Eurotunnel: "Mais nenhum clandestino passa pelo túnel sob o canal da Mancha"

Denis Cosnard, Anne Eveno e Arnaud Leparmentier

  • Pascal Rossignol/Reuters

    3.out.2015 - Imigrantes se reúnem na estrada de acesso ao terminal de balsas em Calais

    3.out.2015 - Imigrantes se reúnem na estrada de acesso ao terminal de balsas em Calais

Presidente do Eurotunnel dá destaque ao desempenho de seu grupo, apesar da crise da migração

Jacques Gounon é CEO do Eurotunnel. Ele explica ao "Le Monde" as medidas tomadas por seu grupo diante do fluxo de imigrantes em Calais.

Le Monde: Em Calais, o Eurotunnel acaba de inundar terrenos por onde passavam os imigrantes. Essa crise mudou completamente suas atividades?

Jacques Gounon: Essa crise é uma tragédia para a Europa e principalmente para as vítimas. Dez clandestinos morreram em nossas instalações. Como uma empresa transfronteiriça, temos um papel difícil: operamos a travessia de uma fronteira e devemos proteger nossos funcionários e motoristas de caminhão que muitas vezes são agredidos. E também esses homens, jovens e ágeis, que querem entrar no Reino Unido a qualquer preço, inclusive à custa de suas vidas. Eles subiam nos caminhões ou tentavam escalar os trens, mesmo com riscos extremos. Aos poucos, fomos instaurando medidas para impedir que os imigrantes passassem de maneira clandestina para a Inglaterra. Então reforçamos a segurança em todo o entorno do Eurotunnel em Calais, ou seja, 660 hectares, o equivalente a dois distritos de Paris.

Le Monde: Como?

Gounon: Nós erguemos grades ao longo de 40 quilômetros em torno do túnel e inundamos alguns terrenos. Foram dezenas de milhões de euros em obras, financiadas pelo Reino Unido.

Le Monde: E quais foram os resultados?

Gounon: Desde o final de outubro, mais nenhum imigrante consegue passar de maneira clandestina através do túnel. E, de forma geral, o fluxo daqueles que tentam passar vem diminuindo. Nos caminhões, agora só encontramos de 10 a 30 por noite. Eles estão percebendo que seus esforços estão fadados ao fracasso.

Le Monde: Por quê?

Gounon: Aqueles que cortam as cercas de arame são presos pelos policiais. Aqueles que se escondem nos caminhões são pegos. Alguns condutores avisam os policiais sobre sua presença. Eles também podem ser encontrados por meio de detectores de batimentos cardíacos ou de CO2. Em todos os casos eles são levados de volta até a "selva" de Calais [acampamento improvisado].

Le Monde: Essa crise influenciou em seus resultados?

Gounon: Relativamente pouco. Os imigrantes causaram atrasos, perturbações, que em um ano acarretaram uma queda de 17% no número de trens de carga e de 42% só no último trimestre. Mas o tráfego de passageiros e de caminhões foi bem menos afetado. E o número de passageiros de trens Eurostar permaneceu estável durante o ano, apesar da queda do turismo após os atentados de novembro. No total, excluindo a atividade marítima, que suspendemos, nosso faturamento aumentou 5%, ficando em 1,2 bilhão de euros. Nós dependemos, antes de tudo, da economia britânica, que está indo bem, e podemos aumentar nossos preços um pouco acima da inflação. Quanto ao início deste ano, está excelente.

Le Monde: O túnel ficará saturado?

Gounon: Não. As hipóteses adotadas no momento da construção eram bem otimistas, e o túnel tem uma ocupação média de somente 54%. Mas os picos têm sido cada vez mais frequentes. Este ano, teremos 39 dias de pico, pelos quais cobramos um preço um pouco maior a nossos clientes, ante 35 dias em 2015. O objetivo é diluir melhor o tráfego.

Le Monde: Em 2015, o Reino Unido o obrigou a interromper suas atividades de balsa. Como estão as coisas hoje?

Gounon: Essa decisão tomada devido à concorrência foi um verdadeiro escândalo, mas ela nos foi imposta. Nós vendemos dois de nossos três barcos à dinamarquesa DFDS, que vai operá-los a partir de fevereiro. Eu esperava poder utilizar o último para transporte de mercadorias, mas nos negaram isso. Então vamos vendê-lo também. Há vários candidatos interessados.

Le Monde: Quanto essa aventura marítima lhe custou?

Gounon: Cerca de 115 milhões de euros, incluindo a compra de navios por 65 milhões de euros.

Le Monde: Vocês têm outras diversificações em vista?

Gounon: Há alguns meses consideramos entrar no capital do London City Airport, o menor dos aeroportos londrinos, que foi colocado à venda por seu atual proprietário. Mas os leilões são muito insanos, e desistimos.

Le Monde: Em compensação, você continua com seu projeto de ligação elétrica com o Reino Unido.

Gounon: Sim. A ideia é instalar uma nova conexão elétrica entre a França e a Inglaterra, passando pelo túnel. Devemos fechar a preparação desse projeto de 500 milhões de euros até junho, e depois reestruturar a dívida. Em seguida serão três anos de trabalho. Nessa operação, nós nos associamos à britânica Star Capital, mas propus a eles que retomassem sua participação.

Tradutor: UOL

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