Egito descamba para uma repressão à la Pinochet

  • Lobna Tarek/AP

    27.mar.2014 - Forças de segurança egípcias entram em confronto com estudantes da Universidade Ain Shams, no Cairo. Os universitários protestavam contra o então ministro da Defesa, Abdel Fattah al-Sissi, atual presidente do Egito

    27.mar.2014 - Forças de segurança egípcias entram em confronto com estudantes da Universidade Ain Shams, no Cairo. Os universitários protestavam contra o então ministro da Defesa, Abdel Fattah al-Sissi, atual presidente do Egito

Aconteceu no Cairo, no dia 25 de janeiro, cinco anos exatos após o início das manifestações da praça Tahrir que provocaram a queda do regime de Hosni Mubarak. O estudante italiano Giulio Regeni, 28, que preparava uma tese sobre os movimentos sindicais egípcios, saiu pelas ruas da cidade, esquadrinhada por uma polícia que perseguia qualquer manifestante em potencial. Ele nunca mais foi visto com vida.

Seu corpo foi encontrado no dia 3 de fevereiro, no acostamento de uma estrada no subúrbio do Cairo. A polícia disse se tratar de um acidente e negou ter qualquer responsabilidade no ocorrido. Contudo, vários indícios dão a entender que o doutorando da Universidade de Cambridge foi assassinado por homens das forças de segurança. Com queimaduras de cigarro em torno dos olhos, facadas e fratura do pescoço, o jovem italiano trazia marcas características de tortura sofrida em detenção. "Giulio Regeni foi torturado porque pensaram que ele era um espião", disse o jornal italiano "La Repubblica".

De fato. O Egito, com o governo do presidente Abdel Fattah al-Sissi, vem descambando quase para um estado de paranoia e vivendo a volta de um "Estado policial" pior do que durante o regime de Mubarak. No início de janeiro, o centro Nadeem para reabilitação de vítimas da tortura estimava que 474 pessoas haviam sido mortas pela polícia em 2015, sendo 137 na prisão, e que outras 676 foram torturadas.

A história começa com o golpe de Estado do general Sissi: em julho de 2013, ele derrubou o presidente eleito Mohamed Mursi, da Irmandade Muçulmana, quando o Egito mergulhava no caos e na islamização a marchas forçadas. A repressão foi brutal, com mais de 800 manifestantes islamitas sendo mortos em agosto de 2013, a Irmandade Muçulmana sendo perseguida e centenas de condenações à morte sendo pronunciadas. Um ano mais tarde, uma eleição presidencial foi organizada, e o general, que se tornou marechal, virou o presidente Sissi. A "normalização" poderia ter parado por aí.

Mas não foi o que aconteceu. Detenções ilegais, torturas, assassinatos e uma Justiça parcial se tornaram prática comum no Egito. As vítimas, que são jornalistas, acadêmicos, cidadãos comuns, muitas vezes não têm nada a ver com terroristas islamitas. O regime, que entrou em um surto repressivo, tem lembrado muito o do general Pinochet no Chile (1973-1990), com uma insurreição islamita armada para conter no Sinai, além de perseguir qualquer oposição política possível.

A sociedade civil ainda está reagindo. O sindicato dos médicos protestou contra a detenção abusiva de colegas que se recusaram a assinar um laudo médico falso que escondia ocorrências de tortura. Deputados pediram pela demissão do ministro do Interior, enquanto o presidente Sissi teve de denunciar, na sexta-feira (19), os "atos irresponsáveis cometidos por certos membros das forças policiais" e exigiu emendas legislativas.

Essa estratégia de uma repressão cega é suicida para a economia do país. O Egito e seus 85 milhões de habitantes precisam que os turistas ocidentais voltem e precisam dos investimentos estrangeiros para financiar grandes obras.

Os europeus, que enxergam no Egito do general Sissi um bastião contra o islamismo, não pouparam apoio, a exemplo da França, que ficou exultante de poder vender alguns Rafale. É uma política compreensível, mas se tornará insustentável caso o Egito não mude logo.

Dos Estados Unidos até a Europa, a morte de um jovem italiano que passou por torturas abriu os olhos para um câncer que tem minado a recuperação do Egito.

Tradutor: UOL

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