", anotaram os investigadores. "E aí, meu chapa?", lançou um dos dois anfitriões. "Confundi todo mundo", ele respondeu, zombeteiro. Sem muitas precauções, o pequeno grupo se mostrava empolgado em torno de um pacote que acabara de chegar. Erro fatal.

Pela primeira vez as palavras não estavam codificadas, e o pacote foi aberto: "Uma kalashnikov, uma francesa grande, longa, com empunhadura de madeira. Nada mau, hein?" Os irmãos Kouachi e Amedy Coulibaly tinham uma kalashnikov cada, essa "ferramenta" básica do jihadista perfeito, para suas chacinas. Em Verviers, todas as precauções tomadas nos dias anteriores para falar sobre o objeto caíram. Pressa de amadores? Os três amigos a manejavam, testando o "pente pequeno", o "pente grande". "É uma merda, na verdade", avisa um. "Se o tira estiver usando um capacete vai ricochetear, são balas que ricocheteiam", admite um outro. "Não vai ter erro?", questiona o último.

Agora que sabemos, graças à investigação, que Amedy Coulibaly provavelmente forneceu ele mesmo aos irmãos Kouachi, em uma discrição absoluta, suas armas de assalto, ao mesmo tempo em que se equipava de um verdadeiro arsenal de guerra em Verviers, a frivolidade na questão soa constrangedora. As dúvidas voltaram à tona e a discussão ficou tensa. "Vocês viram coisas mais graves lá (na Síria, subentende-se) e estão tendo medo aqui", diz uma voz irritada, provavelmente a de Marouane El Bali, suspeito de ter sido um dos principais coordenadores do plano. "O mais difícil é isso, maluco, o mais difícil é isso: 'tac!'", diz a mesma voz, imitando um tiro.

Nessa véspera do suposto atentado, um grande número de detalhes logísticos pareciam estar longe de finalizados em Verviers. Era preciso ainda aperfeiçoar os falsos documentos, confirmar a disponibilidade dos veículos, perguntar sobre a fidelidade de cúmplices que não eram fichados. Totalmente o contrário do preparo quase militar de um Amedy Coulibaly, na noite anterior ao ataque contra o "Charlie". Na noite de 6 de janeiro, este se encontrou com várias pessoas até a 1h da manhã nas ruas de Paris, passando para ver todos seus supostos cúmplices. Ele chegou a visitar Chérif Kouachi em Gennevilliers, talvez para lhe entregar as armas. Cada encontro parecia milimetricamente planejado.

Em Verviers, a pequena equipe se enrolou em sua logística mal definida, limitada em suas movimentações por causa de suas estadias na Síria, que poderiam ter sido amplamente documentadas pelas agências de inteligência. "Eles --os supostos cúmplices-- estão em uma lista e você não está nela, você ainda não viajou", apontou Soufiane ou Khalid para Marouane El Bali, o único dos três a não ter feito sua hijra ("imigração") para a "terra de Sham". Para o ataque contra o "Charlie Hebdo" e o HyperCacher, Amedy Coulibaly buscou tranquilamente em sua rede de ex-colegas de prisão e entre amizades de seu reduto em Essonne. Na época nenhum deles, assim como ele mesmo, estava fichado como indivíduo "radicalizado."

Nesse 15 de janeiro, em Verviers, em alguns minutos a conversa foi ficando cada vez mais confusa. "Incompreensível", anotou seguidamente o policial encarregado de transcrever as escutas. Aliás, foi nessa agitação que apareceram as alusões a Abdelhamid Abaaoud --conhecido como Omar ou "O" em suas conversas codificadas--, o suposto cérebro do plano de atentado. Eles mencionavam, entre outras coisas, as reticências de um membro da rede.

"'Tem algo de errado. Quando tenho um mau pressentimento, é fria', me disse o outro– um suposto cúmplice. Ele disse ainda : 'Ligue para o O'.

- O?

- Sim, o O.

- Abdel e todo o resto..."

O tom foi ficando ainda mais tenso, passando de digressões para risos nervosos. Depois a discussão se perdeu, com truques para escapar da vigilância aparecendo em casas noturnas até piadas sobre raspar a barba para arrumar "uma cara nova".

A manhã tranquila que precedeu o ataque ao "Charlie Hebdo", no dia 7 de janeiro de 2015, em Paris, não ocorreu em Verviers. A maquinação terrorista foi contida já nas primeiras horas do final de tarde. Khalid Ben Larbi, Soufiane Amghar e Marouane El Bali tiveram tempo só de se maravilharem uma última vez com um outro "irmão" ao qual o EI teria dado, na Síria, uma "terra" e uma "mulher", por ter passado por "dificuldades terríveis". "Ele quer construir, e eles lhe deram!", se empolgava um deles, quando se ouviu uma violenta explosão.

É assim que se frustra um atentado? De qualquer forma, a transcrição do ataque mostrou por si a intensidade da operação:

"Polícia! Polícia! " (Tiros.)

"Não há outro Deus além de Alá! Maomé é o profeta de Deus! Deus é grande!" (Tiros)

Duas menções sem floreios encerram a transcrição: "Barulho de incêndio. Ordens ao fundo."

Tradutor: UOL

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