Terrorismo retratado em filmes é mal aceito pelos cinemas franceses

Clarisse Fabre

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Desde "Salafistas", proibido para menores de 18 anos, até "Made in France", que só sairá em pay-per-view, os filmes que mostram a violência do terrorismo têm uma distribuição caótica

A semana que passou ficará na história do cinema francês. Tudo porque um documentário, "Salafistas", acabou de ser proibido para menores de 18 anos, restrição acompanhada de um aviso ao público, fato raríssimo; e uma ficção, "Made in France", saiu diretamente para a plataforma em vídeo, sem ser exibido previamente nas salas de cinema. Por mais diferentes que sejam, "Salafistas", de François Margolin e Lemine Ould M. Salem, e "Made in France", de Nicolas Boukhrief, têm em comum o fato de mergulharem o espectador no cotidiano jihadista.

Essas duas obras não são as únicas: outros filmes franceses, cujo roteiro foca em acontecimentos terroristas, tiveram nos últimos meses lançamentos caóticos, com desempenhos decepcionantes em salas. Citemos, entre outros, o "Taj Mahal" (2015), de Nicolas Saada, ou ainda "Les Cowboys" (2015), primeiro filme de Thomas Bidegain (que também é o roteirista de Jacques Audiard). Após o 11 de Setembro, os americanos demoraram até conseguir ver as torres caindo no cinema. E os franceses, que privilegiaram sagas familiares ("Star Wars 7", com quase 10 milhões de espectadores), comédias inofensivas ("As Novas Aventuras de Aladim", com quase 6 milhões de espectadores) ou documentários sobre o meio ambiente ("Demain", com mais de 500 mil espectadores), estariam alheios à violência terrorista nas telonas?

"Timbuktu" badalado

Já no mercado editorial, ensaios sobre o jihadismo ou a organização Estado Islâmico (EI) venderam bem, como "Le Piège Daech" (em tradução livre "A armadilha do Daesh", Ed. La Découverte, 2015), de Pierre-Jean Luizard, com 33 mil exemplares vendidos, ou ainda "Palmyre: L'irremplaçable trésor", de Paul Veyne ("Palmira: o tesouro insubstituível", Ed. Albin Michel, 2015), com 90 mil exemplares. Já entre os romances, "2084" (Ed.Gallimard, 2015), de Boualem Sansal, por exemplo, que imagina um regime totalitário inspirado pelo islamismo, beira os 300 mil exemplares vendidos. De um lado, procurar em seu próprio ritmo chaves de compreensão em uma obra informativa, analítica, pedagógica ou alegórica; de outro, sentir a emoção de outros atentados, "preso" em uma sala escura. A dose de intelecto e emoção para leitores e espectadores não é a mesma.

Foi preciso esperar o dia de seu lançamento nacional, na quarta-feira (27), para conhecer o destino de "Salafistas". A ministra da Cultura, Fleur Pellerin, só deu seu parecer, que se revelou conforme ao da Comissão de Classificação de Obras Cinematográficas, no inicio da tarde. Em seu comunicado, na quarta-feira (27), Fleur Pellerin justificou sua decisão alegando que os autores optaram por "mostrar cenas e discursos de extrema violência de forma acrítica."

A incerteza pairou até o último momento, uma vez que os diretores enviaram à Comissão —que havia pedido desde 19 de janeiro uma proibição aos menores de 18 anos acompanhada de aviso— uma nova versão do filme. Rodado entre o verão de 2012 e a primavera de 2015, o documentário dá a palavra aos teóricos do terrorismo islâmico na Mauritânia, no Mali, na Tunísia e ainda no Iraque. Os autores mostram trechos da propaganda da Al Qaeda e do EI, a aplicação da sharia no cotidiano e imagens violentas. Na nova versão, exibida nas salas, não consta mais a cena da execução do policial após o ataque contra o "Charlie Hebdo", ocorrido no dia 7 de janeiro de 2015.

François Margolin, codiretor e produtor do filme, da empresa Margo Cinéma, não se conforma. "Graças à intervenção 'genial' de Fleur Pellerin, estamos com somente quatro salas para lançar o filme, em vez das 25 iniciais". Mas há público, segundo ele: "Na quarta-feira (27), o filme registrou 250 entradas só nas cinco sessões realizadas em duas salas parisienses, Les 3 Luxembourg e Sept Parnassiens. Considerando o contexto, não é ruim. Esse filme não faz apologia do terrorismo. Espero que entendam isso algum dia."

Já o filme "Timbuktu", de Abderrahmane Sissako, que participou do início da filmagem de "Salafistas", antes de se desligar do projeto, foi badalado pela crítica, ganhou sete estatuetas no César de 2015, chegando a atingir 1 milhão de espectadores nas salas. Teria isso a ver com o tratamento ficcional, a beleza do filme, a reputação do cineasta mauritano ou o timing do lançamento? "Timbuktu" foi apresentado em competição oficial em Cannes, em maio de 2014, antes dos ataques contra o "Charlie Hebdo". "'Timbuktu' mostra os jihadistas como trapalhões", analisa François Margolin. "É uma visão que seduz as autoridades do Estado, mas não acredito que ela seja correta."

