Será que isso é mesmo "Made in Israel"?

Alain Frachon

Em meados de janeiro, o embaixador dos Estados Unidos em Israel mostrou irritação. De forma cortês, mas em público, o que é pouco comum para a profissão. O diplomata Daniel Shapiro tinha algo de importante para comunicar: o governo de Benjamin Netanyahu estaria enterrando a chamada solução dos dois Estados, que consistiria na criação de um Estado palestino ao lado do Estado de Israel. Como se diz em jargão diplomático "meter os pés pelas mãos"?

O embaixador discursava em uma conferência sobre segurança em Tel Aviv (Israel) quando apontou a "preocupação e a perplexidade" dos Estados Unidos diante da continuidade dos assentamentos israelenses na Cisjordânia. O avanço da colonização está no centro da política da maioria de direita e extrema-direita no poder em Jerusalém. "Sinceramente, isso leva a questionamentos sobre as intenções a longo prazo" de Netanyahu, disse o embaixador.

Ele foi explícito ao perguntar qual seria o futuro da Cisjordânia caso os assentamentos se multiplicassem e tornassem cada vez mais difícil a própria ideia de "separação" entre as duas populações. Mais de 400 mil israelenses vivem na Cisjordânia, território que Israel vem ocupando desde a guerra de junho de 1967, em uma tensão diária com cerca de 2,5 milhões de palestinos.

Duas semanas antes, na época do Natal, o embaixador de Israel nos Estados Unidos, Ron Dermer, havia contribuído com as preocupações de seu colega norte-americano. Dermer fez uma pequena provocação na forma de profissão de fé política. A cesta de presente oferecida pela embaixada israelense em Washington (EUA), na ocasião das festas, trazia a marca desse militante do Likud e próximo do primeiro-ministro: ela continha somente produtos como vinho, halawa, azeite de oliva, cosméticos, fabricados nos assentamentos israelenses da Cisjordânia e do Golã. E com o rótulo "made in Israel" (feito em Israel). Seria essa uma maneira de afirmar que o destino dos territórios disputados já estaria decidido?

Princípio de uma tragédia

Barack Obama terá de responder em breve a essa questão que não tem nada a ver com comércio exterior e tem tudo a ver com política: que rótulo deve ser colocado nos produtos importados pelos Estados Unidos de assentamentos israelenses na Cisjordânia? A União Europeia, principal parceira econômica de Israel, decidiu em novembro de 2015: eles devem trazer uma menção singular, especificando sua origem, diferente da simples denominação "made in Israel".

Isso não tem a ver com argumentações entre especialistas em marketing. Para a direita israelense, isso está no centro de uma batalha política fundamental. É preciso apagar a "linha verde" que desde 1948 até junho de 1967 serviu de "fronteira" entre Israel e a Jordânia. Mas por que, com qual propósito, se não o de afirmar a plena soberania israelense sobre toda a Cisjordânia e, portanto, a legitimidade dos assentamentos?

Isso explica a ira de Benjamin Netanyahu, cujos aliados não hesitaram em chamar a decisão da União Europeia (UE) de "antissemita" nem em esboçar, a respeito dessa questão da rotulagem, uma comparação com a estrela amarela que os judeus tinham de usar durante o regime de Vichy, na França. Nada menos que isso.

A UE não boicota os mencionados produtos, como lembrou ao "Le Monde" (14 de novembro de 2015) um ex-embaixador de Israel na França, Elie Barnavi. Ela não participa de nenhuma forma da campanha BDS (boicote, desinvestimento e sanções) contra Israel. Ela pede somente, segundo ele, o lembrete de um fato: esses produtos são fabricados em territórios que não fazem parte do Estado de Israel, considerando o direito internacional. A ideia é somente preservar o futuro, a possibilidade de uma solução de dois Estados, ainda que se aceitem vários ajustes a essa "linha verde".

Pela segunda vez em Washington, o Congresso Nacional incluiu em um pacote legislativo sobre as regulamentações alfandegárias uma medida que determina que os Estados Unidos tratem os produtos vindos de colônias como produtos "made in Israel". A Câmara dos Representantes aprovou e o Senado deve fazer o mesmo.

Será que Obama dará seu veto? O presente do embaixador israelense para os Estados Unidos não era uma provocação do Likud. Ele faz parte de uma campanha política que a direita israelense pretende vencer em Washington, pela importância do simbolismo em questão.

Em seu último relatório sobre a Cisjordânia, a ONG Human Rights Watch contava nada menos que mil fábricas israelenses nesse território, que recebem auxílios especiais no setor fiscal, fundiário e no domínio do acesso à água. É verdade que elas empregam palestinos. É verdade também que os palestinos muitas vezes têm grandes dificuldades em expandir suas empresas. Em Jerusalém, os colonos se tornaram um lobby econômico.

Um oficial de alto escalão da administração Obama fez o seguinte comentário: "Isso está começando a parecer uma anexação na prática" da Cisjordânia. Ela marcaria o fim da chamada solução de dois Estados. Foi por isso que meio milhar de figuras eminentes israelenses de todos os meios defenderam a decisão da UE. Foi por isso que o deputado Omer Bar-Lev, ex-oficial de elite e voz isolada no Partido Trabalhista, colocou na mesa das propostas que Israel pode decidir unilateralmente: desmantelamento das colônias situadas fora dos grandes blocos de assentamentos, incentivos financeiros para a evacuação dos demais.

A expansão contínua das colônias como um plano ideológico dá a sensação de que algo de irreparável está em andamento, o princípio de uma tragédia. Em uma entrevista ao jornal "Les Echos" (5-6 de fevereiro), o historiador Marc Ferro advertia: "A ideologia é uma forma privilegiada de cegueira".

Tradutor: UOL

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