Debate sobre jihad globalizada gera divisões ideológicas cada vez mais profundas

Nicolas Truong

  • Stephane Mahe/Reuters

Em janeiro de 2015, a França ficou devastada, mas ela era "Charlie". E as manifestações de 11 de janeiro haviam consolidado esse momento histórico onde direita e esquerda, Paris e interior se uniram pela defesa das liberdades, a ponto de o historiador Jacques Julliard detectar ali um "Maio de 68 da sensibilidade".

Mas uma outra França não era "Charlie", e ela o disse com convicção. Em um ataque repleto de estatísticas e mapas, o demógrafo Emmanuel Todd criticou essa França "branca" que, naquele dia, teria saído às ruas para "definir como necessidade prioritária o direito de cuspir na religião dos fracos" ("Qui est Charlie? Sociologie d'une crise religieuse", Quem é Charlie? Sociologia de uma crise religiosa, Ed. Seuil, 2015).

No entanto, ao mesmo tempo em que condenava esses "crimes fascistas" e "antissemitas", o filósofo Alain Badiou acusou --assim como outros intelectuais "radicais"-- o jornal satírico de praticar um "racismo cultural" em relação aos muçulmanos, que constituem a maior parte dos proletários dominados pelo capitalismo globalizado. E, ao mesmo tempo em que elogiava a "comunhão laica" do 11 de janeiro, o escritor republicano Régis Debray apontou para o surgimento de um "macarthismo democrático" empregado contra aqueles que recusassem a ordem governamental de "manifestar-se contra a barbárie" por trás de Serguei Lavrov, Viktor Orban ou algum outro "defensor dos direitos humanos".

Desde então, as linhas divisórias se deslocaram, mas o abismo se aprofundou e a ruptura se alargou. Republicanistas contra islamo-esquerdistas, intervencionismo versus multilateralismo, neoconservadores contra esquerdistas, identitaristas contra multiculturalistas, francofobia contra islamofobia; os debates, independentemente de colocarem em cena oposições bem definidas ou controvérsias mais sutis, estão longe de encerrados.

O povo ausente

Sendo ou não "Charlie", uma constatação logo ficou clara. Durante as manifestações do 11 de janeiro, uma parte do povo esteve ausente. Como percebeu muito rápido o historiador Pierre Rosanvallon, "uma parte do país ficou quieta" naquele dia. Uma porção da França do subúrbio, composta sobretudo por gerações mais jovens descendentes de imigrantes, mas também da França periférica, praticamente não se manifestou. De um lado a França integrada, do outro a França esquecida. Como resume o ensaísta Alain Finkielkraut, "esse movimento emocionante de união nacional revelou a realidade assustadora da divisão na França."

Mas a polêmica foi sobre a natureza dessas divisões. Para uns, como o historiador Georges Bensoussan, os "territórios perdidos da República" onde há muito tempo vem se espalhando um antissemitismo virulento e um racismo anti-brancos se separaram conscientemente da nação; para outros, como o historiador Patrick Weil, a ruptura de parte da juventude, que teve uma fração que optou pela radicalização, também vem de uma gritante falha na integração. Autor de "Ce que dit Charlie" ("O que diz o episódio do Charlie", Ed. Gallimard), o historiador Pascal Ory redefine a polêmica através de um lembrete histórico: "Em nenhum momento da história de um país um 'povo' saiu às ruas", já que desde a Festa da Federação até as comemorações da Libertação as grandes manifestações nunca reuniram todas as categorias sociais de uma nação.

Poucos "Je ne suis pas Paris"

Após os massacres de 13 de novembro, uma ínfima minoria daqueles que não eram "Charlie" quase poderia ter dito "Não sou Paris". Não porque apoiassem as chacinas perpetradas pelos terroristas islamitas, mas porque colocavam em xeque a assimetria de sua midiatização, assim como a desproporção nas indignações.

"Por que choram os mortos de Paris mais do que os de Beirute?", questionaram alguns intelectuais renomados. Encarregada de pesquisa no CNRS, Nadia Marzouki logo dissecou os limites dessa polêmica que, segundo ela, é defendida por parte da esquerda crítica, do escritor britânico Tariq Ali até a filósofa americana Judith Butler, ou mesmo pelo teólogo suíço Tariq Ramadan.

Isso porque essa concorrência das vítimas acompanhada de um confronto das lamentações reduz a análise à contabilidade, e a política à compaixão. A comoção desproporcional da mídia não refletia o narcisismo do Ocidente, somente uma atenção particular a essa cidade de Paris que, no imaginário político, "representa o mundo", como dizia Jules Michelet. É mais a "compassividade bem pensante" de um certo esquerdismo intelectual que beira o "paternalismo" em relação aos orientais, diz Nadia Marzouki, pois estes "não precisam da pena do Ocidente para se afirmarem como atores soberanos de seu futuro."

O retorno do religioso

O debate também se deu sobre a dimensão religiosa da explosão. Atribuíram o recrudescimento do niilismo criminoso dos terroristas islamitas ao "vazio espiritual" de nossas sociedades liberais, que embora sejam desenvolvidas estão tristemente desiludidas. Nossa "crise principal" não é sociopolítica, insiste o filósofo Abdennour Bidar, autor de "Lettre ouverte au monde musulman" (Carta Aberta ao Mundo Muçulmano", Ed. Les Liens qui Libèrent, 2015): "É uma crise espiritual de ausência radical de visão de um sublime no homem".

