Documentário retrata esforço de iranianas para organizar concerto só de mulheres

Thomas Sotinel

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    Cartaz do documentário "No Land's Song", com Sara Najafi (foto)

    Cartaz do documentário "No Land's Song", com Sara Najafi (foto)

Ayat Najafi registra como Sara Najafi, sua irmã, produziu um concerto só de mulheres em Teerã

No coração de "No Land's Song" há uma espécie de buraco negro, para onde são tragados o cinema e a música. No entanto, esses momentos nos quais Sara Najafi, heroína desse documentário (pois heroínas não são feitas somente para a ficção), procura o oficial do Ministério da Cultura e da Orientação Islâmica encarregado de assuntos musicais e grava suas declarações sem filmá-lo, ancoram o filme de Ayat Najafi (irmão da heroína) na realidade de uma forma mais sólida do que imagens o fariam.

Essas sequências onde uma jovem compositora e cantora decidida a organizar um concerto só de mulheres em Teerã, no momento em que o poder presidencial passará de Mahmoud Ahmadinejad para Hassan Rohani, enfrenta o responsável encarregado de conceder a autorização necessária, conferem a esse filme, que aliás em muitos momentos é bastante alegre, uma seriedade e uma força que o colocam acima dos documentários comuns.

Sem essas falas roubadas de um interlocutor que detém as chaves da criação (sendo que ele mesmo nunca criou nada), "No Land's song" seria somente uma variante desses inúmeros filmes, ficções, comédias musicais, documentários que descrevem os tormentos de um grupo de entusiastas que precisam vencer as adversidades para fazer música.

Aqui o adversário não é nem a velha geração que não entende a música dos jovens, nem o poder do dinheiro que quer reduzir a arte a uma fonte de renda: são os organizadores da sociedade. Alegando representar uma mistura de jurisprudência e de teologia, eles estabelecem como objetivo organizar um mundo protegido do pecado, e nesse mundo—o mundo deles—as mulheres e a música são duas das mais fecundas fontes de pecado.

Encontros

Mas nem sempre foi assim. Para seu concerto, Sara Najafi queria reunir musicistas iranianas, francesas e tunisianas. Entre as primeiras, a cantora Parvin Namazi nasceu cedo o suficiente para estrear antes da revolução de 1979, numa época em que a televisão ainda mostrava imagens de cantoras, em uma época também em que as vozes femininas podiam se juntar.

Ela conta às mais novas sobre essa época que agora virou lenda. Hoje, as cantoras estão fadadas a acompanhar as vozes masculinas ou a se calarem. Um dos méritos de "No Land's Song" é delinear uma história de musicistas iranianas, citando as grandes figuras do passado e mostrando como suas gravações hoje são necessariamente piratas, uma vez que a censura monitora até mesmo os vendedores ambulantes, para que eles não divulguem essas vozes femininas.

Mas a maior parte do filme é dedicada à árdua organização desse concerto, em 2013. Falta um pouco de jeito nos diálogos entre as musicistas, as compositoras, as cantoras, as instrumentistas, que conversam sobre a programação e as dificuldades previstas... E quando Sara Najafi vai até Paris para convidar Elise Caron, Jeanne Cherhl e a tunisiana Emel Mathlouthi a se juntarem ao concerto, o filme se apresenta desajeitado na forma, mostrando de maneira exagerada os encontros entre as musicistas. Nada grave, porque Ayat Najafi capta com sensibilidade aquilo que vem em seguida.

Enquanto as musicistas estrangeiras se familiarizam com as melodias, as harmonias e os ritmas persas, Sara Najafi inventa uma nova versão da dupla jornada de trabalho para as mulheres. Ela conduz os ensaios em tempo integral ao mesmo tempo em que conduz as negociações com as autoridades islâmicas. É possível ouvir o oficial da Orientação Islâmica discorrer pisando em ovos, preocupado em não passar uma imagem reacionária demais do regime, mas obrigado a aplicar suas proibições.

Primeiramente na França, e depois em Teerã, as francesas e a tunisiana observam essa luta da qual elas se tornaram o prêmio, em parte (impossível não pensar que Sara Najafi, formidável estrategista, convidou musicistas mulheres também para forçar as autoridades a levarem em conta a opinião pública internacional).

Um dos momentos mais fortes do filme mostra Elise Caron, Jeanne Cherhal e Emel Mathlouthi enfrentando a censura islâmica (o concerto foi inicialmente proibido). Na indignação delas há um tanto da ingenuidade dos privilegiados que de repente são forçados a passar pelas mesmas condições dos miseráveis (em seguida elas recuperam a compostura).

"No Land's Song" se distingue inicialmente por sua carga política. São raras as oportunidades de se analisar em funcionamento os mecanismos e as contradições de um sistema repressivo que quer ao mesmo tempo controlar a criação e incentivá-la, e afasta metade de sua humanidade ao mesmo tempo em que tenta se mostrar como um modelo de tolerância para o mundo.

Mas é preciso também abrir os ouvidos e os olhos. Isso porque a música que Sara Najafi e suas companheiras iranianas querem mostrar merece ser ouvida, e a presença das musicistas estrangeiras é, para o espectador pouco familiarizado com as sonoridades persas, um meio precioso, que permite perceber, por trás da complexidade, uma beleza radiante.

Tradutor: UOL

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