Israel combate terrorismo judaico de extrema-direita

Piotr Smolar

  • Baz Ratner/Reuters

    Depois de reação popular, como o protesto de agosto de 2015 em Tel Aviv, governo de Israel tem intensificado combate a extremistas judeus

    Depois de reação popular, como o protesto de agosto de 2015 em Tel Aviv, governo de Israel tem intensificado combate a extremistas judeus

O terrorismo judaico é parecido com qualquer outro, baseando-se em um núcleo de ativistas violentos e uma ideologia retroalimentada. É essa realidade que o governo e os serviços de segurança israelenses decidiram enfrentar, despertando polêmica sobre os meios utilizados e alegações de tortura.

No domingo (3), dois jovens colonos foram indiciados em um caso muito delicado, após cinco meses de investigação: o do incêndio criminoso da residência dos Dawabsha, uma familia palestina do vilarejo de Duma, na Cisjordânia, no dia 31 de julho de 2015. Ali, um bebê de 18 meses morreu e seus pais também, em decorrência dos ferimentos.

Amiram Ben-Uliel, 21, filho de rabino, foi considerado o único autor desse ato criminoso. Um menor de 17 anos, E., que interrompeu seus estudos religiosos há dois anos para viver nos postos avançados no norte da Cisjordânia, teria se encarregado de fazer observações a distância e não esteve presente no fatídico dia. Ele também foi indiciado por quatro outros ataques contra bens palestinos ao longo dos últimos 18 meses.

O Shin Bet (serviço de segurança interno) havia sido muito criticado desde o verão pela ausência de resultados na investigação. O anúncio de que os suspeitos haviam confessado após ser indiciados causou polêmica. Seus advogados denunciaram torturas psicológicas e físicas sofridas durante os interrogatórios. Shai Haber, que defende o menor E., explica que ele não conseguiu ver seu cliente durante 21 dias, em dezembro de 2015.

Tabu quebrado

"Em seguida ele me contou como o torturaram", explica o advogado. "Por exemplo, eles cobrem seu rosto e batem em você. Ou o colocam em um banco, com os pés e as mãos algemados, e fazem com que você dobre suas costas para trás. Além disso, há a privação de sono." Os defensores dos suspeitos ressaltam que, pela primeira vez, o Shin Bet utilizou esses métodos contra judeus, quebrando um tabu. O Shin Bet garante que os procedimentos previstos em caso de "bomba-relógio", ou seja, uma ameaça imediata, foram respeitados. Em um caso delicado desses, ele nunca teria agido sem aval do governo.

O ministro da Educação, Naftali Bennett, líder do partido de extrema-direita Lar Judaico, manifestou apoio ao Shin Bet. "O que foi feito aos detentos de Duma certamente não foi mais, e provavelmente menos, do que aquilo que se costuma fazer com os palestinos suspeitos de terrorismo", observou. Mas uma parte da direita nacionalista religiosa, seguindo os advogados de defesa, denunciou essas práticas. Um outro deputado do Lar Judaico, colono e nova liderança nacionalista, Bezalel Smotrich, refutou a classificação de "terroristas" para os judeus e fala que seriam jovens "impacientes" e "decepcionados" com o governo. Segundo ele, o Shin Bet teria "passado de todos os limites".

Em 1999, o Supremo Tribunal de Justiça teria restringido o uso de métodos de pressão análogos à tortura a casos excepcionais, quando a ameaça de um atentado iminente é estabelecida, com o consentimento do procurador-geral. Essa seria uma condição suficientemente vaga para permitir a continuidade pontual desse método contra suspeitos palestinos em meio à indiferença, apesar dos sucessivos relatos de organizações de defesa dos direitos humanos, como a B'Tselem. "Se um terrorista judeu quisesse colocar uma bomba em uma mesquita, eu não teria nenhum problema com o Shin Bet torturando seu motorista, para saber onde e quando", argumenta Haber. "Mas jamais, jamais para obter uma confissão sobre um ato passado, por mais grave que tenha sido."

Em um comunicado atípico, o Shin Bet justificou ter usado esses métodos por causa dos objetivos do grupo ao qual os suspeitos pertencem, chamado A Revolta: derrubar o governo de Israel, matar palestinos, expulsar os não judeus, depreciar minorias. O líder desse grupo é Meir Ettinger, neto do rabino Meir Kahane, morto em 1990, que foi deputado na Knesset e criador do partido racista Kach, banido tardiamente pelas autoridades.

O incêndio criminoso da casa dos Dawabsha não foi um ato impulsivo e isolado. Ele fazia parte de uma estratégia de escalada. "Existe um núcleo de algumas dezenas de terroristas, cercado por centenas de extremistas que pertencem à juventude das colinas, e por uma população de colonos na Cisjordânia que apoia esses ativistas", explica Lior Akerman, ex-chefe da divisão no Shin Bet. Eles iniciaram suas atividades com tumultos, incêndio de oliveiras e de carros, espancamento de árabes. Devido à incapacidade do governo de controlá-los, eles se tornaram mais radicais, planejando uma revolta clandestina contra o Estado e assassinatos. "A reação das autoridades, peremptória mas tardia, deve permitir neutralizá-los e frear sua capacidade de recrutar", diz Akerman.

Professor na universidade hebraica de Jerusalém, Shlomo Fischer, que prepara um livro sobre o sionismo radical, sugere que esse projeto messiânico seja ressituado em uma perspectiva histórica. "Trata-se de uma questão cultural, e não médica ou só criminal", diz. Esses jovens das colinas vivem com a ideia de um retorno "rousseauísta" à terra, para reencontrar sua identidade autêntica e se conectar com Deus. "Mesmo o quipá que eles usam, feito em um tecido grosseiro, demonstra uma ruptura com a sociedade materialista", ele diz.

"Obsessão com a autenticidade"

Esses jovens extremistas, que muitas vezes abandonaram os estudos, mas vieram de famílias-padrão, vivem todos em postos avançados, ou seja, habitações clandestinas nas colinas. Ilegais, mas raramente desmanteladas pelo ocupante. O Shin Bet e a polícia têm em sua posse um manifesto do A Revolta, que descreve um modo de organização clandestino, por células independentes, relatou a imprensa. "Esse manifesto retoma ideias que vêm circulando desde os anos 1980", observa o professor Fischer. "Elas concedem, por exemplo, a autoridade religiosa aos ativistas, e não aos rabinos, considerados corruptos e vendidos. Esses jovens são obcecados pela autenticidade, assim como os voluntários europeus que se juntam ao Estado Islâmico. Eles odeiam os árabes. Mas seu pior inimigo é o inimigo próximo, o Estado israelense, assim como são os regimes nacionalistas árabes impuros para a Al-Qaeda ou o Estado Islâmico."

Os vídeos recentes de um casamento de colonos foram destaque em toda a mídia israelense, mostrando dezenas de jovens extremistas judeus cantando e dançando. alguns deles brandiam fuzis de assalto, um outro esfaqueava uma foto de Ali, o bebê da família Dawabsha. Alguns indivíduos foram detidos para interrogatório, e o porte de arma das pessoas identificadas poderá ser revogado.

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Tradutor: UOL

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