É obrigatório pensar que se esqueceu do religioso. Praticamente o mesmo se ouve do lado do filósofo católico Pierre Manent que, em "Situation de la France" (Ed. Desclée de Brouwer, 2015), propõe aos muçulmanos da França uma espécie de toma lá dá cá: "Nosso regime deve ceder e aceitar sinceramente seus costumes, uma vez que vocês são nossos compatriotas", ele escreve. "Mas vocês deverão em troca aceitar a liberdade de crítica, que está na base dos valores europeus."

Mas por que "espiritual" seria sinônimo de "religioso", e em nome de quê as religiões teriam o monopólio do sentido?, retrucam os filósofos Pascal Engel e Claudine Tiercelin. De fato, a justiça, a igualdade, a fraternidade, a verdade e a razão são "ideais que carregam tanto sentido e transcendência quanto aqueles que deveriam lhe servir de substituto espiritual".

No entanto, relativiza o filósofo Marcel Gauchet, "o fundamentalismo islâmico é o sinal paradoxal de que o religioso tem se perdido". Isso porque a ocidentalização do mundo tem conquistado todas as áreas geográficas, apesar desses sobressaltos mortíferos e sanguinários. O desencantamento do mundo é nosso horizonte comum e milhares de jihadistas encapuzados não mudarão nada disso.

Islamização da radicalidade ou radicalização do islamismo?

Mas esse discurso pode ser ouvido agora que os conflitos no Oriente Médio assumem a forma de novas guerras religiosas? Essa abordagem por ser compreensível no momento em que jovens europeus afirmam estar pegando em armas em nome do islamismo?

Resumindo, o terrorismo islamita procede de uma "islamização da radicalidade", como alega o analista político Olivier Roy ou senão de uma "radicalização do islamismo" defendida pelos jihadistas da terceira geração, como afirma o especialista em islamismo Gilles Kepel ("Terreur dans l'Hexagone, Genèse du jihad français", "Terror na França, Gênese da jihad francesa", Ed. Galimard, 2015). Portanto, há uma briga de interpretações e um choque de representações.

"Desculpismo" e "cegueira" dos "bem pensantes"

Isso porque o debate mais agudo é entre culturalistas e terceiro-mundistas. Para os primeiros, a cultura muçulmana é incompatível com a civilização ocidental, e mais ainda com a República francesa que desenvolveu uma laicidade mais estrita que os outros países europeus, herança de sua longa luta anticlerical. Isso explica a galopante "francofobia". Para os outros, a segregação social e espacial que afeta há décadas os jovens da periferia reproduz uma situação neocolonialista que provoca a radicalização de alguns. Isso explica a "islamofobia" prevalecente.

Mas um outro debate a prolongou. No caso, o da "cultura da desculpa" supostamente veiculada pelas ciências sociais. O primeiro-ministro Manuel Valls, que se envolveu nesses duelos intelectuais, afirmou no dia 25 de novembro de 2015 à Assembleia Nacional, que "nenhuma desculpa social, sociológica e cultural" poderia justificar o terrorismo. A diversidade de perfis dos jovens radicalizados, que não são todos miseráveis, longe disso, mas também filhos da classe média, reforçou a crítica do sociologismo assimilado ao "desculpismo", uma questão que divide a esquerda, mas também o campo liberal.

Assim, o ensaísta conservador americano Paul Berman refuta a lógica das "causas profundas" recorrendo às grandes lições da tragédia e da poesia antigas segundo as quais o ódio se propaga sem razões sociológicas, ao passo que o escritor Guy Sorman lamenta nossa política dos guetos étnicos, assim como nosso laicismo exacerbado: "Se não podemos ser muçulmanos na Europa, nós nos tornamos muçulmanos contra a Europa."

Estouro da bolha ocidental

Se o choque dos atentados endureceu posições ideológicas (sobre o islamismo e a laicidade, ou entre os "democratas" e os "republicanos", por exemplo), a explosão também deslocou muitas linhas de demarcação. Hoje, é a respeito desse estado de emergência e da revogação da cidadania que o mundo intelectual se vê dividido.

Mas, ainda assim, as oposições não cobrem as divergências que surgiram entre os que são contra e os que são a favor do "Charlie". Essa questão chega a dividir a esquerda, tendo de um lado aqueles que acreditam que o governo tem razão ao "limitar os riscos de descontrole" (como Pierre Rosanvallon) e, de outro, aqueles que apontam para o risco do advento de um "Estado de segurança" permanente (como o filósofo italiano Giorgio Agamben).

As referências intelectuais e as bússolas ideológicas estão confusas porque o mundo acaba de mudar bruscamente. Porque a bolha ocidental estourou com os golpes desses jihadistas que "voltaram a modernidade contra ela mesma", explica o jurista Antoine Garapon ("Violences sans fin", "Violência sem fim", "Esprit" no 421, janeiro de 2016). Então nossas sociedades precisam encarar a necessidade de agir, mas também a urgência do pensar.

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