Paris parecia cena de "The Walking Dead", dizem primeiros policiais alertados sobre atentados

Camille Bordenet e Aline Leclerc

Em Paris

  • Thibault Camus/AP

    13.nov.2015 - Equipe de resgate atua no local de uma série de ataques em Paris, na França

    13.nov.2015 - Equipe de resgate atua no local de uma série de ataques em Paris, na França

No dia 13 de novembro, seis homens da brigada anticriminalidade (BAC) de Val-de-Marne foram alguns dos primeiros a chegar aos locais dos ataques em Paris. 

Um deles é Laurent, 44, que tem seis anos de brigada anticriminalidade noturna de Val-de-Marne (BAC94N), com uma leve cicatriz no olho, lembrança de um golpe de estilete: "Temos 20 anos de acrobacias, e essa foi a primeira vez que pensei que íamos nos dar mal". O outro é o Toni, o "Patate", de 40 anos e 12 de BAC, com punhos difíceis de esquecer. "Aquilo mexeu comigo profundamente. São situações de guerra para as quais não estamos preparados." Também estava lá Alex, de 34 anos, barba ruiva e fumante de Marlboro vermelho, na BAC94N há quatro anos: "Eu me coloquei em risco sozinho. Ouvi as balas passarem de raspão nas minhas costas!" Nico, de 17 anos, com sua cara de escandinavo, chegou há um ano: "Você fica numa bolha, só levanta a cabeça no final". E Philippe, 38, há seis anos na BAC94N, com seus ombros largos e voz suave diz: "Normalmente não cuidamos dos feridos".

Dos dois trios de Val-de-Marne que estiveram entre os policiais na linha de frente, no dia 13 de novembro em frente ao Bataclan, somente Oliv' não estava presente na reunião, por estar gripado. "Éramos seis no mesmo lugar, seis histórias diferentes. E faz quatro meses que precisamos falar sobre isso para juntos montarmos as peças do quebra-cabeça", resume Toni. Para o encontro, "Patate" escolheu um restaurante português de pratos revigorantes. "É também uma forma de terapia, ver vocês", explica Alex. E relembrar, trocar histórias.

Naquela noite de 13 de novembro, Laurent, Alex e Philippe faziam patrulha em Créteil, uma vez que a BAC94N cobre toda a região parisiense. "Somos policiais de vias públicas, nunca sabemos o que vamos encontrar". Às 21h20, o rádio da polícia alertou sobre uma explosão no Stade de France, e depois mais outra. Laurent tomou a iniciativa de liderança: "Não tive dúvidas, era um atentado. Decidi que iríamos para lá". Alex assumiu o volante: "Corri a 180 km/h. Meu cérebro era o Laurent naquele momento." Ele ainda se lembra do trajeto e de Laurent avaliando o peso daquela decisão que jogou seus colegas de equipe naquele inferno. "Se um dos dois tivesse sido morto ou ferido..."

Na mesma hora, Toni, Nico e Oliv' tinham acabado de interromper seu jantar em Vincennes. Quando foi anunciada a chacina em Paris, na rua Bichat, "a gente se levantou e foi direto para Nation". No caminho, eles souberam sobre os ataques da République e de Charonne; os autores estariam subindo de carro o bulevar Voltaire, que justamente dá para a praça da Nation. O veículo dos policiais foi direto para lá, pronto para um confronto.

"Naquele momento houve uma explosão… E nas ruas, parecia a série 'Walking Dead': pessoas perambulando, cobertas de sangue", diz Toni, comovido. Eles estavam em frente ao Comptoir Voltaire e não sabiam que um terrorista havia acabado de detonar seu cinturão. "Achei que fosse um tiroteio. Quando entrei no bar perguntei: 'Eram quantos os atiradores?' As pessoas não entenderam, e disseram: 'Não, o cara entrou e explodiu tudo!' Eu olhei para o chão e vi que não estava rodeado por cartuchos, mas sim de porcas de metal." Enquanto ele pegava o rádio para chamar reforços, Toni reconheceu uma voz na transmissão. Era Laurent. "Eles estão no Bataclan, ele disse que estão atirando. E ouvi os tiros ao fundo! Só quero ir ajudá-los. Mas estamos presos aqui, precisamos esperar o socorro." Em volta da mesa, os cinco homens trocam olhares contando tanto sobre o medo que sentiram de perder um amigo quanto sobre a alegria que sentem hoje por estarem juntos.

"Não tínhamos proteção"

Quando Toni finalmente viu chegar uma outra equipe de policiais ao Comptoir Voltaire, ele perguntou imediatamente: "Podemos ir ao Bataclan? Estamos bem equipados!", fazendo alusão aos capacetes, aos coletes à prova de balas e aos fuzis carregados pelos três. "Levamos dez minutos para chegar, foram os mais longos da minha vida!"

Já Laurent, Alex e Philippe nunca chegaram ao Stade de France, desviando para Paris assim que foram anunciados os tiroteios. "Estacionamos em frente ao Bataclan às 21h51m56s," explica Alex. "Tem detalhes que a gente não esquece!" Os terroristas tinham acabado de entrar na casa de shows. "Ouvimos tiros do lado de dentro, mas não vimos nenhum outro policial. A gente se sentiu sozinho no mundo... Durou só alguns minutos, mas pareceu uma eternidade."

