A estratégia da tensão entre o premiê Renzi e Bruxelas

Cécile Ducourtieux, Jean Pierre Stroobants e Philippe Ridet

  • Francois Mori/AP

    O primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, discursa na abertura da COP-21, em Paris

    O primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, discursa na abertura da COP-21, em Paris

Chefe do governo italiano reforça sua popularidade fazendo críticas à União Europeia

Estratégia nova, rosto novo. É um ex-diretor da Ferrari e da Sky Italia, ex-assistente do presidente da Confindustria, o equivalente italiano da Medef (patronato francês), e depois vice-ministro do Desenvolvimento Econômico que representará a Itália junto a instituições europeias. Carlo Calenda, 42, foi nomeado, na quarta-feira (20), embaixador junto à União Europeia (UE), em substituição a seu antecessor considerado "diplomático" demais. Essa nomeação é representativa da nova relação que o presidente do conselho italiano, Matteo Renzi, quer impor com a Comissão Europeia.

"A Itália não é mais comandada à distância pela Europa", avisou Renzi após uma tensa altercação com Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão, no começo da semana. Renzi considera Juncker uma marionete nas mãos de Angela Merkel. Já Juncker acusa o primeiro-ministro italiano de ser uma criança mimada e ingrata.

"A Itália foi o país que mais se beneficiou da flexibilidade", retorquiu. Agora, ele relativiza: "Não há problemas entre o governo italiano e a Comissão, salvo algumas declarações um pouco fortes, às vezes." Mas a polêmica pública entre eles é só a ponta de um iceberg de incompreensões recíprocas entre a Europa e a Itália.

O primeiro ponto de disputa foram as finanças públicas. Renzi exige mais flexibilidade e que se levem em conta os custos gerados pela chegada dos imigrantes às costas italianas. Antes de se pronunciar, a Comissão quer julgar suas peças uma vez executado o orçamento de 2016, que, segundo ela, já apresenta um risco de "não-conformidade". A península está sob controle reforçado.

O segundo ponto de atrito é a questão dos imigrantes. Roma exige uma reforma do regulamento de Dublin (que determina qual país deve examinar o pedido de asilo). Já a França e a Alemanha acreditam que é preciso aplicar primeiramente as reformas aprovadas mas ainda não operacionais, como a transferência dos imigrantes na UE e a abertura de centros de registro dos solicitantes de asilo (batizados de "hot spots").

Em retaliação, Roma está bloqueando um acordo prestes a ser assinado a respeito de 3 bilhões de euros que a UE se comprometeu a pagar à Turquia em troca de uma redução drástica do número de imigrantes que cheguem à Europa.

Redução dos impostos

O terceiro ponto de discórdia é a energia. Durante o Conselho Europeu de dezembro de 2015, Renzi exigiu uma discussão sobre o projeto North Stream 2, um gasoduto que deve ligar a Rússia diretamente à Alemanha, sem passar pela Ucrânia. Roma acusa Berlim de estar passando seus interesses à frente dos da UE, sendo que o projeto concorrente, South Stream, que previa ligar a Rússia à Itália, foi abandonado.

Outras questões se somaram a esses desacordos. No final de 2015, Bruxelas não permitiu que a Itália ajudasse seus bancos em dificuldades, uma vez que uma ajuda estatal seria incompatível com o direito europeu, de acordo com a Comissão. Na quarta-feira, Roma sofreu uma nova afronta: a UE anunciou a abertura de uma investigação aprofundada sobre o plano de salvamento imaginado pelo governo para ajudar a gigante da siderurgia Ilva. "Até o início de 2015, Renzi aparecia como o grande reformista europeu," diz um diplomata. "Desde o outono, sua reputação começou a enfraquecer quando a Comissão avaliou que o ritmo das reformas estava diminuindo."

A interpretação por parte do Palácio Chigi, em Roma, é totalmente diferente. Como a Itália saiu da recessão e as reformas --modificação do código trabalhista, redução de impostos que levou à criação de 350 mil empregos e a recuperação do consumo interno-- estão dando seus frutos, a península precisa voltar a encontrar uma posição de acordo com sua estatura. Renzi, com isso, se beneficia do enfraquecimento de Angela Merkel, que ele encontrará no dia 29 de janeiro em Berlim, e das dificuldades de François Hollande.

Mas são outros números e outros prazos que o preocupam. Em junho, serão realizadas as eleições municipais que servirão como teste nas maiores cidades do país. No outono [do hemisfério norte], um referendo permitirá que os italianos ratifiquem ou não a reforma das instituições (fim do Senado em sua forma atual). Matteo Renzi precisa se legitimar por tabela, em eleições intermediárias, enquanto espera a eleição legislativa prevista para 2018.

Commedia dell'arte

Dois anos após a chegada de Renzi ao poder em março de 2014, os italianos se acostumaram com seu discurso voluntarista e suas repetidas promessas de reformas. A encenação de seu conflito com a Europa, a alternância de socos e afagos seguindo as regras da commedia dell'arte, obedece a dois objetivos: controlar a agenda midiática e política e conquistar uma opinião pública que se tornou majoritariamente desconfiada, senão hostil, em relação a Bruxelas.

A soma das intenções de voto dos partidos anti-euro ou eurocéticos, desde a Liga Norte até o Movimento 5 Estrelas, passando pelo Forza Itália ou pelos pós-fascistas, representa 57% dos votos em potencial.

Então seria o fim entre Roma e Bruxelas?

Renzi, embora tenha lutado para impor sua ex-ministra das Relações Exteriores, Federica Mogherini, ao posto de alta representante para a política externa e para a segurança da União Europeia, em off critica sua prudência e sua reserva. Questionada na segunda-feira sobre o atrito entre Reniz e Juncker, ela não tomou partido: "Os interesses da Itália e da União coincidem, no domínio da imigração ou em relação à necessária flexibilidade no domínio econômico." 

Mas, ciente de que ele não pode passar seu tempo denegrindo a Europa, correndo o risco de desnortear uma parte de seu eleitorado e seus parceiros, Renzi também sabe estender a mão. Em 2017, será comemorado o 60º aniversário do Tratado de Roma. O presidente do Conselho propôs uma reunião próxima de seis países fundadores da Europa comunitária na capital italiana. Depois da guerrilha, esse talvez possa ser o início de uma trégua.

Tradutor: UOL

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