Durão, advogado não hesita em aceitar defesa de suspeito de ataques em Paris

Jean Pierre Stroobants e Élise Vincent

Em Bruxelas

  • Antony Gevaert/Belga/AFP

    O belga Sven Mary, advogado de Salah Abdeslam, suspeito de participar dos atentados em Paris

    O belga Sven Mary, advogado de Salah Abdeslam, suspeito de participar dos atentados em Paris

A verdade é que ele foi o único que aceitou pegar de frente o trabalho. Com seu rosto de militar em um corpo de adolescente, fingindo um ar nervoso, Sven Mary, 44, o advogado de Salah Abdeslam, não teve realmente de brigar para conseguir a defesa do 10º homem do comando jihadista que semeou o terror em Paris na noite de 13 de novembro de 2015. Todos ficaram felizes em deixar a missão para ele.

A História logo se esquecerá, mas foi um simples advogado de plantão que acompanhou Salah Abdeslam durante sua primeira audiência diante dos investigadores belgas, no sábado (19) pela manhã, após sua prisão.

O advogado apontado pela corte que esteve ao seu lado nesse início de fim de semana se sentiu um pouco desarmado diante da tarefa que o esperava, e disparou telefonemas a torto e a direito com a esperança de lhe designarem algum colega mais durão. Em vão. "Quem melhor do que Sven Mary?", responderam simplesmente.

Ninguém sabia que o criminalista havia sido contatado desde a véspera pela família Abdeslam e que ele estava retido por uma obrigação profissional longe de Bruxelas, chegando algumas horas mais tarde.

Faltam advogados para defender terroristas. Tanto na Bélgica quanto na França, os jihadistas raramente podem pagar os honorários, e defendê-los geralmente espanta o resto da clientela. Somente a exposição na mídia compensa, graças à fama que esta lhes traz. Quem se envolve com eles, então, é menos por dinheiro do que por um gosto pelo épico ou por um desafio.

Buldogue

Provavelmente foi o caso de Mary. Todas as ordens de advogados têm seus buldogues, e ele é um desses. Mal entrou no caso, ao meio-dia, no sábado, já se mostrou audacioso, como adepto de julgamentos nos quais o réu vira acusador. Após a audiência perdida com os policiais, ele deu assistência a Salah Abdeslam nas audiências seguintes, diante do juiz de instrução.

Eram pouco mais de 16h quando elas terminaram, e ele declarou que a Bélgica precisava "parar de se ajoelhar" diante da França. Depois, já no domingo, ele informou que tinha a intenção de processar o procurador de Paris, François Molins.

Com a cabeça raspada e sua parka com capuz que compõem seu personagem, Mary acusou diante das câmeras o magistrado francês de ter violado o sigilo do caso. O erro de Molins, segundo ele, seria ter revelado em uma coletiva de imprensa, em Paris, aquilo que Salah Abdeslam havia declarado em Bruxelas, naquela mesma manhã, durante sua audiência diante dos policiais.

Ou seja, que ele deveria "ter se explodido" no Stade de France, mas desistiu. É verdade que é algo inimaginável no sistema judiciário belga, onde o porta-voz da procuradoria federal em geral se contenta em ler um comunicado, sem dar qualquer detalhe.

É inteligente a estratégia de Mary. De um lado, ela se aproveita da opinião pública belga, sempre disposta a apoiar alfinetadas contra o suposto sentimento de superioridade dos franceses em relação à Bélgica. Do outro, ela deixa pairar a ameaça da especialidade do criminalista: os recursos processuais.

A procuradoria de Paris refutou, invocando seu direito de se exprimir, conforme o código penal francês. Mas Mary sustenta que as declarações de seu cliente foram feitas fora do contexto coberto por esse mesmo código. Ou seja, diante dos policiais, mas não no momento da audiência ligada a seu mandado de prisão na Europa. Durante esta, ele teria justamente "mantido silêncio", como afirma ao "Le Monde", em entrevista concedida dias antes do atentado terrorista que deixou mais de 30 mortos na capital belga, nesta quarta-feira (22).

