Para franco-marroquinos, problema na França não é de nacionalidade

Julia Pascual

  • Abdeljalil Bounhar/AP

    Em novembro do ano passado, logo após os ataques terroristas em Paris, marroquinos organizaram em Rabat ato em solidariedade aos franceses

    Em novembro do ano passado, logo após os ataques terroristas em Paris, marroquinos organizaram em Rabat ato em solidariedade aos franceses

Ela chama isso de sua "zona de conforto". Quando Nadia Bouanani resume a vida que leva com seu marido, Elias, ela não menciona dificuldades: "A gente se diverte no trabalho, temos nossos filhos, vivemos em uma bela região..." Ele concorda, completando a imagem de um casal na faixa dos 40 anos, a encarnação modelo da ascensão social da "segunda geração".

Descendentes de marroquinos naturalizados franceses, eles mesmos franco-marroquinos, Nadia e Elias são proprietários de uma casa em Voiron, comuna tranquila situada a 25 quilômetros de Grenoble. Ela é encarregada de negócios de uma multinacional do setor de energia, enquanto ele é o responsável jurídico de uma associação de ajuda a imigrantes. Eles comemoram o Natal, assistem a séries norte-americanas no Netflix e folheiam o "L'Obs" aos fins de semana. Seus dois filhos frequentam a escola particular do bairro.

Eles pouco têm a ver com aquilo que Nadia chama de "visão deturpada dos imigrantes", saturada de conceitos de "marginalidade" e de "delinquência". Essa mãe de família atribui seu percurso um pouco à sorte e, sobretudo, à sua determinação: "Eu trabalhei, trabalhei e trabalhei". Sua mãe, Mina, complementa: "Sempre incentivamos nossos filhos para que eles tivessem sucesso".

"Nosso país é a França"

Mina não aparenta seus 67 anos. De passagem pela casa de sua filha e de seu genro, essa aposentada se prepara para voltar ao lugar onde ela "criou raízes" há mais de 40 anos, em Drancy (Seine-Saint-Denis). No entanto, o primeiro contato com o subúrbio parisiense, em 1969, não prometia todo esse apego. Quando Mina chegou de Casablanca, foi para ver sua irmã doente. Ela não conhecia "ninguém". "Não havia todas essas lojas como hoje. Eu não podia sair e não tínhamos dinheiro."

Os pais de Elias, Fatima e Ahmed, não guardam uma lembrança muito mais feliz de sua chegada, na mesma época, à pequena comuna saboiana de Moûtiers, onde nevava na quinta-feira (7). "Foi muito difícil", conta Fatima Bouanani, de 75 anos. "Eu nunca tinha visto neve."

De forma modesta, mas determinada, os pais de Elias, assim como os de Nadia, fizeram sua vida na França. "Não encho o saco de ninguém e ninguém me enche o saco", resume Mina. Fatima usa a mesma expressão. Em seu apartamento em uma antiga cidade operária, ela e Ahmed dizem estar "acostumados". Ela, hoje atarefada em sua cozinha, e ele, mergulhado em suas leituras, que vão desde o Corão até Guy Bedos. "Estamos bem aqui. Somos marroquinos, de nacionalidade francesa", resume Fatima. "Nosso erro foi ter construído uma casa lá e não aqui", diz Ahmed. "Nosso país é a França", dizem com ainda mais convicção Nadia e Elias, que só falam de forma imperfeita o árabe dialetal.

Somente o pai de Nadia voltou ao país, onde ele recomeçou sua vida depois de ter trabalhado como taxista. Mina teve uma trajetória mais fragmentada, alternando, após vários anos em um restaurante de empresa, as horas de faxina e o trabalho como babá nem sempre declarados com períodos de desemprego, um contrato subsidiado e depois a RSA (renda de solidariedade ativa, uma espécie de seguro-desemprego) até a aposentadoria, em 2014. "Hamdulilah [graças a Deus], estamos aqui com boa saúde", ela conclui. Fatima também trabalhou como agente de limpeza, enquanto Ahmed, 83, trabalhou em armazém e como mecânico em uma concessionária da Peugeot.

O orgulho dessa "primeira geração" é o sucesso de seus filhos. Elias e seus quatro irmãos fizeram faculdade. Ele se formou em direito europeu. "Nem os franceses se saem como os filhos de Bouanani", diz com satisfação Fatima, que nunca foi à escola.

A conselho de uma senhora em cuja casa ela fazia faxina, Mina quis que Nadia e sua irmã frequentassem uma escola particular de meninas. E enquanto Fatima matriculava seus filhos na MJC (casa de jovens e da cultura) de Moûtiers, Mina enviava suas filhas e seu filho para um programa de intercâmbio do Secours Catholique (Caritas): "Passei todas as minhas férias escolares em uma família de Flandres, dos 7 aos 24 anos", conta Nadia.

Ela deixou Drancy quando se casou, aos 29 anos. Nadia e Elias se conheceram em Val Thorens. "Eu não queria necessariamente ficar com um marroquino, mas eu precisava ser compreendida por alguém que tivesse a mesma fé que eu". Uma fé considerada como eminentemente "íntima" e "privada". Diferentemente de sua mãe, Nadia não faz suas cinco orações diárias nem usa o véu: "Não me sinto preparada", ela justifica. Seu marido objeta: "Você destruiria seu sucesso por um véu que não é admitido na sociedade".

Uma sociedade de cujo "senso de interesse público" eles compartilham, mas que eles sentiram ser tomada por uma tensão: "Após os atentados de novembro, um colega me disse: 'Os muçulmanos devem se rebelar'. Eu lhe disse que aquilo era quase um insulto. Evidentemente eu não me reconhecia dentro daquilo. Depois entendi que as pessoas estavam sendo levadas pela emoção". Uma emoção que ressurgiu no debate sobre a revogação da nacionalidade: "As questões da França não são essas", lamenta Nadia. "É a transição energética, a moradia, os empregos que vão dar a nossos filhos..." Elias gostaria que seus filhos fossem "poliglotas" e "abertos"; e Nadia, que "eles tenham o mundo como perspectiva de futuro".

Tradutor: UOL

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