Mauricio Macri enfrenta a resistência das ruas na Argentina

Christine Legrand

  • Victoria Egurza/Telam/Xinhua

Eleito em dezembro de 2015, o novo presidente argentino prometeu acabar com a hiperinflação que está corroendo o país. Mas suas primeiras medidas desagradaram parte da população

Acabou o período de graça para Mauricio Macri. Menos de três meses depois de chegar ao poder, o novo presidente argentino pode enfrentar sua primeira greve nacional nesta quarta-feira (24), enquanto o presidente francês, François Hollande, é esperado no mesmo dia em Buenos Aires para uma visita oficial.

Essa greve foi organizada pela Confederação dos Trabalhadores Argentinos e pela Associação dos Funcionários Públicos, para exigir aumentos de salários e condenar os milhares de demissões que estão em andamento. No entanto, ela não terá a adesão da poderosa Confederação Geral do Trabalho (peronista) de Hugo Moyano, que aceitou o convite do governo para o diálogo.

Passado o verão austral, a volta do recesso parlamentar em março promete ser conflituosa para Macri. O governo deve iniciar negociações paritárias com os sindicatos, que exigem aumentos de salários de 30% a 35% para compensar uma inflação de mais de 25% em 2015, herança do governo peronista de Cristina Kirchner. Em janeiro, os preços aumentaram mais 4%. Na província de Buenos Aires, os professores das escolas públicas ameaçam entrar em greve na volta às aulas, no dia 29 de fevereiro.

Por ora, as pesquisas ainda atribuem 60% de opiniões positivas sobre o chefe do Estado, que foi eleito com uma estreita margem de 51,4% dos votos no dia 22 de novembro de 2015. Mas os estudos de opinião apontam para uma angústia crescente dos argentinos diante de uma disparada nos preços que se tornou incontrolável.

A inflação é um mal endêmico da Argentina. Ela provocou a saída precipitada de vários presidentes, sendo que todos ainda se lembram da grave crise de 2001-2002. Ainda que a Argentina seja um dos países mais ricos da América do Sul, nada escapa da espiral inflacionista: produtos alimentícios, roupas, tecnologia, celulares, escolas particulares, cobertura médica e serviços públicos. O custo de vida está tão caro quanto na Europa, ou até mais.

"Uma sociedade que sofre"

O aumento mais impressionante foi o da eletricidade, cujas tarifas aumentaram 700% no dia 1º de janeiro. Até hoje, o preço do quilowatt/hora argentino estava entre os mais baixos do continente. Mas o novo governo não teve dificuldades para culpar a falta de concorrência no setor de energia elétrica e as tarifas artificialmente baixas impostas pelo antigo governo Kirchner, através de subsídios tanto para consumidores quanto para produtores.

As tarifas dos transportes públicos e do gás também deverão aumentar. Pela primeira vez, a Argentina precisa importar gás do Chile pensando no inverno austral.

"Queremos mudar uma sociedade que está sofrendo com a chaga da inflação há oito anos, em níveis inaceitáveis, causando um mal imenso", afirmou Macri, em meados de fevereiro. É um problema "muito difícil" de resolver, ele admitiu, e disse acreditar que serão necessários "pelo menos dois ou três anos para conseguir chegar a uma inflação de um único dígito".

Macri, que dirigiu várias empresas antes de entrar para a política, não tem conseguido convencer as grandes indústrias e os supermercados a limitarem seus aumentos de preços. No entanto, quando ele chegou ao poder, ele havia dado vários gestos de boa vontade na direção deles, assim como para o "campo", que são os grandes exportadores agrícolas que estavam em guerra contra Cristina Kirchner.

Para ajudá-los, o novo presidente desvalorizou o peso em quase 40%, extinguiu as taxas sobre as exportações de cereais e reduziu as taxas sobre a soja. Mas essas medidas não resultaram em uma entrada de dólares. Apesar de safras recorde, o "campo" preferiu armazenar grandes quantidades apostando em um aumento mundial dos preços dos cereais ou em uma desvalorização próxima, que tornaria suas exportações mais rentáveis.

Para tentar compensar a inflação, o governo baixou os impostos sobre os salários mais baixos e aumentou em 15,35% as pequenas aposentadorias. O auxílio universal por filho, que é concedido aos pais de 6 milhões de crianças argentinas, passará também de 837 pesos (R$ 230) para 966 pesos (R$ 266). Essa ajuda, recebidas pelas famílias mais pobres para cada criança com menos de 18 anos, era uma das medidas mais populares do governo Kirchner.

Macri também está tentando dissipar o medo de que seu governo vá eliminar os auxílios sociais criados por seus antecessores, cujo custo é estimado em quase US$ 8 bilhões.

Mas essa política começa a semear a cizânia entre os principais aliados políticos de Macri. Elisa Carrio, líder da Coalizão Cívica (centro-esquerda), criticou duramente a decisão do governo de "ceder às pressões do lobby minerador", ao eliminar as taxas sobre as exportações de sua produção. "Isso significa um abandono de recursos públicos em prol de empresas, em sua maioria multinacionais, que tiveram lucros enormes nos últimos anos", criticou Carrio.

Peronistas preparam a sucessão

A benevolência do presidente Macri em relação aos "fundos abutres", para os quais ele propôs uma isenção de 25% sobre o pagamento da dívida argentina, para voltar a ter acesso aos mercados de capitais, também preocupa. Isso significará um pagamento de US$ 6,5 bilhões, sendo que os cofres do Estado estão vazios e que as reservas do banco central são de somente US$ 26,2 bilhões. Na segunda-feira (22), o governo fechou um acordo com cinco fundos, aos quais ele aceitou pagar US$ 250 milhões.

Além disso, o primeiro gesto do governo foi demitir cerca de 250 mil funcionários públicos, nomeados pela antiga administração Kirchner.

Até hoje, essas demissões, efetuadas em pleno verão austral, prejudicaram pouco a imagem de Macri, pois segundo o governo elas afetavam militantes kirchneristas, considerados como "parasitas" pela maior parte da população. Mas tem havido o mesmo tanto de demissões no setor privado, e muitos argentinos estão perdendo o emprego sem nenhuma razão ideológica.

Enquanto isso, os partidários de Cristina Kirchner vão se mobilizando, com especulações sobre uma volta da ex-presidente. Mas o movimento peronista está se fraturando. Um grupo de doze deputados rompeu com Kirchner para criar seu próprio bloco parlamentar, o que deverá favorecer a aprovação das leis apresentadas pelo governo.

Os peronistas também estão preparando a sucessão de Cristina Kirchner e elegerão sua nova liderança, no dia 8 de maio. Vários candidatos estão na disputa, sendo que alguns deles não descartam a possibilidade de colaborar com Mauricio Macri.

Tradutor: UOL

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