A ascensão de um jovem "indignado" ao Parlamento da Espanha

Sandrine Morel

  • Reprodução/Twitter

"Abel? Abel?" Nos corredores do Congresso dos deputados de Madri, um jovem acaba de sair no meio do fluxo dos parlamentares. É dia 13 de janeiro, e o novo Parlamento espanhol, fruto das eleições legislativas de 20 de dezembro de 2015, acaba de ser constituído e paramos para falar com um "antigo" conhecido, surpresos de encontrá-lo aqui.

Abel Martinez é um dos fundadores e ex-porta-voz da associação Juventud Sin Futuro. Criada em 2011 por estudantes para denunciar a precariedade de sua situação, foi um dos principais coletivos responsáveis pela manifestação do dia 15 de maio de 2011 que deu origem ao movimento dos "indignados". Nós o entrevistamos várias vezes na época.

Em 2012, Abel, o "indignado" de 24 anos, e seus companheiros de luta haviam criado uma estrutura de auxílio aos trabalhadores precários, a Oficina Precario, com consultoria jurídica gratuita. Ele explicava então que "na maior parte as vezes os sindicatos não tratam os problemas ligados aos empregos precários, em meio período, temporários ou associados a estágios, pois os jovens em questão são contratados por pouco tempo."

Em 2013, ele liderou o coletivo No Nos Vamos, Nos Echan ("Não estamos indo embora, eles é que estão nos expulsando"), para denunciar o "exílio forçado" de milhares de jovens espanhóis devido à crise e a um índice de desemprego que na época atingia mais de 55% dos jovens abaixo de 25 anos. Abel explicou também que as mensalidades de seu mestrado em economia social e gestão de cooperativas haviam dobrado em um ano, e que ele só conseguiu se matricular porque conseguiu uma bolsa.

Depois nós o perdemos de vista, até o reencontrarmos nesse 13 de janeiro, no Parlamento, onde Abel não respondia. Por fim, ele olhou para nós e sorriu. "Hola! Tudo bem? Não me chamo Abel, mas sim Segundo. Abel era um pseudônimo."

Abel Martinez de fato é Segundo González, um dos fundadores do novo partido da esquerda anti-austeridade Podemos, e coordenador do departamento de "financiamento e transparência". Ele não mudou muito em três anos. Em breve fará 28 anos, e cortou um pouco seus cabelos negros, que caíam sobre sua testa e sua nuca. Além disso, agora veste uma camisa branca e um paletó preto sobre seu jeans e tênis. Mas ele continua falando bem rápido, com argumentos afiados, pronto para continuar se indignando e buscando soluções.

"O Podemos é a evolução lógica de nosso engajamento", ele explica em meio a dezenas de outros jovens deputados, frutos de uma renovação inédita do Parlamento, que também saem da assembleia. Tudo que pedíamos nas ruas, todas as manifestações, não adiantaram nada. Não havia como o governo nos escutar. Estávamos vivendo um verdadeiro bloqueio institucional. Ele continuava adotando medidas de austeridade. A situação dos jovens piorava. Foi por isso que criamos o Podemos em janeiro de 2014."

"Falsa recuperação econômica"

No dia 20 de dezembro, o jovem partido, que atualmente tenta negociar a formação de um governo de coalizão com o Partido Socialista Operário espanhol, obteve 20,1% dos votos nas eleições legislativas e 69 deputados entre 350. E foi assim que um jovem originário das Astúrias, no norte da Espanha, não especialmente politizado antes de entrar na faculdade e de lutar em 2008 contra "a mercantilização dos estudos imposta pela reforma universitária de Bolonha", acabou virando deputado, disposto a defender a voz dos jovens nas instituições. "Ainda somos condenados a escolher entre desemprego, precariedade e êxodo profissional", ele lembra.

O Juventud Sin Futuro agora denuncia "a falsa recuperação econômica" exaltada pelo governo conservador de Mariano Rajoy, que se gaba de ter apresentado um crescimento econômico de 3,1% do PIB em 2015, sendo que o desemprego ainda ultrapassa os 21% entre os ativos e atinge 46% entre os mais jovens de 25 anos. O coletivo ressaltou recentemente em um manifesto que "o progresso não consiste em emendar um estágio no outro, assinar contratos de cinco horas por semana ou trabalhar somente algumas semanas por ano."

Um novo movimento, o Vidas Nómadas, tem buscado expor a extensão do "exílio dos jovens" e da "fuga de cérebros" que o país vem vivendo desde o início da crise. Mais de 50 mil espanhóis deixaram o reino no primeiro semestre de 2015 (+30% em relação ao primeiro semestre de 2014), segundo o Instituto Nacional de Estatísticas.

No Parlamento, apressado, Abel posa junto com outros jovens parlamentares e amigos do Juventud Sin Futuro em frente ao edifício para guardar uma lembrança desse dia "histórico". "Meu sonho é que toda essa luta, todo esse trabalho ao qual estamos dedicando os melhores anos de nossas vidas sirva para alguma coisa", ele conclui. "Espero então que eu possa me dedicar à minha profissão de economista, fazer um doutorado, criar uma rede de cooperativas ou trabalhar com economia social."
 

Tradutor: UOL

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