Quanto o fim do Schengen custaria à França?

Audrey Tonnelier

  • Rafal Malko/Agencja Gazeta/Reuters

    Mulher pisa em bandeira da União Europeia durante protesto contra imigrantes na Polônia

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Esse tem sido o grande tema de preocupação dos europeus, neste início de 2016. Enquanto o fluxo de imigrantes que arriscam suas vidas no Mediterrâneo para chegar até a costa europeia aumenta a cada dia, em uma semana o fechamento do espaço Schengen de livre circulação europeu passou do estágio de ameaça para o de possibilidade real.

Que impacto teria uma medida como essa sobre a economia europeia, e em especial a francesa? Foi essa a questão levantada pela France Stratégie, instituição atrelada ao primeiro-ministro, em um exercício ainda inédito na Europa, publicado na quarta-feira (3).

"É evidente que o sistema atual não está funcionando mais. As discussões estão questionando a realidade do espaço Schengen, e poderão resultar em uma volta geral dos controles nas fronteiras", ressalta Jean Pisani-Ferry, o comissário-geral da France Stratégie.

A Comissão Europeia lançou, na quarta-feira (27), um processo que poderá levar a restabelecer por dois anos os controles em determinadas fronteiras internas da União Europeia (UE). O objetivo seria conter o fluxo de 1,2 milhão de refugiados que chegaram à UE em 2015, a maior parte deles através da Grécia.

A iniciativa é fortemente apoiada pela Alemanha, que tanto por pragmatismo quanto por necessidade política tem procurado manter seus controles na fronteira com a Áustria. Reintroduzidos em setembro, estes não poderiam ser mantidos além de oito meses sem a ativação do processo da Comissão. No caso específico da França, a instauração do estado de emergência após os atentados de 13 de novembro de 2015 em Paris também resultou em uma volta dos controles nas fronteiras.

A decisão de Bruxelas, inédita, poderá levar a nada menos que uma quarentena da Grécia, acusada de negligência no controle e no registro de imigrantes quando eles chegam a seu território.

Atenas agora tem três meses para retomar o controle de sua fronteira. Em escala europeia, uma situação como essa teria consequências consideráveis sobre a economia, argumenta a France Stratégie.

"Embora as considerações de eficácia e de segurança sejam naturalmente aquelas que contam mais no contexto atual, não é possível ignorar as consequências econômicas que um eventual abandono dos acordos Schengen teria", alerta a nota.

Para a economia francesa, "a curto prazo o custo direto seria de 1 a 2 bilhões de euros (R$ 4,3 bilhões a R$ 8,6 bilhões), seguindo a frequência dos controles nas fronteiras", acreditam os autores.

Eles elaboraram dois cenários, inspirando-se sobretudo naquilo que acontece na fronteira britânica: um cenário otimista onde o tempo a mais de passagem pela fronteira seria moderado, e um cenário pessimista onde esse tempo seria dobrado, com os caminhões sendo sistematicamente revistados.

A nota conclui, a partir daí, que metade do custo seria devido a uma queda na frequência de turistas, dissuadidos de irem à França em razão das filas de espera nos principais pontos de passagem das fronteiras.

Queda nas exportações

No total, 38% do custo viria do impacto sobre os cerca de 350 mil trabalhadores fronteiriços que vão diariamente à Bélgica, à Alemanha, a Luxemburgo, à Suíça ou à Espanha, e 12% do custo sobre os transportes de mercadorias. Os pesquisadores de fato ressaltam que, "para os usuários, o controle das fronteiras é comparável a um imposto sobre os deslocamentos e as transações comerciais."

"A curto prazo, o custo permanece moderado pois representa menos de um milésimo do PIB francês, de 2,13 trilhões de euros em 2014 segundo os últimos números disponíveis. Mas se essa situação se tornar a norma, poderá se revelar algo problemático", observa Pisani-Ferry.

A longo prazo, na verdade, todo o comércio entre países do espaço Schengen é que seria afetado, considera a France Stratégie.

Quando estão envolvidos dois países que pertencem ao espaço Schengen, o comércio anual total entre esses dois países é de 10% a 15% maior, calculam os especialistas.

Para a França, a generalização permanente dos controles seria equivalente a uma taxa de 3% sobre o comércio entre países da zona, que se traduziria por uma perda de no mínimo uma dezena de bilhões de euros, ou seja, meio ponto no PIB em dez anos.

"Esse resultado (...) poderia ser acrescido de efeitos sobre o investimento estrangeiro e os fluxos financeiros (empréstimos bancários)", explica a France Stratégie.

A instituição calculou que uma situação como essa induziria em 2025 a uma queda nas exportações da França para os outros membros do espaço Schengen de 11,4% e 10,8% respectivamente, dependendo de o parceiro ser um membro da União Europeia ou não. As importações da França provenientes desses parceiros se reduziriam respectivamente em 11,4% e 13,7%.

"Montantes substanciais"

Para os países do espaço Schengen, o impacto chegaria a ser da ordem de 0,8 ponto percentual do PIB, ou seja, 110 bilhões de euros (R$ 475 bilhões), "pois certos países são mais abertos do que a França", explica Pisani-Ferry, que não fez uma análise mais específica para cada país.

"Esses montantes são substanciais. O impacto de um reforço temporário dos controles nas fronteiras deverá permanecer limitado, mas o de um abandono permanente do sistema de Schengen teria um custo econômico considerável, mais elevado do que se calculam que tenham sido os benefícios comerciais do euro", conclui a France Stratégie. Então os dirigentes europeus estão avisados.

Tradutor: UOL

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