Senegal tenta recuperar milhões de euros desviado por filho de ex-presidente

Christophe Châtelot

  • Seyllou/AFP

    Manifestante carrega cartaz com foto de Karim Wade, em 2013, em apoio ao ex-ministro

    Manifestante carrega cartaz com foto de Karim Wade, em 2013, em apoio ao ex-ministro

Ex-ministro e filho do ex-presidente Abdoulaye Wade cumpre uma pena de seis anos de prisão por enriquecimento ilícito

Quase um ano após a condenação por enriquecimento ilícito de Karim Wade, ex-ministro e filho do ex-presidente senegalês Abdoulaye Wade, o Estado senegalês pena para destrinchar o emaranhado de empresas offshore e de fachada que permitiram, segundo a acusação, que o condenado e seus cúmplices desviassem dezenas de milhões de euros do Senegal.

"Está lançada a caçada para recuperar o espólio que falta e temos esperança de que isso trará resultados daqui a seis meses ou um ano", declarou, na terça-feira (8), William Bourdon, um dos advogados do Estado senegalês.

Karim Wade, que ganhou o apelido de "ministro do céu e da terra" no seu auge, foi condenado no dia 23 de março de 2015 a seis anos de prisão e 210 milhões de euros (R$ 848 milhões) de multa por uma jurisdição especial, o Tribunal de Repressão ao Enriquecimento Ilícito (Crei).

Ele foi acusado de ter adquirido ilegalmente 178 milhões de euros (R$ 719 milhões) através de esquemas financeiros obscuros quando era ministro, acumulando as pastas de Cooperação Internacional, Planejamento Territorial, Transportes Aéreos e Infraestrutura entre 2009 e 2012.

Segundo a acusação, seu patrimônio inclui empresas no Senegal e no exterior, contas bancárias, imóveis e carros. Contudo, até hoje somente "26 milhões de euros foram recuperados pelo Estado senegalês", explicou Antoine Diome, procurador do Senegal.

Uma parte ínfima do capital claramente remonta a Karim Wade. Assim como para o resto dos desvios que compuseram o dossiê do Crei, a maior parte dos montantes e dos esquemas financeiros envolvem alguns de seus aliados, julgados e condenados juntamente com ele.

"A demora do Senegal em traçar uma linha vermelha entre os bens de uns e outros é proporcional à complexidade que se encontra hoje em um ambiente financeiro globalizado", explicou Bourdon. "Karim Wade não era acionista direto dessas empresas, mas temos as provas de que ele utilizou laranjas", afirmou Simon Ndiaye, outro procurador do Senegal.

Segundo documentos apresentados por Diome, 24 contas bancárias abertas no Julius Baer de Mônaco foram apreendidas em um montante de aproximadamente 12 milhões de euros (R$ 48 milhões). Somente uma delas, no valor de 2 milhões, estava no nome de Karim Wade.

Além dessa conta, o Senegal apreendeu um contrato de seguro de vida em Luxemburgo no valor de 768 mil euros (R$ 3,1 milhões). Na França, um apartamento comprado por 400 mil euros (R$ 1,61 milhão) foi identificado, bem como relógios de luxo guardados em um cofre do Société Générale. 

Isso ainda está muito longe das centenas de milhões mencionados na ação. Mas Félix Sow, o presidente da ordem dos advogados de Dacar, lembra que existe, "de qualquer forma, uma enorme discrepância entre seu capital e suas rendas legais declaradas de 2002 a 2012". "Se for levar em conta o PIB senegalês, estamos falando de montantes muito significativos", diz Bourdon.

Esse contra-ataque do Estado senegalês ocorre um mês depois de defensores de Karim Wade entrarem com uma queixa, em Paris, por "detenção arbitrária", uma iniciativa que se baseou em um parecer do grupo de trabalho do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que critica não a acusação, mas sim a duração da detenção preventiva do ex-ministro.

A defesa de Wade critica o que seria um processo político destinado a afastar um concorrente em potencial. De fato nenhum outro oficial da época do regime corrupto de Abdoulaye Wade foi condenado pelo Crei, com exceção do ex-diretor do registro fundiário Tahibou Ndiaye.

Tradutor: UOL

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