Merkel perde detrator ilustre após economista alemão conservador se aposentar

Frédéric Lemaître

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Uma "palestra de despedida" em meados de dezembro de 2015 diante de 1.000 pessoas, um "simpósio internacional de despedida" no dia 22 de janeiro... O Instituto de Pesquisa Econômica de Munique não tem poupado meios para celebrar a aposentadoria de Hans-Werner Sinn, seu presidente desde 1999.

Com seus olhos azuis astutos, seus ternos e sua barba branca impecavelmente cortada, o economista alemão mais influente, de 67 anos, encarna à perfeição uma certa elite intelectual alemã, conservadora, segura de si mesma e certa de que o mundo seria melhor se os políticos tivessem a coragem de aplicar as medidas que ela preconiza. No caso, uma política monetária e orçamentária ortodoxa.

Isso porque Sinn não esconde que faz política. "Sou economista para tornar o mundo melhor", ele diz, às vezes se comparando a um médico à cabeceira de um paciente. Mas ele não quer ser conselheiro do príncipe, muito menos da princesa.

Angela Merkel, física de formação, raramente perde uma oportunidade de mostrar o pouco apreço que tem pelos economistas, e Sinn é recíproco. Durante sua palestra de despedida, no dia 14 de dezembro de 2015, o acadêmico, que durante uma hora recapitulou sua vida e sua carreira com várias fotos e gráficos, surpreendeu a plateia ao exibir um cartaz de propaganda da ex-Alemanha Oriental de 1981.

Ali é possível ver uma jovem determinada, que parece muito com Angela Merkel, nitidamente mais morena. Ela ilustra o slogan "Wir schaffen das" ("Chegaremos lá"), a frase preferida da chanceler na gestão da crise dos refugiados. Na época, a ideia do regime comunista era garantir o bem-estar do povo, mas teve o sucesso que já conhecemos.

Carisma entre a opinião pública

O matreiro Sinn tomou o cuidado de explicar que não se tratava de Merkel. Mas se ele quisesse zombar das promessas atuais da chanceler, ele não o teria feito de outra forma. É por isso que a mídia o adora e que os alemães o respeitam.

Sinn é independente e honesto. Durante sua palestra, esse filho de um taxista revelou ter militado pela esquerda nos anos 1960, tendo participado em 1968 de manifestações contra a guerra do Vietnã e a favor da "Primavera de Praga". Se em um momento ele acreditou na terceira via iugoslava ("Nem capitalismo, nem socialismo"), uma visita ao país do camarada Tito logo o convenceu de que esta terminaria em um beco sem saída.

Sinn se tornou conservador. E comunicativo. Em 1991, ele publicou junto com sua mulher, Gerlinde, um livro sobre as dificuldades da reunificação. Na capa, o casal tenta dar a partida em um Trabant ligando sua bateria à de uma Mercedes.

Nos últimos tempos, Sinn atacou as grandes decisões de Merkel: o abandono da energia nuclear ("Uma virada energética para lugar nenhum", segundo ele), o salvamento do euro e da Grécia e o acolhimento de refugiados.

Seu carisma entre a opinião pública é tão grande que em 2012 ele conseguiu transformar em best-seller uma obra de 400 páginas sobre o sistema Target de pagamentos bancários criado para a zona do euro.

Os alemães provavelmente não entenderam tudo, mas Sinn conseguiu passar sua mensagem: o salvamento da zona do euro seria uma bomba-relógio e seu verdadeiro custo poderia ser bem maior para o contribuinte alemão do que parece. "Contas de leiteira", retrucou na época Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças. Algo dúbio, então, indigno de um instituto de economia, segundo ele. 

Sinn nem liga. "Os economistas servem ao povo e não aos políticos. Eles aconselham os dois, mas os políticos só os ouvem se o povo os ouve. É por isso que devemos participar do debate público", ele teorizou em dezembro de 2015.

Seus trabalhos, divulgados generosamente pelo jornal conservador "Frankfurter Allgemeine Zeitung", constituíram nos últimos anos a matéria-prima intelectual dos eurocéticos alemães e tiveram forte influência nos debates. Convicto de que a zona do euro está indo pelo caminho errado, ele se alinhou com a visão do ex-ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, que ele convidou a Munique para criticar a política da chanceler.

Apesar de tudo, nenhuma de suas previsões sombrias se realizou ainda: o abandono da energia nuclear segue seu curso, ainda que com dificuldades, o salário mínimo não provocou um aumento no desemprego e o euro não foi pelos ares.

Seu sucessor, Clemens Fuest, 47, um economista ortodoxo que até então lecionava em Mannheim (Baden-Württemberg), provavelmente terá posições mais moderadas. Mas conseguirá ele ser tão influente?

Nos últimos tempos, é um outro economista, Marcel Fratzscher, presidente do DIW, um instituto de pesquisas econômicas de Berlim, que tem atraído as atenções ao avaliar a falta de investimentos públicos na Alemanha. Nascido em 1971, este encarna, juntamente com Fuest, a nova geração.

Mas Sinn não deu sua última palavra e promete que durante sua aposentadoria se dedicará à escrita de novos livros, provavelmente para o desagrado de várias figuras da política.

Tradutor: UOL

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