O que a polícia belga sabia dos irmãos Abdeslam antes dos ataques em Paris

Jean Pierre Stroobants

  • AFP

    Salah Abdeslam, que está foragido, é um dos supostos terroristas envolvidos nos ataques de Paris em novembro de 2015

    Salah Abdeslam, que está foragido, é um dos supostos terroristas envolvidos nos ataques de Paris em novembro de 2015

Investigadores belgas teriam negligenciado várias informações antes dos atentados de 13 de novembro em Paris

O serviço secreto belga provavelmente cometeu um grande erro ao não dar o devido tratamento à informação fornecida por um informante que, já no verão de 2014 [no hemisfério norte], um ano e meio antes da onda de atentados de 13 de novembro de 2015 em Paris, mencionava a ameaça representada pelos irmãos Salah e Brahim Abdeslam.

Já um outro relatório da polícia local foi considerado improcedente em junho de 2015, ainda que tenha evocado as ligações dos dois irmãos com a organização Estado Islâmico (EI) e sua intenção de ir para a Síria.

Essas informações deverão reacender as polêmicas sobre a maneira como foram conduzidas as investigações antiterroristas belgas, sendo que Salah Abdeslam permaneceu escondido em Bruxelas após os atentados. Depois da RTBF, no domingo (28), o jornal "L'Echo" levantou, na terça-feira (1º), elementos mais do que perturbadores e talvez decisivos. Ele afirma que a polícia "sabia tudo" a respeito das ameaças de ações violentas por parte dos dois irmãos de Molenbeek (região de Bruxelas, Bélgica).

Em julho de 2014, a divisão antiterrorista da polícia judiciária federal recebeu uma ligação. Um informante, considerado "confiável" pelos investigadores, deu um alerta detalhado. Esta fonte, que na época parecia ter ligação direta com Salah e Brahim Abdeslam, afirmava que os dois irmãos "estavam preparando um atentado" e pediu para que os policiais "fizessem alguma coisa". Ela dizia ainda que a ameaça era "iminente".

Segundo a testemunha, os dois homens nesse momento já não escondiam sua intenção de cometerem uma ação terrorista. Isso seria desmentido mais tarde pelo resto da família Abdeslam, cujos membros disseram nunca ter notado nada quanto à radicalização dos irmãos Salah e Brahim. A noiva de Salah, entrevistada recentemente por uma revista flamenga, também afirma não ter notado nada de alarmante.

Segundo a testemunha-chave, os irmãos também tinham contato com Abdelhamid Abaaoud, este do mesmo bairro de Molenbeek. Ele foi para a Síria e em 2015 se tornaria um dos coordenadores dos atentados múltiplos de Paris, antes de ser morto no ataque contra seu esconderijo em Saint-Denis (França).

A divulgação da informação para as diversas sub-divisões da polícia antiterrorista foi limitada. No entanto, a "dica" foi em seguida compartilhada por uma dezena de investigadores pelo menos, visivelmente sem preocupar muito seus superiores.

Nenhuma escuta

Já a polícia local da zona oeste de Bruxelas iniciou uma investigação em fevereiro de 2015, talvez com base na informação transmitida seis meses antes e levando em conta aquilo que havia sido revelado pelo desmantelamento de uma célula terrorista em Verviers (Bélgica), em janeiro. Um grupo dessa cidade do leste do país tinha ligação com Abdelhamid Abaaoud e vinha preparando atentados contra a polícia, entre outros alvos.

Os policiais locais redigiram um boletim de ocorrência no dia 30 de janeiro. No dia 28 de fevereiro, Salah Abdeslam passou por uma audiência. Seu processo de radicalização provavelmente fora efetivado, mas ele negou ter qualquer envolvimento em atividades terroristas. Ele confessou conhecer Abdelhamid Abaaoud, um dos supostos coordenadores dos atentados de Paris, mas porque ele fora um de seus antigos colegas de bairro, segundo ele.

A Procuradoria e a Polícia Federal de Bruxelas retomaram então o caso. Segundo a RTBF, nenhuma investigação de campo e nenhuma busca foram conduzidas, uma vez que os Abdeslam não eram considerados "ameaçadores". Nenhuma escuta foi feita.

Mas no dia 20 de março, o Escritório Central de Análise de Ameaças, que estabelece o nível de alerta e recebe as informações de diversos departamentos oficiais, incluiu Salah Abdeslam em sua lista de jihadistas em potencial. Essa lista foi enviada, aparentemente em junho, para a Prefeitura de Molenbeek e para o comissário de polícia local, entre outros. A Interpol também teve acesso a essa lista.

Estranhamente, no dia 8 de maio, a Polícia Federal considerou que aparentemente era impossível provar as informações da polícia local. No dia 29 de junho, a Procuradoria Federal arquivou o caso, ou seja, quatro semanas antes de uma viagem do interessado para a Grécia, onde ele se encontrou com Ahmed Dahmani, que teria feito sondagens em Paris e foi preso na Turquia pouco depois dos atentados.

No começo do mês de setembro, Salah Abdeslam esteve na Hungria para buscar dois cúmplices envolvidos nos atentados de Paris. "Essas pessoas circularam, alugaram casas, compraram detonadores", diz espantado Philippe Moureaux, ex-prefeito de Molenbeek, citando as "falhas" das investigações.

Policiais revoltados

E por que nenhum desses elementos foi levado a sério? Essa é a questão que tem perturbado o mundo judiciário e o Parlamento. O Comitê P, um órgão de controle externo das polícias, subordinado ao Parlamento federal, redigiu um texto intermediário que faz um histórico das investigações e deve ser debatido em breve pelos deputados, a portas fechadas. O Comitê P teria o depoimento de policiais revoltados com a maneira como seus superiores trataram o caso Abdeslam.

A Segurança do Estado (agência de inteligência interna) acaba de explicar em detalhes como foi seu trabalho e o considera muito positivo. Já o governo federal pretende defender com unhas e dentes a imagem e a reputação do país. "Mostrar sobretudo à França que podem ter cometido gafes não é fácil", comenta ressentida uma fonte judiciária.

Vários oficiais de polícia e da Justiça costumam mencionar o peso de seu trabalho, sua falta de recursos ou a dificuldade de processar todas as informações que chegam até eles. Entrevistados na segunda-feira e na terça-feira, alguns deles não escondiam sua raiva diante das críticas que começavam a chover. Mas alguns investigadores não hesitam em afirmar que, se as informações recebidas por seu departamento tivessem sido processadas corretamente, os atentados de Paris "talvez pudessem ter sido evitados". "Realmente houve um amadorismo total", relatou um deles ao "L'Echo".

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