A guerra das plantas na indústria de perfumes

Nicole Vulser

  • AFP

As fabricantes do setor se mobilizam para garantir suas matérias-primas

Elas se chamam vetiver, fava tonka, rosa centifólia, ylang-ylang de Comores, patchuli da Indonésia, baunilha de Madagascar... Essas preciosas plantas, essenciais para a elaboração de perfumes, hoje são alvo de uma disputa feroz entre as indústrias do setor. Estas estão tentando se preparar para uma quebra no abastecimento, para as flutuações dos preços ou uma queda na qualidade das 200 famílias de plantas cultivadas em 40 países usadas por elas.

De fato, vários fatores têm ameaçado essas matérias-primas. "Uma violenta queda nos preços pode provocar seu desaparecimento", afirma Hervé Fretay, diretor de matérias-primas naturais da perfumaria Givaudan, a número um mundial na criação de perfumes e aromas, que fornece para as maiores marcas do setor. "Se o preço do patchuli na Indonésia cair por muito tempo, um produtor necessariamente tenderá a preferir um cultivo alimentício, que é mais rentável e menos aleatório", ele diz.

Se ocorrer o contrário, com a disparada nos preços, como no caso da baunilha, que nos últimos dez meses aumentou cinco vezes, os fabricantes de perfumes preferirão usar baunilha artificial. "Os agricultores também não estão protegidos de uma má colheita", diz Fretay.

A seca na Bulgária, por exemplo, explica o aumento do preço da rosa no verão de 2015. "A procura por mão de obra para a colheita a um preço cada vez mais baixo também resulta na transferência das plantações do Magreb para o Egito, e depois para a Índia ou a China", ele explica.

A inflação dos preços imobiliários também pode acabar com as plantações de flores. É o caso de Grasse, no departamento de Alpes-Maritimes, "onde só restam alguns micro-campos de jasmim destinados à Guerlain e à LVMH", afirma Fabien Durand, diretor de inovação em matérias-primas da Givaudan. O especialista da empresa suíça também culpa o turismo e até mesmo a "RMI (renda mínima de inserção), que matou o gerânio Bourbon na ilha de Reunião", já que para muitos agricultores receber essa ajuda do Estado se tornou mais vantajosa do que cultivar essa flor.

Contratos atraentes

Só que "a demanda por ingredientes naturais, estimulada pela perfumaria de nicho, tem crescido muito nos últimos quatro ou cinco anos", afirma Judith Gross, diretora criativa para a Europa da IFF, outra gigante do setor.

"As marcas de perfume entenderam a importância da qualidade das matérias-primas", ela analisa. Mas também não a qualquer preço. "Não somos especuladores, só estamos reivindicando uma estabilidade nos preços", explica Julien Maubert, diretor da divisão de matérias-primas da Robertet, especialista francesa em aromas.

Dez anos atrás a Givaudan criou oito programas destinados a garantir de maneira perene o acesso aos ingredientes fundamentais para seus 90 clientes perfumistas. "Nossa ideia era consolidar os setores mais frágeis e investir a longo prazo, para que os agricultores pudessem ter lucro", explica Fretay.

Na Venezuela, Givaudan se associou a uma ONG que monitora a proteção da fauna e da flora em 140 mil hectares de floresta, o que lhe dá acesso privilegiado às favas tonka (ou cumaru), caracterizadas por seu cheiro de amêndoa e tabaco. Na Indonésia, onde ela se abastece em patchuli, a empresa suíça aperfeiçoou um sistema de mapeamento que lhe fornece em tempo real a oferta e o preço de cada fornecedor.

Esses programas, que abarcam entre outros a lavanda, o cisto, o ylang-ylang e o benjoim, constituem o campo de inovações olfativas. Eles permitiram torrefazer as favas tonka e isolar, através de um processo de biotecnologia, uma fração do patchuli para transformá-lo em uma nota de fundo, mais picante e apimentada, de um perfume "chipre" (que evoca vegetação rasteira da floresta).

Já a americana IFF adquiriu 15 anos atrás a LMR, uma pequena empresa dedicada aos ingredientes naturais. Para reativar o cultivo de íris, que na época estava em queda livre, o grupo assinou com agricultores italianos, em 2000, contratos atraentes o suficiente para incentivá-los a continuarem com esse cultivo. Deu certo, e ela se tornou uma das matérias-primas mais caras, chegando a custar 100 mil euros o quilo de absoluto.

A IFF também se envolve bastante no início da cadeia de produção, para otimizar a qualidade dos vegetais e racionalizar os métodos agrícolas. "Nós investimos na mecanização das colheitas, como a da íris, cuja colheita dos rizomas é particularmente difícil, e a dos narcisos em Lozère, dos brotos de cassis na Borgonha e recentemente do vetiver cultivado nas planícies do Haiti", explica Judtih Gross.

A IFF tem como particularidade praticar transferências de tecnologias com seus parceiros de muito tempo, como os produtores de vetiver no Haiti, de rosas na Turquia e de gerânio e de jasmim no Egito.

"Há anos estamos trabalhando no mundo inteiro com parceiros exclusivos", ressalta Julien Maubert, da Robertet. "É só quando o setor está em perigo ou apresenta um risco de rastreabilidade que nos instalamos no local, através de co-empresas ou filiais". O grupo francês abriu cerca de quinze delas. "Estamos presentes o ano inteiro na Turquia, onde cultivamos rosas, mas onde também incentivamos a plantar íris, lavanda... E tratamos localmente produtos não frescos que viajam, como o incenso ou o mate", ele diz.

Para Dominique Roques, responsável pelos produtos naturais na Firmenich, "o segredo está em trabalhar com os melhores produtores de cada setor". Para ele, "não é papel dos criadores de perfumes abrir escolas nos vilarejos, bancar a ONG. O importante é pagar melhor os produtores, com contratos a longo prazo, para que eles mesmos paguem melhor os trabalhadores".

Esse criador de perfumes assumiu uma participação minoritária no principal grupo indiano de extratos florais, a Jasmine Concrete Exports, instalada na região do Tamil Nadu. A ambição de Firmenich é formar pelo menos quatro novas alianças no oceano Índico, na América do Sul e na Ásia. A concorrência entre esses gigantes da criação de perfumes não é nenhum mar de rosas.

Tradutor: UOL

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