Havia vítimas no chão em frente ao Bataclan Café, atingidas pelos primeiros tiros. Um homem levou seu amigo até os policiais. "O cara tinha um buraco na barriga", diz Alex, mostrando o tamanho do ferimento com as mãos. "Mas não somos médicos!" Ele parou carros, transformando-os em ambulâncias improvisadas. Uma jovem—"uma garçonete, talvez?—ofereceu ajuda. Juntos eles transportaram os feridos até um ponto mais distante do bulevar. "Aquela menina tinha colhão!"

No meio tempo, outros policiais se juntaram a eles. O delegado da BAC noturna parisiense e um brigadista, herói da noite, já haviam entrado no Bataclan munidos de um simples revólver: "Muito respeito por eles". Com as primeiras vítimas acudidas, Laurent e Philippe decidiram entrar "para ver o que estava acontecendo". Eles entraram, com armas na mão, na passagem Saint-Pierre-Amelot, onde há uma saída de emergência do Bataclan. Philippe conta, em voz baixa, ainda assustado: "Eu sentia as paredes vibrarem. Eles explodiram granadas, não? Nós olhamos um para outro, lembra Laurent?" Ele lembra: "Nunca esquecerei seu olhar. Estávamos pensando a mesma coisa: se formos em frente, vamos morrer."

Ouviu-se uma explosão mais forte: do lado de dentro, o delegado havia acabado de abater um dos agressores, mas este conseguiu detonar seu cinturão de explosivos. Philippe conta: "As portas se abriram, e nos vimos presos em uma maré humana. Pessoas corriam, caíam e se agarravam em nós, depois de levarem tiros nas costas. Olhei para todos para ver se não havia um terrorista entre eles." Laurent diz: "Tínhamos um poder de fogo mínimo e nenhuma proteção. Então recuamos, pedindo aos que estavam em condições que carregassem os outros."

Na entrada do beco, eles encontraram Toni, Nico e Oliv', posicionados junto de uma loja na esquina, e Alex, que queria voltar para buscar uma vítima. Foi ali que ele teve o "clique": um terrorista passou sua AK-47 por entre as portas da saída de emergência e soltou uma rajada de tiros. A cena foi gravada por um fotógrafo, com seu celular. Alex assiste à montagem que a "Paris Match" fez, como uma cicatriz virtual.

Caubóis comovidos

Toni: "Eu vi o cara, mas não pude revidar porque perto da porta havia um civil arrastando uma pessoa ferida". Alex: "Nós nos escondemos atrás das ambulâncias. Depois Toni e Nico voltaram para lá. E foi naquele momento que hesitei. Não os segui." Esses segundos de hesitação o assombram até hoje. Mas eles podiam ter lhe custado caro, uma vez que outra rajada de balas atingiu o caminhão atrás do qual ele havia se escondido. "Uma bala passou muito perto da minha cabeça..."

Por fim Toni conseguiu um ângulo para atirar, pois um civil havia se deitado sobre a pessoa ferida. Ele disparou. "Vi a AK-47 caindo." Os tiros cessaram, e ele gosta de pensar que talvez tenha atingido o atirador em cheio. A BRI e o RAID chegaram logo depois. Antes que eles atacassem, Philippe foi procurar feridos no fosso, junto com médicos da brigada de intervenção. Ali ele viu expressões e ferimentos dos quais não vai se esquecer.

Três meses depois dessa noite, todos falam em figuras que os marcaram, desconhecidos que viveram o inimaginável, como os caubóis que se comoveram com a coragem de uma mulher com "o rosto de um anjo", ou como o "branco de dreadlocks", ou ainda o civil que ficou preso no beco, que "nunca teria abandonado aquela garota" que ele nem conhecia. Foram todos "heróis" que mereceriam uma medalha, na opinião dos homens da BAC94N. "Mas também vimos uns grandes idiotas!", como o barman que relutava em acudir os feridos.

Os seis policiais só voltaram para suas casas no final da manhã do dia seguinte. Às 17h, eles já se reencontraram, tomaram uma e fizeram piadas. Mas nos dias seguintes, eles perderam o apetite e com isso, alguns quilos, além do sono. "Precisa mesmo ser um demente para arriscar sua vida por 2.500 euros por mês", eles brincam.

Todos eles precisaram voltar aos locais dos acontecimentos para conseguirem seguir em frente. Tudo pareceu muito diferente depois disso. Um psicólogo os ajudou a fazer um balanço juntos. Somente Alex sentiu a necessidade de ainda voltar para lá. Seis vezes. "Encontrar os motivos que me fizeram hesitar pode me ajudar a seguir em frente." Ainda que isso lhe valha as gozações dos outros.

Para todos há "um antes e um depois de 13 de novembro". Eles estão mais alertas, e treinam os tiros com mais afinco. "Não existe mais intervenção banal. Você sabe que isso pode acontecer de novo amanhã." Laurent carrega sua arma consigo mesmo fora de serviço, o que é possível durante estados de emergência, e não viaja mais sem estar armado. Hoje ele sente que ganhou uma segunda chance, então passou a apreciar as coisas mais simples. Quando voltou para sua casa no dia 14 de novembro, ele foi caminhar no prado à beira do rio Marne. De bermuda. "Eu precisava sentir a grama sob meus pés."
 

Tradutor: UOL

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