Briga de 'galos' entre grandes comandantes da polícia de Nova York

Stéphane Lauer

Quando Bill Bratton foi nomeado chefe da polícia de Nova York, em janeiro de 2014, seu antecessor, Raymond Kelly, lhe deixara uma garrafa de champanhe acompanhada de uma mensagem na qual desejava um bom ano e boa sorte. Dois anos mais tarde, as relações entre os dois homens que, durante 25 anos, se revezaram no comando da mais importante força policial do país, se deterioraram consideravelmente. Há alguns dias, Kelly acusou Bratton de distorcer números com o intuito de maquiar os índices de criminalidade em Nova York, e desde então os insultos não pararam mais.

Tudo começou com uma frase lançada em um programa de rádio, enquanto se discutia que o balanço do ano de 2015 indicava que a criminalidade na maior cidade dos Estados Unidos havia caído 2%. "Há problemas com os números", disse Kelly.

Lacônico, mas suficiente para tirar Bratton do sério. "Ele devia ter vergonha!", retrucou antes de convidá-lo a "explicar do que estava falando". Este diálogo à distância, digno de um faroeste, continuou por mais algumas horas até que Kelly enfim se justificou. "Há problemas com a redefinição dos termos, em especial sobre tiroteios", explicou Kelly durante uma entrevista coletiva.

Por exemplo, alguém que fique ferido por fragmentos de vidro causados por um tiroteio não é contabilizado como vítima do dito tiroteio. A Prefeitura de Nova York afirma que sempre foi assim. Mas Kelly também aponta para abusos na utilização da expressão "circunstâncias indeterminadas enquanto não é feita a investigação", tendendo a baixar o número de casos.

Dança das cadeiras

A polêmica poderia ter sido algo insignificante se os dois homens não fossem os principais arquitetos do recuo da criminalidade em Nova York. Duas carreiras excepcionais, que se misturaram em uma confusão em que a rivalidade serviu de motor.

Esta começou em 1992, durante o mandato do prefeito democrata David Dinkins, que preferiu Kelly a Bratton. Quando o republicano Rudolph Giuliani venceu as eleições no ano seguinte, o primeiro o incentivou a mantê-lo, mas dessa vez foi o segundo quem venceu a partida. Kelly guardou certa mágoa disso, que a demissão de Bratton em 1996 não conseguiu realmente acalmar. Ele teve de esperar até 2001 e a chegada de Michael Bloomberg à prefeitura para recuperar seu cargo, mantido por 12 anos, antes que seu eterno rival o sucedesse uma última vez em 2014.

Mas essa pequena dança das cadeiras deu frutos. Em 1990, lamentava-se um número de 2.262 crimes em Nova York. Hoje, o número caiu abaixo de 350, fazendo de Nova York uma das cidades grandes mais seguras dos Estados Unidos. O grande reforço das forças policiais, o uso de informática para enviá-las aonde as probabilidades de crimes são maiores e a instauração da política da tolerância zero foram responsáveis por essa queda. É de se perguntar por que duas das figuras mais emblemáticas da luta contra o crime estão envolvidas em uma briga de galos como essa.

Embora boa parte das críticas sejam picuinhas, as questões que estão por trás são consideráveis. Primeiro, o debate ocorre no momento em que a popularidade do novo prefeito, Bill de Blasio (democrata), se encontra em queda, sendo que ele está na metade do mandato. Mais de 51% dos nova-iorquinos desaprovam a maneira como a prefeitura tem abordado a criminalidade, segundo uma pesquisa realizada no dia 3 de novembro de 2015 pelo Instituto Marist.

No entanto, ainda que o número de assassinatos tenha voltado a subir ligeiramente em 2015 em relação aos 333 registrados em 2014, é cedo para falar em uma real inversão de tendência, ainda mais que os tiroteios estão em recuo (1.125 contra 1.156 em 2014). Embora esses números não estejam confirmados, segundo Kelly, Nova York não parece prestes a voltar aos tempos sombrios do começo dos anos 1990.

Mas a decisão do prefeito de colocar um fim à prática da revista corporal sistemática nas detenções deixou parte da opinião pública com uma sensação de frouxidão em relação à era Bloomberg. As críticas de De Blasio a respeito dos métodos policiais contra minorias negras e hispânicas só reforçaram essa impressão, provocando, um ano atrás, uma operação-padrão dentro do New York Police Department (NYPD), que não se sentia suficientemente apoiado pelo prefeito.

Ao mesmo tempo, alguns tabloides afirmam que Kelly possui ambições para a próxima eleição municipal de 2017. Além disso, Bratton não deixou de ressaltar que a polêmica coincide com o lançamento de um livro de seu adversário favorito. De qualquer forma, o tempo parece não interferir na rivalidade entre os dois: Kelly comemorará seus 75 anos este ano, somente seis a mais que Bratton.

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