Trabalhadores palestinos são vistos com suspeita nos assentamentos israelenses

Piotr Smolar

  • Nidal Eshtayeh/Xinhua

Aumenta o número de ataques nos assentamentos israelenses na Cisjordânia, onde essa mão de obra barata agora se encontra sob suspeita

As crianças haviam saído da escola 15 minutos antes. Como prometia nevar, decidiram adiar o plantio de flores, ao longo da estrada que atravessa Beit Horon. No mercadinho situado pouco depois da barreira metálica que dá acesso para o assentamento, cerca de dez clientes faziam suas compras. A neve não chegou. Mas naquele 25 de janeiro, dois palestinos escalaram o morro, junto das oliveiras, e atravessaram a barreira metálica. Eles traziam facas e duas bombas de fabricação artesanal, que não funcionaram. Uma vez dentro do assentamento, esfaquearam Shlomit Krigman, uma jovem de 24 anos que veio a falecer em decorrência dos ferimentos. Dentro do mercado, o dono conseguiu impedir os agressores de entrar, bloqueando a porta com um carrinho de compras. "Foi um verdadeiro milagre", ele disse.

Esse ataque confirmou uma nova tendência: os colonos passaram a ser alvos dentro de sua comunidade, até mesmo dentro de suas casas. Essa nova forma de violência, dentro do ciclo iniciado há quatro meses, que já fez 26 mortos do lado israelense e quase 160 do lado palestino (incluindo parte dos agressores), aumentou a pressão sobre o governo. Ele é acusado por sua base nacionalista de não defender o suficiente suas linhas de frente que são suas colônias. No dia 17 de janeiro, em Otniel, ao sul da Cisjordânia, a mãe de família Dafna Meir foi morta a facadas na frente de sua porta. Três de seus filhos estavam dentro de casa. No dia 18 de janeiro, uma mulher grávida foi ferida por um agressor dentro de uma loja de roupas, em Tekoa, no bairro de Gush Etzion.

As patrulhas do Exército foram reforçadas, mas o verdadeiro dilema que surgiu para as autoridades diz respeito aos trabalhadores palestinos dentro dos assentamentos. Eles são em cerca de 26 mil, de acordo com a administração civil israelense. Quase 58 mil outros trabalham em Israel, um número que o governo deseja aumentar em 30 mil. É verdade que são mão de obra barata, mas também figuras do lado de lá, dos ocupados, em um conflito onde ninguém mais se fala. O medo atiça a desconfiança.

Iniciativas individuais

Em Beit Horon, um grande canteiro de obras anima os 2.000 habitantes, com cerca de cinquenta moradias sendo erguidas após uma longa disputa jurídica. Mas, após a agressão, os trabalhadores palestinos foram convidados a ficar em suas casas durante alguns dias. Com a infiltração, o Exército decidiu proibir a entrada dos trabalhadores palestinos nas zonas industriais vizinhas, e explica que a medida de interdição foi estendida temporariamente para certas colônias dos arredores de Hebron, Nablus e Ramallah. Perto de Belém, somente Tekoa foi fechada. Mas a ameaça permanece, imprevisível, ligada a iniciativas individuais. No dia 23 de janeiro, uma adolescente palestina de 13 anos que empunhava uma faca foi morta por um segurança na entrada de Anatot.

"É bom fechar o acesso a curto prazo para que os terroristas não venham disfarçados de trabalhadores", explica Yigal Dilmoni, vice-presidente do conselho de Yesha, organização que representa os colonos. "Além disso, os moradores estão com medo, eles precisam de um tempo para voltar à vida normal."

Os trabalhadores palestinos trabalham em sua maior parte na construção civil, entrepostos e nas lavouras. Diante de um elevado índice de desemprego na Cisjordânia e salários baixos, eles encontram mercados interessantes nas 20 zonas industriais israelenses. Nos assentamentos, eles são empregados nos canteiros de obras ou cuidam dos espaços públicos. Para entrar nessas zonas construídas pelos e para os colonos, eles precisam obter uma autorização de trabalho junto à administração civil. Segundo um relatório recente da Human Rights Watch, seus salários muitas vezes são bem inferiores aos dos israelenses.

Não é o caso do Rami Levy, a grande cadeia israelenses de supermercados, que possui várias lojas na Cisjordânia, sendo uma na zona industrial de Mishor Adumim. No total, ela emprega 140 pessoas, sendo 70 palestinos, e entre os clientes, 30% são palestinos. É um lugar de rara mistura. "Somos como uma família", afirma Yaacov Shimoni, 61, diretor da loja, que diz que nunca pensou em dispensar metade de sua equipe.

Nos vestiários, no andar de cima, Mohammed Khalaf, de 38 anos, faz uma pausa. Originário do vilarejo vizinho de Eizariya, ele voltou para viver na Cisjordânia depois de passar sete anos em Dubai e nos Estados Unidos. Esse trabalho, pelo qual recebe 5 mil shekels (quase R$ 5 mil), é muito precioso para ele. "Eu não encontraria outro como esse aqui", ele diz, recusando-se a falar sobre política.

Mas ele reconhece que a partir de outubro de 2015 o clima ficou tenso. "A gente sente medo de ambos os lados. Todos estão nervosos e se perguntam se alguém vai atacar de repente, como se vê na televisão. Os controles na entrada da zona foram reforçados. Agora, precisamos sair do ônibus e apresentar nossos documentos toda manhã."
 

 

Tradutor: UOL

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