Partido francês de extrema-direita cancela marcha anual após ameaças do EI

Olivier Faye

  • Pascal Rossignol/Reuters

    7.dez.2015 - Marine Le Pen, líder da Frente Nacional francesa, em Lille (norte da França)

    7.dez.2015 - Marine Le Pen, líder da Frente Nacional francesa, em Lille (norte da França)

Partido francês de extrema-direita, ameaçado pela organização Estado Islâmico, desistiu de seu tradicional desfile de 1º de Maio

Na manhã do último domingo (7), a irrupção da polícia surpreendeu mais de um oficial da Frente Nacional. Reunidos há dois dias em um seminário para refletir sobre sua estratégia para a eleição presidencial de 2017, os representantes do partido de extrema-direita viram as forças policiais se desdobrarem em torno do clube de campo de Etiolles (Essonne), onde estavam sendo realizados os trabalhos.

Na véspera, em sua revista de propaganda online "Dar al-Islam", a organização Estado Islâmico (EI) havia apontado os militantes da FN como "alvos de qualidade". A reação das autoridades não demorou. "Talvez os policiais já estivessem presentes nos arredores antes disso, mas de qualquer forma, não os vimos", diz um líder da FN. "Pediram que fechássemos as cortinas e eles chegaram. Essas ameaças foram levadas a sério pelo Ministério do Interior", diz satisfeito um conselheiro regional.

Foi neste contexto que a direção do partido de Le Pen decidiu remanejar seu tradicional encontro de 1º de Maio em Paris. A ameaça formulada pelos jihadistas, que veio acompanhada de uma foto do desfile anual dos "idólatras da FN", como eles os chamam, reforçou a vontade dos líderes do partido de rever a organização desse evento.

Não haverá mais a manifestação com militantes da FN saindo a pé da rua de Rivoli, passando em frente à estátua de Joana d'Arc, na praça de Pyramides, seguindo até a praça do Opéra para o discurso de Marine Le Pen. Disso só restará uma homenagem em comitê restrito, ao pé da estátua da Virgem de Orléans, seguida de um banquete para 2.000 a 3.000 convidados em uma sala ainda desconhecida na região parisiense.

"No ano passado, foram três membros do Femen com os seios de fora, fazendo saudações nazistas na sacada de um hotel que dava para a praça do Opéra. Se no lugar dessas três Femen aparecessem três jihadistas armados de AK-47, o que faríamos?", perguntou Florian Philippot, vice-presidente da FN, para justificar a decisão.

Nas últimas semanas, houve conversas sobre essa questão entre a direção da FN e o gabinete do ministro do Interior, Bernard Cazeneuve. "Eles nos explicaram que a parte do desfile do 1º de Maio era a mais difícil de administrar", reconhece a FN.

A ameaça geral contra o partido de extrema-direita está sendo levada a sério. Outros temas fora o 1º de Maio foram abordados, entre os quais a segurança do Carré, a sede do partido em Nanterre. O Ministério do Interior propôs que fosse realizada uma auditoria e que fossem submetidas recomendações que permitissem melhorar sua segurança.

O caso pessoal dos líderes da FN também foi mencionado. Por enquanto, a proteção de Philippot, acionada após os atentados de 13 de novembro de 2015, assim como a de Marine Le Pen, mais antiga, não passaram por alterações.

Banquete em espaço fechado

Ainda que o desfile do 1º de Maio tenha se tornado uma tradição na FN desde 1988, data em que Jean-Marie Le Pen decidiu juntar o Dia do Trabalho com a homenagem de seu partido a Joana d'Arc, vários oficiais do partido de extrema-direita reconhecem que seria difícil manter o evento no estado atual das coisas.

A decisão foi confirmada durante uma reunião da cúpula do partido, no dia 29 de fevereiro. "Estaríamos colocando os militantes em risco. Havia um amplo consenso sobre o assunto já na reunião de Etiolles", chegou a afirmar um deputado. E não importa que essa decisão seja vista como uma vontade de romper ainda mais com a FN do que quando esta era liderada por Jean-Marie Le Pen. "Somos obrigados a nos adaptar, a questão não é a tradição. Não queremos viver na rua de Rivoli uma situação como a do Bataclan. Essa gente é capaz do pior, eles estão atacando e o mundo todo está em perigo", concorda um parlamentar.

No entanto, a lembrança da edição de 2015, que teve a aparição não desejada de Jean-Marie Le Pen e de militantes do Femen, além de uma equipe de jornalistas atacada por militantes da FN, deixou um gosto amargo na boca de Marine Le Pen e de Florian Philippot. O acontecimento não combinava com a imagem de uma "França pacificada" que a presidente da FN quer encarnar agora.

Além disso, a organização de um banquete em um recinto fechado deverá permitir que se controle melhor o perfil dos participantes e de afastar definitivamente os elementos mais radicais. Ainda assim, há aqueles dentro do partido que pedem pela volta do desfile contanto que sejam atendidas as condições de segurança.

"Seria lamentável que abandonássemos definitivamente a ideia de uma grande manifestação de rua, que é o momento de encontro para os militantes, popular e muito 'direita nacional'", diz um conselheiro regional.

Em um partido como a Frente Nacional, é sempre arriscado desafiar tradições.

Tradutor: UOL

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