Atentado em Uagadugu põe fim à segurança ilusória em Burkina Fasso

Christophe Châtelot

  • Issouf Sanogo/AFP

Desde a queda de Blaise Compaoré, em 2014, o país tem sido ameaçado pelo terrorismo

Uma semana após os atentados de Uagadugu, reivindicados pelo grupo Al-Mourabitoun, afiliado à Al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI), Burkina Fasso descobriu, como já era de se esperar, que era o fim do tempo das ilusões.

A ilusão inoculada durante o longo reinado de Blaise Compaoré (1987-2014) de que esse país da África Ocidental, atrás de fronteiras porosas mal protegidas por um exército desorganizado, estaria a salvo de ataques suicidas de pequenos comandos jihadistas que semeiam o terror na região. "A situação de segurança em Burkina Fasso era uma anormalidade, com ou sem Compaoré", resume um diplomata estrangeiro.

Ela chegou ao fim na noite de 15 de janeiro. Três terroristas, três rostos juvenis nas fotos publicadas pela AQMI, metralharam o bar-restaurante Cappuccino, escolhido por sua clientela estrangeira, situado em uma das principais avenidas da cidade. Do Cappuccino, onde morreram 26 das 30 vítimas (além dos três jihadistas que por fim foram mortos pelas forças de segurança burquinenses e francesas a poucos metros de lá), só restou uma fachada dilacerada, escurecida pelo fogo. 

Desde então tem havido uma outra batalha, esta não letal, no campo político, entre partidários e adversários de Blaise Compaoré. Salif Diallo, ex-companheiro de estrada do ex-presidente que se tornou, no final, um dos principais arquitetos de sua queda, foi o primeiro a atirar.

Em um comunicado assinado em nome de seu partido, o Movimento do Povo pelo Progresso (MPP), o presidente da Assembleia Nacional se pergunta se esses ataques não estariam ligados às "conexões entre o Mujao—Movimento pela Unidade e pela Jihad na África Ocidental—e o antigo regime, com o intuito de instaurar o caos no país após o fracasso do golpe de Estado de 16 de setembro de 2015." 

Durante o governo de Compaoré, Burkina Fasso escapou da tormenta regional provocada pelo colapso da Líbia de Muammar Gaddafi. E mais, Blaise Compaoré e alguns aliados, tais como Moustapha Chafi, seu emissário junto a jihadistas, e Gilbert Diendéré, seu comandante militar particular, fizeram as vezes de mediadores junto a grupos rebeldes tuaregues ou islamitas radicais que quase engoliram o vizinho Mali.

Através de suas redes, eles participaram ativamente da libertação de reféns ocidentais. "Tanto que pensamos que havia um pacto de não-agressão, tácito ou não, entre esses movimentos e as autoridades burquinenses", diz Jean-Pierre Bayala, coronel aposentado da polícia militar. 

As antigas autoridades negam ter mantido essas ligações perigosas. "Era um trabalho de antecipação e de infiltração", explica um dos atores do regime deposto. "Tecemos uma rede de informantes em toda a região, sobretudo ao longo do rio Níger, que os jihadistas são obrigados a atravessar quando sobem para o norte. Estudamos todos os cantos que eles poderiam usar para se esconder. Nunca houve relações incestuosas com os grupos jihadistas." 

"Interesses em comum"

Luc Marius Ibriga, presidente da Autoridade Superior de Controle do Estado, líder institucional do combate à corrupção, contesta esse ponto de vista. "Esse pacto", diz o controlador-geral, "também se baseava em interesses comuns em todos os tipos de tráfico, como drogas, armas cigarros... A transição entre a queda de Blaise Compaoré, no dia 31 de outubro de 2014, e a eleição, 13 meses mais tarde, do novo presidente Roch Marc Christian Kaboré, mudou tudo. Burkina Fasso não era mais amiga dos jihadistas."

O país se tornou um alvo para esses grupos que se reestruturaram depois de terem sido atingidos com força pela operação militar francesa "Serval", no Mali, lançada em janeiro de 2013. Em abril de 2015, pela primeira vez em Burkina Fasso, um europeu—um cidadão romeno responsável pelo serviço de segurança de uma mina—foi sequestrado. Depois, no mesmo dia do ataque do Cappuccino, foi a vez de um casal de australianos, e vários postos policiais também foram atacados perto da fronteira malinesa. Todos esses atos, oportunistas ou planejados, foram reivindicados ou atribuídos à AQMI.

Após o fracasso do golpe de setembro de 2015, a dissolução do regimento de segurança presidencial (RSP), uma tropa de elite de 1.300 homens, que aos poucos foi transformada em guarda pretoriana do clã Compaoré, provavelmente deixou Burkina Fasso mais vulnerável. "O RSP era a pedra angular dos serviços de segurança", afirma uma fonte oficial francesa.

"Desde sua dissolução ele não teve mais um chefe. Na época de Blaise, não teriam conseguido evitar o ataque de Cappuccino, mas em compensação a resposta teria sido mais bem organizada." Naquele dia, foi preciso esperar a chegada de forças especiais francesas vindas de Gao (Mali) para neutralizar os terroristas.

Para o general Emmanuel Beth, ex-embaixador da França em Burkina Fasso e agora membro associado do escritório de consultoria ESL, "expulsar um certo número de pessoas do RSP e do Ministério do Interior foi um grande erro. Na época de Blaise existia um dispositivo que fazia com que as informações fossem encaminhadas notavelmente bem."

"Esse dispositivo se baseava em alguns indivíduos, não em instituições", observa Jean-Pierre Bayala. Para remediar a situação, foi criada uma comissão de reforma do Exército. "Uma comissão de mentira, constituída unicamente por militares e que não se apoia em nenhuma estratégia pré-estabelecida pelo poder político", critica um ex-ministro.

A coordenação anti-terrorista regional do G5 (Chade, Mali, Níger, Burkina Fasso, Mauritânia, mais a França e seu dispositivo "Barkhane") também pode ser aperfeiçoada, e as autoridades têm estudado a criação de uma agência nacional de inteligência. 

Mas atacar o lobby militar exigirá uma vontade política manifesta. "O Exército continua tendo um lugar importante na vida política do país. O espectro de sua interferência na esfera política, uma constante na história de Burkina Fasso desde 1966, não desapareceu", ressaltava um relatório do centro de reflexão  International Crisis Group (ICG), publicado dia 7 de janeiro.

"No entanto," adverte Cynthia Ohayon, analista do ICG, "a reforma do sistema de segurança não é mais uma prioridade, ela se tornou uma urgência." "O problema", conclui Juliette Bonkoungou, figura política do partido de Blaise Compaoré, "é que tudo aqui é uma prioridade: a saúde, a educação, a segurança..."

Tradutor: UOL

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