Disputas partidárias internas elevam críticas a uma dinastia política na Tunísia

Frédéric Bobin

  • SALAH HABIBI/AFP

O principal partido da situação, Nidaa Tounes, está em crise desde que o filho do chefe de Estado se tornou seu líder

O busto de Bourguiba em bronze se destaca no amplo gabinete. O "Combatente Supremo" está em toda parte, em fotos penduradas na parede. Hafedh Caid Essebsi, levemente corpulento e com seus óculos de armação de tartaruga, mostra claramente suas origens, sendo evidente a filiação que remonta ao pai da independência tunisiana. Mas há um laço mais constrangedor a ser citado, que o liga diretamente a seu próprio pai, Beji Caid Essebsi, presidente da República tunisiana. Só que Hafedh Caid Essebsi não pode escapar da lembrança dessa ascendência.

O fato de ele ter se tornado no início do ano o líder do Nidaa Tounes, o movimento fundado por seu pai e que domina a coalizão governamental, provocou um mal-estar geral a ponto de mergulhar o partido em uma profunda crise. Cinco anos após a "primavera" de 2011, voltar às práticas dinásticas não caiu muito bem. Hafedh Caid Essebsi sabe como esse assunto é delicado. "Sou apoiado pela base do partido", ele se defende, e complementa: "Não se pode privar um cidadão de seus direitos cívicos por causa dessa crítica a uma sucessão dinástica."

As coisas teriam sido mais simples se o perfil do "filho" fosse incontestável. Na opinião daqueles que convivem com ele, Hafedh Caid Essebsi é um "rapaz legal", tímido e afável. A polidez afetada com a qual ele nos recebe confirma essa impressão de um homem mais canhestro do que arrogante. Mas será que isso é suficiente para dirigir o grande partido "modernista" da Tunísia que venceu as eleições legislativas e presidenciais do final de 2014, colocando um fim à tumultuosa experiência do partido islamita Ennahda no poder? "Ele não está à altura do papel", suspira Moncef Sellami, deputado do Nidaa Tounes e um dos que se distanciaram do partido após violentas dissensões internas.

Negócios difíceis

Hafedh Caid Essebsi teve uma trajetória pouco ilustre, com estudos superiores na França inconclusivos, investimentos mal-sucedidos quando voltou para a Tunísia no final dos anos 1980 —é verdade que ele não era bem visto pelo clã do presidente de então, Ben Ali— e é uma presença política à sombra de seu pai após a revolução. Esse pai, ex-ministro de Bourguiba e embaixador (na França e na Alemanha), e depois primeiro-ministro e chefe do Estado, foi incontornável em sua trajetória. "Sua personalidade deve tê-lo esmagado", acredita Zied Krichen, editor do jornal de língua árabe "O Magreb". Apagado, visto como o "filho do pai" e um tanto desprezado pelos cabeças do partido, Hafedh Caid Essebsi nunca tinha realmente chamado atenção. Até o momento em que a guerra fratricida que dividiu o partido ao longo do ano de 2015 o lançou para primeiro plano, para surpresa geral. "Ele não tem uma reflexão estratégica, mas é um burocrata eficiente", diz um observador estrangeiro.

Seu grande trunfo foi ter trabalhado silenciosamente as estruturas locais do partido. Quando a direção do Nidaa Tounes invadiu o Parlamento, o governo e a presidência, com a vitória eleitoral de 2014, o aparelho se esgotou com a debandada. Ninguém parece estar preocupado com isso, fora Hafedh Caid Essebsi. "O partido se esvaziou, se marginalizou", hoje ele critica. E o mal-estar da base é ainda maior pelo fato de que o novo governo, sem uma maioria absoluta na Assembleia, começou a abrir suas portas para os islamitas do Ennahda que haviam sido duramente combatidos durante a campanha eleitoral. O descontentamento foi aumentando entre os membros. "Hafedh foi o porta-voz da fúria da base", ressalta Leila Chettaoui, deputada do Nidaa Tounes.

Mas um novo mal-estar de toda uma outra natureza em breve mudará a configuração das coisas. A ofensiva de Hafedh Caid Essebsi e de seus amigos visando assumir o controle desse aparelho será feito de forma impetuosa. Seu principal concorrente é Mohsen Marzouk, um ex-aliado do presidente que caiu em desgraça por causa de ambições muito ostentatórias. Marzouk acabou saindo para preparar o lançamento de um novo partido "neo-bourguibista". "Houve uma tentativa," denuncia Marzouk, "de deixar como herança certos poderes a uma pessoa, Hafedh Caid Essebsi, que não tinha nem as qualidades, nem a liderança natural, em razão do nome de sua família."

O chefe do Estado nunca apoiou formalmente seu filho, mas sua neutralidade explícita foi vista como um apoio tácito, sobretudo após sua briga com Marzouk. Às suspeitas dinásticas se soma o papel obscuro que Hafedh Caid Essebsi exerce junto a oligarcas e políticos "pouco recomendáveis", para usar os termos de Zied Krichen, uma vez que alguns deles eram associados ao regime de Ben Ali. O mal-estar atingiu seu ápice durante um congresso do partido em Sousse, no dia 9 de janeiro, onde se desdobraram manobras ocultas e controversas para impor Hafedh Caid Essebsi e seu clã à liderança de uma direção "provisória". As deserções foram se multiplicando. Em poucas semanas, o partido perdeu 28 de seus 86 deputados, levando o Nidaa Tounes do status de primeiro para o de segundo grupo na Assembleia, atrás do Ennahda.

Parceira benevolente

Assim, o governo agora depende mais do que nunca do partido islamita. O Ennahda, cujo líder Rashed Ghannouchi havia feito no verão de 2013 um pacto de coexistência com Beiji Caid Essebsi, só pode comemorar essa nova configuração que lhe permite se inscrever por um bom tempo no cenário tunisiano. De fato, o Nidaa Tounes está sendo deixado por seu componente vindo da esquerda anti-islamita, encarnado à sua maneira por Marzouk, e a nova direção tem se mostrado como uma parceira mais benevolente do que nunca.

A coabitação técnica está se tornando uma "cumplicidade ideológica", denuncia Mustapha Ben Ahmed, um deputado que renunciou. "Quero pessoalmente que essa reconciliação seja profunda", conta Hafedh Caid Essebsi. "É do interesse da Tunísia, de sua estabilidade". Mas se o Nidaa Tounes tiver que continuar se enfraquecendo em prol do Ennahda, o que muitos observadores preveem, a construção em torno dessa nova aliança conservadora poderá em breve tremer nas bases.
 

Tradutor: UOL

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