Contradições e paradoxos convivem lado a lado em um Irã tradicional e moderno

Fariba Hachtroudi

A iraniana Farzaneh não esconde a relação livre que tem com seu namorado. A hipocrisia do chamado casamento temporário, contrato de casamento religioso que vai de uma hora até 99 anos, a enoja. Ela é fiel mas não praticante, e não acredita no mesmo Deus de seus pais. Se a milícia dos costumes, discreta desde a eleição do presidente Hassan Rohani em junho de 2013, aparecesse em sua casa, ela lhes citaria o Corão: "A união é um assunto do casal perante Deus, que o abençoa".

Ali é filho de um soldado caído em campo de batalha durante a guerra Irã-Iraque (1980-1988). Ele tem orgulho desse herói da nação, mas rejeita o culto do mártir e foge de cerimônias religiosas, inclusive as "gospelizadas", ele diz, mostrando na tela de seu smartphone uma mesquita no interior lotada, diante de um pregador que exorta o fiel a buscar sua humanidade divina. Sua voz é bela, a multidão está em transe e o mulá supervisor sorri. Mas não Mahshid, que vê ali somente "jovens cretinizados para quem a liberdade se resume a 'sexo, álcool e vídeos' e que compensam junto ao seu Deus através da caridade." 

Durante o muharram, primeiro mês do calendário da Hégira, quando é comemorado o martírio do imame Hussein, neto do profeta Maomé e terceiro imame sagrado dos muçulmanos xiitas, "a moda é usar penteados de luto e cabelos cor cinza em homenagem aos mártires, que em seguida são lavados em piscinas mistas, antes de fazer o circuito das salas de jogos ou casas noturnas badaladas!". Todos esses são lugares proibidos por lei, privados e pagos, mas que todos conhecem, explica Ali mostrando fotos de jovens com cabelos cheios de gel, de olho nas meninas de nariz e boca refeitos em plásticas. 

Podem os jovens impor suas escolhas ao governo? As opiniões divergem. "Rohani critica abertamente os efeitos devastadores da coerção total, no entanto poetas, cineastas e jornalistas são presos com frequência", diz Farzaneh. Contudo, ela reconhece que "as atividades culturais continuam apesar de tudo e que o mercado de artes está em plena ascensão".

Em Teerã, cinemas de arte e experimentais, peças de teatro e shows—sem vozes femininas—abundam, apesar da censura. Os círculos poéticos, que são focos de contestação, e as palestras de "filosofia e saúde psíquica" que incluem Epicuro, Montaigne e Schopenhauer no programa, estão sempre lotados. Versificadores de talento provocam os "vendidos e ladrões da pátria", ainda que possam acabar sendo detidos e interrogados por conta disso. 

Sem ilusões quanto à corrupção e às falhas governamentais em matéria de gestão, a população tem assumido a responsabilidade das coisas. Há muito o que fazer em trabalhos sociais, desde os drogados, uma chaga que aflige o Irã, até os sem-teto, a prostituição entre ambos os sexos, a Aids, as crianças de rua... Homens e mulheres de boa vontade se organizam sem esperar a ajuda do governo, embora a exijam.

Como a associação Vira, em Ilam, no Curdistão iraniano, onde o bibliotecário Navab Kord e seu grupo de voluntários lançaram um programa de leitura para crianças, em um jardim cedido pela prefeitura. Contos e poesia, oficinas de fotografia e exibições de filmes são oferecidos aos 700 associados, inclusive um camponês analfabeto que, graças a seu filho, recita de cor 60 páginas do Shahnameh (Livro dos Reis) de Ferdowsi, uma das obras fundadoras da cultura e da literatura do Irã.

Outro exemplo: a escola Rouyesh-é Now, ao sul de Teerã, parcamente reconstruída pela prefeitura. Com seu sorriso radiante e olhar franco, Fatemeh Massaeli, professora aposentada e ativista engajada em questões públicas, dirige esse estabelecimento misto que conta com 270 alunos. Os professores contratados do Ministério da Educação asseguram a validade dos diplomas, e mecenas suprem as necessidades materiais das crianças. A diretora quer agora conseguir do ministério a abertura de escolas técnicas especializadas para a formação de crianças que são obrigadas a trabalhar.

A escola fica próxima da área dos sem-teto, que estendem seus trapos ao sol. Com o rosto vincado e o olhar alucinado, os dependentes em abstinência tragam seus cigarros. Na hora do almoço, eles comerão graças às "Geladeiras para os Sem-teto" que os voluntários da associação abastecem todos os dias. Já os meninos saem para vender frutas e legumes no metrô. 

"Resistência cultural"

Na parte alta de Teerã, sentada na parte externa de um café, Irandokht Salehi, ativista ambiental, alta, magra e determinada, fala com paixão sobre o ar e a água, seus temas de estudo, e sobre a educação, que segundo ela é a chave de tudo. Ela acaba de terminar um programa de ensino ambiental para crianças. "Masoumeh Ebtekar, a ministra do Meio Ambiente e vice-presidente está cuidando da questão, vamos ver se ela dará continuidade." 

O táxi atravessa a avenida Sohrawardi e depois a rua Jihad, até a rua Mottehayeri, três nomes que poderiam resumir a situação atual deste Irã, síntese da civilização persa e do xiismo.

Sohrawardi foi um pensador do século 12, filósofo do "conhecimento amoroso", segundo o orientalista francês Henry Corbin (1903-1978), que ensinava a metamorfose interna do homem através do conhecimento. À palavra "jihad", bastaria acrescentar o termo "akbar" ("grande", "supremo") para convergir com a gnóstica xiita do filósofo: o único combate saudável—e que vale santidade—é aquele conduzido contra o ego. Já "Mottaheyri" poderia ser traduzido no modo interrogativo por "você não está espantado?". 

Amorosas, filosóficas, religiosas, muitas frases em carros revelam, bem no meio do trânsito, o estado de espírito e o espírito em geral dos iranianos. "Sem você, o que fazer de suas lembranças?", diz a frase terna gravada acima da placa de uma caminhonete. "Dane-se se você não me ama mais...", diz uma. "Não buzine, estou no limite", ameaça uma outra. "O homem está condenado à liberdade!", proclama uma quarta. "Yazid maldito!", grita esta, citando o nome do califa sunita responsável pelo martírio do imame Hussein. 

Contradições e paradoxos, absurdo e sofisticação convivem lado a lado em um caos que é ao mesmo tempo provocador e alegre no "povo persa." "Nossa resistência cultural é há milênios a barreira contra qualquer invasor e Anahita é a deusa-mãe de nossa sabedoria", diz um poeta com quem cruzamos por acaso. No Irã, a poesia sempre tem a última palavra.

Tradutor: UOL

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