Governo líbio enfrenta oposição das milícias

Frédéric Bobin

  • Mohammed el-Shaiky/AP

    Homens leais às Forças Armadas líbias se prepararam para lutar contra militantes do Estado Islâmico próximo a Benghazi

    Homens leais às Forças Armadas líbias se prepararam para lutar contra militantes do Estado Islâmico próximo a Benghazi

O primeiro-ministro Fayez Sarraj, residindo no exterior e mantido pela ONU, não é unanimidade em Trípoli

Abdul Rauf Kara é atarracado, usa uma longa barba e marca o ritmo de sua fala nos seus dedos rechonchudos. Para chegar até seu covil, à beira do aeroporto Mitiga, em Trípoli, é preciso passar por dois postos de controle e atravessar uma área onde tanques enferrujados terminam de agonizar sobre um barranco com grama, entre pré-fabricados e contêineres.

"Sou leal a Deus e à Líbia", ele diz. As lealdades de Abdul Rauf Kara certamente interessam a muita gente.

Isso porque esse homem dirige as Forças Rada, a maior milícia de Trípoli, com entre 600 e 1.000 homens. Ela é especializada no combate à organização Estado Islâmico (EI) e controla boa parte do aeroporto de Mitiga.

Mas qual será sua atitude em relação ao governo de "união nacional" de Fayez Sarraj, que hoje reside entre a Tunísia e o Marrocos, quando este se aventurar a se instalar fisicamente em Trípoli?

Nascido do acordo político assinado no dia 17 de dezembro de 2015 em Skhirat (Marrocos) com apadrinhamento da ONU, esse governo proclamou sua legitimidade e fez um apelo para que todas as instituições líbias se alinhem sob sua autoridade. Os ocidentais o consideram como o "único governo legítimo" na Líbia.

Mosaico

Até o momento é somente uma hipótese a chegada do governo Sarraj ao coração de Trípoli. No entanto ela não deixa de influenciar o clima de segurança que já é frágil na capital. Como reagirá o mosaico de milícias de Trípoli diante da irrupção desse novo governo que na prática desalojaria o Executivo que já existe, o "governo de salvação nacional" que se originou no Congresso Geral Nacional (CGN), um Parlamento rival da Assembleia de Tobruk (leste) reconhecida pela comunidade internacional?

Dentro desse bloco político-militar de Trípoli batizado de Fajr Libya (Aurora da Líbia), que controla a maior parte da Tripolitânia (oeste), as forças islâmicas exercem uma influência significativa, ainda que não exclusiva.

O próprio Abdul Rauf Kara é um salafista assumido. Ele diz "não acreditar pessoalmente na democracia".

Mahmud Turkia/AFP
Membro de brigada legal à Fajr Libya gesticula para câmera em Sabratha, na Líbia

No entanto, ele não pode ser classificado entre os chefes de milícia mais extremistas de Trípoli. Muito pelo contrário, ele se afirma "disposto a trabalhar junto com o governo Sarraj assim como com qualquer outro governo apoiado pela ONU e pelo povo líbio".

É uma afirmação vaga, mas ela assinala uma não-hostilidade em relação a Sarraj, o que em si é uma indicação das fissuras que racham o bloco do Fajr Libya, onde ainda se manifestam vozes nitidamente mais hostis.

Essas divisões acabam levantando o risco de confrontos entre milícias de Trípoli que até então eram unidas sob a mesma bandeira do Fajr Libya em seu combate no campo de Tobruk, dominado pelos anti-islamitas.

"Se o governo Sarraj se instalar em Trípoli, haverá graves problemas", alerta Said Khattali, deputado no Congresso Geral Nacional (CGN). "Espero que ele não ouse fazer isso".

Khattali está ligado à fação mais inflexível do CGN, que denuncia o acordo feito no dia 17 de dezembro em Skhirat como um "documento ilegal". Para ele, esse acordo faz parte de um plano mais geral: "Trata-se de uma contrarrevolução incipiente, com o intuito de reeditar na Líbia o cenário egípcio".

E o fato de que o chefe da missão da ONU para a Líbia, Martin Kobler, tenha como conselheiro encarregado das questões de segurança Paulo Serra, um general italiano, passa uma péssima impressão. Fazendo referência à colonização da Líbia pela Itália, Khattali afirma que esse é um "enorme erro", pois lembra que "a Itália tem uma história negra na Líbia".

"A ONU", ele pergunta, "por acaso considera a Líbia como um protetorado, uma colônia?"

Essa retórica encontra eco dentro da rede Fajr Libya, ainda que grande parte da opinião pública líbia, cansada do caos local, também queira dar uma chance ao novo governo promovido pela ONU.

Abdullah Doma/AFP
Fayez Sarraj, designado premiê da Líbia, apresenta seu programa para unificar o país, em Tobruk

Pânico geral

Sarraj teve uma amostra do risco corrido no local quando tentou uma visita no dia 8 de janeiro a Zliten, cidade situada 160 km a leste de Trípoli. Pouco depois de aterrissar no aeroporto vizinho de Misrata, um miliciano atacou seu comboio, atirando para o alto durante dez minutos para mostrar sua hostilidade contra sua vinda. O incidente provocou pânico geral.

Duas semanas depois encontramos no saguão de um hotel de Misrata o agitador Abdelatif al-Karaik, um gigante de olhar decidido, que assumiu bravamente seu gesto. Afiliado da Mahjoub, uma das mais poderosas milícias de Misrata, da qual foi expulso desde então, ele demonstra sua oposição a Sarraj enquanto ele não tiver recebido sua parte das garantias para a "independência" da Líbia em relação às potências estrangeiras e o "respeito à revolução" de 2011.

Em Misrata mesmo, metrópole portuária e mercante, a esmagadora maioria das milícias se dizem dispostas a receber favoravelmente o futuro governo de Sarraj. Quer se trate de Mahjoub, de Hatin, da Brigada 166 ou de Halbouz, cujo líder Beshir Abdulatif diz querer a "dissolução" nas futuras estruturas da polícia e do Exército, as katibas (unidades combatentes) de Misrata formarão a base da segurança do futuro governo de "união nacional". Tal conquista é significativa, levando em conta a intensa presença das milícias de Misrata no próprio coração da capital.

Mas o caso pode se complicar a partir do momento em que recalcitrantes como Abdulatif al-Karaik dispuserem de intermediários junto a milícias radicais de Trípoli. Estas últimas têm como líderes figuras como Haytham Tajouri ou Salah Badi, muito hostis ao governo de Sarraj e à mediação da ONU.

"Avalio em 50% a proporção de katibas favoráveis ao governo Sarraj", acredita Abdulatif al-Karaik, "e em 50% as que lhes seriam hostis, se nenhuma resposta for dada a nossas demandas sobre "a independência" e "as conquistas da revolução". E alerta: "Existe um risco de confrontos entre milícias".

Tradutor: UOL

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