Kyriakos Mitsotakis assume a liderança da direita na Grécia

Adéa Guillot

  • Alkis Konstantinidis/Reuters

    Kyriakos Mitsotakis chega à sede do partido conservador grego Nova Democracia, um dia depois de vencer as eleições da legenda

    Kyriakos Mitsotakis chega à sede do partido conservador grego Nova Democracia, um dia depois de vencer as eleições da legenda

O partido conservador grego ND (Nova Democracia) nomeou, no último domingo (10), seu novo presidente após uma disputa interna de mais de três meses. Foi o ultraliberal Kyriakos Mitsotakis, 47, que venceu com 51% dos votos seu adversário de 62 anos, Evangelos Meimarakis (49% dos votos), ex-presidente interino entre julho e dezembro de 2015. Os resultados foram publicados no domingo à noite com base em 70% dos votos apurados.

Na ofensiva, Kyriakos Mitsotakis imediatamente prometeu aos gregos "colocar um fim ao último parêntese populista" que para ele representa o governo de Alexis Tsipras, um ataque frontal que já dá sinais de qual será o tom assumido pela oposição política na Grécia a partir de agora. "Seu objetivo é muito claro", explica o analista político Georges Sefertzis. "Ele acha que Tsipras e seu partido de esquerda radical Syriza são perigosos para a Grécia e espera conquistar a adesão dos cidadãos gregos para o Nova Democracia o mais rápido possível para reverter a situação."

Uma tarefa que promete ser complicada, uma vez que o ND perdeu as duas últimas eleições legislativas de janeiro e de setembro de 2015, e a campanha para essas primárias revelou sérias divisões internas. Os cerca de 320 mil integrantes do partido, entre 400 mil, que se deslocaram em massa no domingo para votar, de qualquer forma deram um ponto final à dominação da família Karamanlis, que controlava o aparelho do ND desde sua criação, em 1974, por Konstantinos Karamanlis. "Pode-se realmente dizer que ele venceu o aparelho que tentou mobilizar todas suas forças para contê-lo", ressalta Elias Nikolakopoulos, professor de ciências políticas. Sua vitória marca também o fim da predominância da direita populista e muito direitista dos últimos anos. "É um burguês, advogado formado nas melhores universidades norte-americanas e herdeiro da família Mitsotakis, que sempre seguiu a linha mais centrista da direita grega."

Cortejando a classe média

Kyriakos Mitsotakis é de fato o filho do ex-primeiro-ministro Konstantinos Mitsotakis (1990-1993) e irmão de Dora Bakoyiannis, deputada (pelo ND) e ex-prefeita de Atenas. Esse perfil dinástico inicialmente o prejudicou no começo da disputa pela presidência do partido, mas por fim ele conseguiu contornar esse obstáculo. "Ele se distanciou da família e desenvolveu ao longo da crise dos últimos anos um discurso pró-reformas e pró-memorando (plano de ajuda do FMI) simples e claro", diz Nikolakopoulos. Paradoxalmente ele conseguiu se destacar como uma personalidade nova e jovem, capaz de rivalizar em energia com Alexis Tsipras, de 41 anos.

Mas, até novembro passado, Kyriakos Mitsotakis era um azarão. Ele aproveitou o fiasco de um primeiro turno cancelado de uma eleição interna, após uma falha técnica do sistema de contagem de votos no dia 22 de novembro de 2015, para ganhar pontos. "Ele avisou desde o começo sobre os riscos de fracasso e em seguida manteve uma posição neutra, enquanto os outros candidatos se acusavam mutuamente por esse episódio que ridicularizou o partido", lembra um de seus aliados. "Foi naquele momento que os militantes se deram conta de que ele era uma opção séria."

Os simpatizantes correram em massa até seu comitê eleitoral, uma vez anunciada a vitória. "Eu votei naquele que poderá enfrentar Tsipras nas próximas legislativas", explica um integrante do partido. "Acredito que ele seja o mais bem colocado para modernizar a economia, abandonar nosso modelo estatal e favorecer um ambiente de negócios favorável aos investimentos." Mitskotakis também é muito apreciado pelos credores europeus do país, com quem ele conviveu quando era ministro encarregado da reforma administrativa entre 2013 e 2015. Isso porque foi durante seu mandato que o enxugamento da máquina pública grega, exigida desde 2011 pelos financiadores, se acelerou.

Ainda que tenha prometido fazer uma oposição sistemática ao Syriza, Mitsotakis também pretende iniciar uma reforma total de seu partido e, mais amplamente, da centro-direita grega. "Podemos esperar que alguns dos integrantes do partido centrista Potami se voltem para esse novo ND", prevê Elias Nikolakopoulos.
Ao se posicionar como um reformista profundamente pró-europeu, o novo presidente do Nova Democracia espera repatriar os eleitores da classe média que começam a se sentir maltratados pela política do governo Tsipras. A primeira batalha em perspectiva é a votação do Parlamento, nas próximas semanas, da dolorosa reforma da aposentadoria, iniciada dia 4 de janeiro.

Tradutor: UOL

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