Além da fome, cidade sitiada na Síria também sofre com as barganhas políticas

Laure Stephan, com Louis Imbert e Hélène Sallon

Em Paris

  • ICRC/AP

    Comboio com ajuda humanitária chega a Madaya, na Síria

    Comboio com ajuda humanitária chega a Madaya, na Síria

Em poucos dias, Madaya se tornou um símbolo das cidades sitiadas pelo regime na Síria. As imagens do sofrimento de seus habitantes passando fome rodaram o mundo, provocando uma onda de indignação. O cerco a esse vilarejo do maciço montanhoso de Qalamoun, próximo do Líbano e de Damasco, está no centro de intensas negociações, às vésperas do encontro de Genebra que deve abrir novas conversas entre a oposição e o regime no dia 25 de janeiro.

Na segunda-feira (11), um comboio de ajuda humanitária da ONU, do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho sírio finalmente conseguiu encaminhar alimentos, medicamentos e cobertores para Madaya, sitiada pelo Exército sírio e pelo Hezbollah libanês desde o verão de 2015. Nenhum comboio havia entrado no local desde outubro.

A falta de comida levou a casos graves de inanição nessa cidade de 40 mil habitantes, dos quais quase metade são refugiados da cidade vizinha de Zabadani, e onde se entrincheiraram combatentes anti-Assad. Segundo a Médicos Sem Fronteiras, 28 pessoas teriam morrido de fome desde o começo de dezembro.

Para além desses fatos, essa crise humanitária tem sido alvo de uma exploração política por todos os partidos. "Cada lado, seja pró ou anti-Assad, tem explorado Madaya com um intuito político", ressalta um observador do conflito sírio. Depois de ter finalmente autorizado o acesso da ajuda humanitária à cidade, o regime, que nega a existência de uma tragédia, pretende mostrar sua "plena cooperação", para usar as palavras do embaixador sírio da ONU, Bashar Jaafari, na segunda-feira.

Já a oposição da Coalizão Síria quer mostrar que seus alertas à comunidade internacional sobre o calvário de Madaya deram seus frutos, o que poderia ajudar a fazer com que sua participação seja aceita nas negociações de Genebra, cujos métodos ainda estão longe de ser unanimidade entre os sírios.

Situação humanitária desastrosa

Para a comunidade internacional, a ideia é encontrar uma aplicação concreta para a resolução aprovada no dia 18 de dezembro pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas visando desenhar um processo político na Síria, que exige o acesso da ajuda humanitária às zonas sitiadas. Mas por falta de resultados tangíveis em outras localidades que têm sofrido um cerco igualmente implacável imposto pelo regime, como o de Mouadamiya, no subúrbio de Damasco, Madaya se tornou um parâmetro para Paris e Londres. O destino da pequena cidade esteve no centro das consultas a portas fechadas, no Conselho de Segurança, na segunda-feira.

A chegada da ajuda humanitária na segunda-feira foi saudada por diversas ONGs ativas na crise síria, mas os atores humanitários ressaltam que essa distribuição, que deverá permitir cobrir as necessidades de alimentos e medicamentos durante um curto período, não resolve em nada o destino dos habitantes.

"Não é uma entrega que vai fazer a diferença, ainda que seja melhor que nada e que essa ajuda seja necessária", observa o membro de uma ONG internacional. "E ainda assim temos direito de perguntar por que há tanta divulgação sobre o acesso a Madaya, sendo que em toda a Síria estamos assistindo a um bloqueio crescente da ajuda humanitária". O Comitê Internacional da Cruz Vermelha reiterou seu apelo para que a entrada da ajuda humanitária possa ser regular nas diferentes zonas sitiadas ou de difícil acesso.

A entrega de alimentos e de medicamentos autorizada na segunda-feira para Madaya foi alvo de longas negociações, que continuaram até tarde da noite na véspera da partida do comboio. Além disso, ela foi sujeita a diversas condições. O regime conseguiu com que a ajuda fosse sincronizada e proporcional àquela distribuída em Foua e Kefraya, dois vilarejos pró-Assad do noroeste da Síria, onde a situação humanitária também é "desastrosa" segundo as agências das Nações Unidas. Entre 20 mil e 30 mil pessoas estão sitiadas ali desde o verão de 2015 pelo Exército da Conquista, uma coalizão liderada pelos jihadistas da Frente Al-Nusra e pelos combatentes salafistas da Ahrar al-Sham.

Esses comboios simultâneos vieram após um primeiro acordo de evacuação que permitiu, no final de dezembro, que 450 combatentes e civis, incluindo muitos feridos, deixassem Foua e Kefraya, do lado do regime, e a cidade de Zabadani, próxima de Madaya, do lado dos rebeldes. Esta última havia sofrido em julho um ataque do Exército sírio e do Hezbollah libanês, que tentavam bloquear o maciço de Qalamoun, na entrada de Damasco. O acordo que permitiu essas evacuações havia sido selado pelo Irã, padrinho do Hezbollah e um dos principais apoiadores de Damasco, e pelo Exército da Conquista, que haviam se encontrado na Turquia em setembro. As discussões foram facilitadas pelas Nações Unidas.

Troca de populações

A identidade das pessoas evacuadas não foi revelada. A maioria dos combatentes que saíram de Zabadani pertence ao Ahrar al-Sham, enquanto homens do Hezbollah libanês, que junto com outros combatentes xiitas do Oriente Médio apoiam milicianos locais, puderam deixar Foua e Kefraya, segundo uma fonte informada. Ainda que tecnicamente Madaya não tenha feito parte do acordo, combatentes feridos teriam sido evacuados em dezembro do vilarejo.

O acordo, precedido por tréguas, acabou prevalecendo em uma situação de cercos entravada militarmente. Em cada campo, a população se viu como refém de intenções bélicas. Segundo vários militantes e observadores, a ideia é realizar uma troca de populações, entre xiitas pró-Assad de Foua e Kefraya cercados em uma zona sob controle rebelde, e sunitas anti-Assad de Zabadani e de Madaya que se encontram em uma região que as forças pró-regime querem bloquear.

Ao transferir essas pessoas, cada beligerante teria liberdade para continuar com seus avanços nas zonas em questão. Mas uma troca como essa também resultaria em mudar a demografia dessas regiões, ao menos temporariamente. "O regime e o Irã estão introduzindo de propósito essas mudanças demográficas especialmente nos arredores de Damasco e de Homs, o que terá consequências graves", acusa Riyad Hijab, coordenador da oposição para as negociações com o regime, de passagem por Paris. "Eu disse a Staffan de Mistura, emissário da ONU para a Síria, que sua equipe não deveria participar dessas políticas de mudança demográfica e deveria condená-las."

Embora essas negociações tenham de fato permitido a evacuação de feridos e a entrega de ajuda humanitária, o mecanismo poderia criar um precedente perigoso. "Não temos como não comemorar a entrada de ajuda em Madaya", afirma Nadim Houry, vice-diretor para o Oriente Médio da organização Human Rights Watch. "O risco é que embora sejam mecanismos de negociações utilizados para trazer a ajuda, isso confere uma legitimidade à tática ilegal do cerco às populações, que o regime iniciou em 2012. A ajuda deve chegar até onde é necessária, ela não pode se tornar objeto de uma barganha."

Tradutor: UOL

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