Análise: Primárias presidenciais ou lutas de boxe?

Gérard Courtois

  • Dominique Faget/AFP

    11.jan.2015 - Presidente francês, François Hollande, e seu antecessor, Nicolas Sarkozy

    11.jan.2015 - Presidente francês, François Hollande, e seu antecessor, Nicolas Sarkozy

Entre os concorrentes das primárias que devem apontar o candidato dos republicanos à próxima eleição presidencial, ficou evidente um nível inédito de agressividade nas discussões. Fosse sobre a política de imigração, sobre a crise síria ou sobre as escolhas econômicas, insultos voaram para todos os lados: "Mentiroso!", acusou o primeiro; "mentiroso é você!", replicou o segundo; "canalha!", disse um terceiro, enquanto o quarto chamava de todos os nomes o irmão e o pai do quinto.

O último, bombardeado, tentava sem sucesso acalmar essa partida de luta-livre onde todos os golpes eram permitidos: "Estamos fazendo de tudo para perder essa eleição..."

Seria uma cena de ficção futurista, nove meses antes das primárias da direita francesa? Não, na verdade foi uma cena bem real que ocorreu no dia 13 de fevereiro, durante um debate na TV organizado em Greenville, na Carolina do Sul, entre os seis candidatos ainda em disputa pelas primárias dos republicanos americanos.

É verdade que os republicanos franceses não têm um animador tão eficiente quanto o bilionário populista Donald Trump. Mas ainda assim eles contam com alguns sólidos brigões, já no ringue ou impacientes para subir nele, dispostos a fazer antigos acertos de contas e capazes de causar sérios danos. 

O exemplo americano mostra que uma eleição primária pode ser o melhor ou o pior dos processos para decidir entre os candidatos de um partido. Desde que os socialistas franceses o utilizaram para indicar François Hollande em 2011, as vantagens já são conhecidas: livrar-se das antigas manobras obscuras de votos, arbitrar democraticamente entre as ambições rivais e evitar vinganças fratricidas, permitir um debate público sobre as orientações de cada um e, por fim, oferecer ao vencedor uma sólida rampa de lançamento para sua campanha presidencial. 

Impecáveis

Mas também conhecemos as condições para o sucesso, a primeira delas sendo organizar uma eleição impecável. O partido Les Républicains vem se empenhando nisso há um ano, sob a liderança do deputado Thierry Solère. Enquanto todos ainda se lembram da confusão e das irregularidades da eleição pela presidência do partido disputada em novembro 2012 por Jean-François Copé e por François Fillon, eles sabem que devem ser impecáveis. Qualquer mínima gafe seria fatal.

A segunda condição, uma vez que a eleição é aberta aos simpatizantes e não somente aos membros do partido, é mobilizar amplamente os eleitores que se reconhecem entre a direita e o centro. Os cerca de 10 mil postos de votação previstos (o mesmo tanto que para os socialistas em 2011) e sua distribuição cuidadosamente decidida são, nesse sentido, uma garantia sólida de sucesso popular.

Aliás, a pesquisa eleitoral do Cevipf, o centro de pesquisas políticas do Sciences Po, mostrou que a meta estabelecida pelo partido Les Repúblicains é realizável: de 6% a 7% dos franceses se dizem, desde já, certos de que participarão da primária de novembro, ou seja, entre 2,5 e 3 milhões de eleitores, um número similar ao da primária socialista de cinco anos atrás.

Resta a terceira condição, que é essencial: uma primária de sucesso é uma primária controlada. Também para esse caso o exemplo socialista de 2011 é instrutivo. Apesar das inimizades pessoais da época e das divergências políticas entre os candidatos, que não foram poucas, todos souberam ter domínio suficiente nos confrontos para evitar que as coisas saíssem de controle.

O ataque mais veemente foi o de Martine Aubry contra as ambiguidades de François Hollande: "Quando se é vago, é porque algum problema há!" Esse não foi dos piores, embora a expressão tenha sido certeira e acabou colando no chefe do Estado. 

Desejo de revanche

Só que é justo ali, a exemplo de seus colegas americanos, que está o problema entre os republicanos franceses, de tão palpáveis que são as tensões, as animosidades e até os ódios requentados que há entre seus principais concorrentes, supostos ou declarados.

Independentemente do que digam e mostrem, todos parecem motivados, em primeiro lugar, por um forte desejo de revanche, que raramente é um bom conselheiro. Revanche de Nicolas Sarkozy por sua derrota de 2012, que ele continua considerando injusta. Revanche de François Fillon, após o tratamento que recebeu durante cinco anos como primeiro-ministro pelo ex-presidente da República.

Revanche de Alain Juppé pelo azar judiciário que interrompeu sua carreira em 2004. Revanche de Jean-François Copé contra todos aqueles que o enterraram vivo dois anos atrás quando o caso Bygmalion veio à tona. E revanche de todos esses, e outros (Nathalie Kosciusko-Morizet, Bruno Le Maire, Nadine Morano, Henri Guaino...) contra Nicolas Sarkozy, suas promessas vãs e suas bravatas inúteis.

Além disso, o conselho nacional deles, organizado em Paris no final de semana passado, mostrou o quanto o confronto deles se dá no modo da desconfiança e da provocação. Nicolas Sarkozy quer que seu projeto seja ratificado pelos militantes daqui a dois meses na esperança de marginalizar seus concorrentes, ainda que isso vá contra a própria lógica da primária.

Alain Juppé, François Fillon, Bruno Le Maire e Jean-François Copé responderam esnobando o discurso de encerramento de seu presidente. Copé também anunciou sua candidatura no mesmo momento em que Sarkozy se pronunciava em uma outra emissora de TV. Já o fiel Henri Guaino pôs para fora todas suas críticas na tribuna. E assim por diante... 

Com base nisso, não será simples manter o sangue frio durante nove meses, e evitar que a provocação vire agressão transformando a primária em uma luta de boxe. No entanto, essa é a chave do sucesso e a condição da união por trás do vencedor...um duro desafio.

Tradutor: UOL

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