"Como um peixe na água"

Enfim, uma disputa técnica do jeito que ele gosta. "Estou como um peixe n'água", ele se deleita. Nada garante que sua ofensiva judiciária dará certo diante da gravidade das acusações que pesam sobre seu cliente. Mas Mary é temido na Bélgica justamente por seus sucessos na caçada por zonas cinzentas.

Foi no direito da construção civil que ele começou sua carreira, uma área ingrata mas onde se aprende muito. Além disso ele também tem um gosto pelo comprometimento, cultivado sobretudo junto de Anne Krywin, uma das advogadas, hoje falecida, do "bando de Baader", uma organização de extrema esquerda que aterrorizou a Alemanha entre 1968 e 1998.

Desde então, o nome de Mary se tornou praticamente uma referência. Durante debates no parlamento, em 2009, sobre uma lei a respeito dos métodos de investigação dos departamentos de inteligência que ele havia atacado, sem sucesso, parlamentares estabeleceram como objetivo, no futuro, tornar os processos "impermeáveis para Mary".

"Ele não hesita em se expor e se arriscar em casos muito impopulares", conta seu colega Christophe Marchand, outro destaque da advocacia. Juntos, os dois advogados passaram anos defendendo com afinco algumas das figuras mais importantes do terrorismo belga, e foi assim que Mary acabou embarcando na consultoria de Ali Tabich, líder de uma importante rede de recrutamento de voluntários para atentados da Al-Qaeda na Bélgica. Ou ainda de Fouad Belkacem, líder do grupo Shari4Belgium, o movimento que pedia abertamente pela instauração da sharia, inclusive através da violência.

A particularidade de Mary é que, assim como Marchand, ele se especializou em ataques processuais diversos baseando-se nos direitos humanos. Eles interpretam que os supostos terroristas muitas vezes fazem mais do que outros diante de violações de direito, então convém defendê-los com coragem.

Uma de suas principais proezas se deu durante o julgamento da célula belga do Grupo Islâmico Combatente Marroquino. Os réus eram suspeitos de terem participado dos atentados de Madri em 2004. Os dois criminalistas tentaram impugnar todas as notas dos serviços de inteligência, questionando-as. O resultado do julgamento não mudou por causa disso, mas a legislação belga em seguida passou a controlar a prática.

Mary é perfeitamente bilíngue, e fala igualmente bem o holandês e o francês, algo muito raro na Bélgica. Filho do ex-presidente da rádio e televisão pública flamenga, pai de dois filhos e divorciado, ele também é apaixonado por futebol, um esporte que ele quase seguiu profissionalmente, ao jogar na equipe júnior do clube de Anderlecht, em Bruxelas, o maior clube da Bélgica. Foi depois de se contundir que ele se voltou para os estudos de direito.

Uma "mina de ouro"

Mary diz que não hesitou muito antes de aceitar defender Salah Abdeslam, ainda que ele não apoie de forma alguma seus atos. É uma "mina de ouro", ele alega. Segundo ele, o próprio jihadista começou a "colaborar" com a Justiça, supostamente divulgando nomes e detalhes sobre a organização dos atentados. "Quero sim levá-lo para o caminho do arrependimento, mas devo evitar de qualquer maneira aquilo que o procurador de Paris fez, o que poderia voltar a fechá-lo como uma ostra."

"Se eu estivesse na pior, certamente escolheria Mary para me defender", concorda um jovem criminalista, Steve Lambert, advogado de um importante recrutador de jihadistas belga, julgado recentemente: Khalid Zerkani.

Certos chefões da máfia não têm dúvidas. Até seu assassinato no final de agosto de 2015, Mary assessorava o mafioso do narcotráfico de origem italiana Silvio Aquino, um cliente pelo qual ele aplicou seus métodos habituais, auxiliado por seus quatro colaboradores que junto com ele dissecaram as brechas na legislação.

Essa abordagem lhe valeu ataques e suspeitas de todo tipo sobre sua probidade, mas até hoje ele sempre se livrou deles. Durante o fim de semana, ele enviou a um de seus colegas um SMS com uma citação do ex-premiê inglês Winston Churchill, junto com uma carinha sorridente: "Você tem inimigos? Ótimo! Isso quer dizer que você lutou por algo em algum momento em sua vida."

Tradutor: UOL

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