Mitterrand, é você aí?

Arnaud Leparmentier

Depositemos nossa oferenda diante do altar da Mitterrandolatria. Vinte anos após sua morte, no dia 8 de janeiro de 1996, um século após seu nascimento, em plena batalha de Verdun, François Mitterrand se transformou em herói nacional. Todos estarão presentes em Jarnac na próxima sexta-feira, encabeçados por François Hollande, para prestar uma homenagem ao grande homem. Risível, quando lembramos da desgraça que marcou o final de sua vida.

Como bom europeu liberal, não temos de nos retratar. A Europa foi, juntamente com a abolição da pena de morte, o que restou de Mitterrand quando se esqueceu de tudo: o essencial. "Foi o único domínio sobre o qual ele demonstrou permanente convicção", resume Alain Lamassoure, que foi seu ministro das Relações Europeias durante a gestão de Balladur. O compromisso europeu foi para Mitterrand um mito para substituir o socialismo, uma vacina contra as errâncias econômicas de maio de 1981 com a adoção do rigor de 1983, e a garantia da incrustação ocidental da França ao lado da Otan.

Pois tudo começou com a briga dos euromísseis. Na época, a Otan previa instalar na Europa mísseis Pershing 2 em resposta aos SS-20 que os soviéticos haviam lançado alguns anos antes. A oposição dos movimentos pacifistas foi forte, sobretudo na Alemanha Ocidental. Mitterrand ditou o tom a partir do outono de 1982. "Eu também sou contra os euromísseis, mas constato que os pacifistas estão a oeste e os euromísseis, a leste". No dia 20 de janeiro de 1983, ele foi até Bonn para apoiar o novo chanceler Helmut Kohl, diante do Bundestag.

Desse compromisso nasceu uma ligação indefectível com Kohl, logo encarnada pelo aperto de mão de Verdun. Para os dois homens, a Europa era uma questão de guerra e de paz no século 21. Seus encontros começavam pelo mesmo ritual. Kohl, nascido em 1930, relembrava seu irmão mais velho morto na Wehrmacht. Mitterrand contava sobre como ficou preso e fugiu. Falavam sobre o congresso de Haia, em maio de 1948, inaugurado por Churchill. Mitterrand, como ministro dos ex-combatentes, já estava lá. E ficavam muito emocionados, sobretudo Kohl.

Era de ouro

Durante o reinado deles, a Europa viveu sua era de ouro, pois a partir de 1983 uma coisa foi levando à outra. O rigor francês e o famoso Conselho Europeu de Fontainebleau de junho de 1984: o armistício assinado com Margaret Thatcher, que obteve um desconto, justificado, sobre sua contribuição no orçamento europeu, enquanto Jacques Delors foi nomeado presidente da Comissão Europeia. O francês tirou a Europa do europessimismo e lançou o grande mercado de 1992, trazido pelo tratado mais liberal já acordado, o Ato Único Europeu (1986).

Depois veio a queda do Muro de Berlim. Não conte aos depositários do legado de Mitterrand, como o ex-secretário-geral do Eliseu, Hubert Védrine, que ele era contra a reunificação alemã. Eles não suportam essa afirmação. Na verdade, Mitterrand estava todo atrapalhado. Ele manteve uma absurda viagem para a Alemanha Oriental no final de dezembro de 1989, dando a impressão de ter sido pego pelos maus ventos da História. O medo ancestral da Alemanha ressurgiu. É verdade que o chanceler Kohl lhe tornou a tarefa impossível, insistindo em não reconhecer a intangibilidade da fronteira germano-polonesa ao longo dos rios Oder e Neisse por razões eleitoreiras.

Legados negligenciados

Tudo acabou se acertando, a reunificação aconteceu e permitiu proteger o lançamento do euro, decidido em Maastricht, em dezembro de 1991. "Se Mitterrand não tivesse construído uma relação excepcional com Kohl, a Alemanha reunificada talvez tivesse ficado escondida e teríamos permanecido na zona do marco", acredita Hubert Védrine.

Mitterrand continuou sendo um jogador político, mesmo com a Europa, e convocou um referendo. "É preciso saber assumir riscos. E topar com isso não seria tão mau", disse o chefe do Estado a Jean-Louis Bianco, que foi seu secretário-geral ("Mes années avec Mitterrand", Meus Anos com Mitterrand, Ed. Fayard, 2015).

Doente, Mitterrand entrou na batalha com um debate na TV contra Philippe Séguin, arauto do "não". Kohl também entrou na transmissão, como em um deus ex-machina. No dia 20 de setembro de 1992, o "sim" venceu por pouco, auge do projeto franco-alemão para a Europa. "Mitterrand foi o último europeu a comandar a França. Ponto", resumia Joachim Bitterlich, ex-conselheiro diplomático de Kohl. Em seu último discurso de fim de ano, no dia 31 de dezembro de 1994, o presidente formulou uma recomendação aos franceses: "Não separem nunca a grandeza da França da construção da Europa".

Nem a esquerda nem a direita assumiram esse legado. Lionel Jospin, que entrou como primeiro-ministro em 1997, era um europeu relutante. Ele achava a Europa liberal demais, considerava que Tony Blair e Gerhard Schröder, representantes da terceira via, não eram verdadeiros socialistas. A Europa socialista foi um fracasso e deixou, com Jacques Chirac, qualquer um entrar no euro. O editorialista do "Le Monde" Pierre-Antoine Delhommais detectou o perigo, denunciando em março de 1998 "o carnaval dos critérios de Maastricht".

Quanto a François Hollande, o "não" ao referendo em 2005 o impediu de fazer da Europa seu horizonte político. Hoje no Eliseu, ele sofre duplamente com a crise de Schengen e do euro, dois legados de Mitterrand negligenciados durante 20 anos. O chefe do Estado tentou salvá-los, mas o enfraquecimento econômico da França reduziu seu controle político na Europa.

Em vez de ir a Jarnac, seria melhor copiar Mitterrand mesmo e ir a Berlim, com um verdadeiro discurso no Reichstag sobre os refugiados e o euro, acompanhado de uma série de reformas. Para reformar a confiança e a aliança com a Alemanha, e para recuperar a força e o espírito de 1983.

Tradutor: UOL

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