A história da distribuição de "Made in France", que deveria ter saído nas salas no dia 18 de novembro de 2015, é em si um thriller. Essa ficção que mostra uma célula jihadista preparando atentados em Paris só pode ser vista em vídeo, desde o dia 29 de janeiro, como o filme "DSK" de Abel Ferrara, em maio de 2014, em pleno Festival de Cannes.

Originalmente o filme deveria ter sido lançado com "uma centena de cópias" nos circuitos UGC e Gaumont, explica James Velaise, distribuidor da Pretty Pictures. "É um filme comercial. Queríamos que ele fosse visto pelos jovens, tivemos pré-estreias em Paris, em Halles, em Bercy. O hype estava crescendo", explica James Velaise.

Depois vieram os atentados de 13 de novembro. "Os cartazes do filme, com uma AK-47 como parte da Torre Eiffel, já estavam no metrô de Paris. Excepcionalmente mandamos retirá-los e cancelamos o lançamento nas salas na segunda-feira de manhã, dia 16 de novembro", ele diz. Como marcar uma outra data? "As semanas se passaram e os circuitos não nos deram mais sinal. Somente 25 cinemas de arte e alternativos estavam dispostos a nos acompanhar. Mas parecia pouco demais para nós." Além disso, diz James Velaise, existe o medo de que as coisas saiam de controle. "Imagine, o filme sai nas salas, e os jovens resolvem brincar gritando "Allahu akbar!" durante a sessão. Todos entrariam em pânico!"

Por fim, para o distribuidor, o "Made in France" é "perfeito" para um lançamento em vídeo: "O espectador assiste ao filme em sua casa, em total segurança. A França do interior e Paris podem vê-lo juntos. Se você reúne quatro amigos em torno de uma cerveja, a sessão não sai cara. Durante as seis primeiras semanas, a exibição custará 7 euros, e depois o preço diminuirá."

"Mundo pré-Charlie"

Da telona à telinha, seria tão diferente assim a experiência? No dia 17 de novembro de 2015, no canal France 5, o documentário de Clarisse Feletin, "Engrenages, les jeunes face à l'islam radical", que foi bem recebido pela crítica, foi visto por 900 mil espectadores. Algumas semanas mais tarde, "Taj Mahal" estreou nas salas. Apesar de críticas elogiosas, o filme de Nicolas Saada "não funcionou", reconheceu o produtor Patrick Sobelman, da Agat Films. "Com nossas trinta cópias, apostávamos em uma faixa de 60 mil a 100 mil espectadores. Só tivemos 30 mil", ele resume. O roteiro do filme era baseado em uma história real. "Nicolas Saada ficou fortemente comovido com o depoimento de uma jovem que se encontrava em um quarto do Hotel Taj Mahal, durante os atentados de Mumbai em novembro de 2008. É também o relato da passagem para a idade adulta em um mundo sujeito ao terrorismo."

A filmagem terminou no dia 19 de dezembro de 2014 e a edição teve início no dia 5 de janeiro, ou seja, dois dias "antes do Charlie". "Foi perturbador: em Paris, os depoimentos dos sobreviventes do Hyper Cacher, em janeiro de 2015, lembravam os da heroína de 'Taj Mahal'", lembra Patrick Sobelman. O filme foi selecionado para o Festival de Veneza, no verão de 2015, e a data de lançamento nas salas decidida para 25 de novembro de 2015. Após o atentado de 13 de novembro, por fim ele foi adiado para 2 de dezembro. "A distribuidora Bac Films fez um trabalho notável. Mas sabíamos que comercialmente havia o risco de aquilo ser um tiro no pé."

Paradoxalmente, o "Taj Mahal" não foi difícil de financiar. "O filme foi escrito em 2012-2013: era outro mundo, pré-Charlie", analisa Patrick Sobelman. É o mesmo caso de "Les Cowboys" de Thomas Bidegain, cujo orçamento beirou os 6 milhões de euros. O roteiro chegou há três anos à mesa do produtor Alain Attal. Um pai (François Damiens) busca desesperadamente sua filha que partiu para fazer a jihad. A ação se desenrola nos anos 1990, no início dessa onda de partidas, durante a "era" Bin Laden. "O Pathé nos apoiou, bem como o Canal+ e a France Télévisions", conta Alain Attal. Em maio de 2015, o filme foi selecionado para a Quinzena de Diretores. Lançado no dia 25 de novembro de 2015, ele teve "somente" 220 mil espectadores. "Não podemos nos queixar, estamos muito felizes. Mas ele poderia ter tido entre 350 mil e 400 mil espectadores", acredita Alain Attal.

"Paris est une fête", de Bertrand Bonello, mostra um grupo de jovens que colocam bombas na capital. Um dos atores principais é ninguém menos que Finnegan Oldfield, que faz o papel do irmão da jovem fugitiva em "Les Cowboys". O filme está "em fase de edição", explica a Rectangle Productions, que produz o filme juntamente com a Arte e a Wild Bunch, e é tudo o que ela tem a dizer.

Tradutor: UOL

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