Uma Irlanda dividida comemora 100 anos de revolta

Philippe Bernard

  • Leon Neal/AFP

    Membros do Fianna Fail leem jornais com noticiário sobre as eleições em Dublin (Irlanda)

    Membros do Fianna Fail leem jornais com noticiário sobre as eleições em Dublin (Irlanda)

O resultado das legislativas obriga os dois partidos nascidos da luta contra os britânicos a se unirem para governar

Com suas barracas coloridas de verduras e seus restaurantes asiáticos, à primeira vista a Moore Street está longe de lembrar o sangrento acontecimento que precipitou a descolonização da Irlanda e sua emancipação da Coroa britânica.

Mas a rua do centro de Dublin fica logo atrás do prédio da central dos correios, epicentro do levante da Páscoa de 1916, o evento precursor da fundação da República da Irlanda, cujo centenário foi comemorado no último fim de semana com grande aparato. Foi lá que, atrás de uma barricada, os revolucionários se entrincheiraram após seis dias sob fogo contínuo dos britânicos.

Foi no número 16 dessa rua que eles estabeleceram seu quartel-general e acabaram se rendendo, esmagados por uma repressão que fez 485 mortos, mas que impulsionou o movimento para a independência.

"O ano de 1916 tem tanto significado para nós irlandeses quanto 1789 tem para os franceses", diz Diarmuid Breatnach, um dos militantes que estão bloqueando o acesso ao canteiro de obras que deve resultar na destruição de vários prédios que testemunharam essa história dramática.

Para construir um shopping center, uma incorporadora irá "demolir um lugar emblemático de nossa história anticolonial", pragueja o senhor de 50 e poucos anos que monta guarda. O governo aceitou preservar somente duas casas, protegidas por uma lona verde, que devem ser transformadas em museu.

Dois partidos irmãos inimigos

Os manifestantes que se revezaram ao longo do dia criticam o primeiro-ministro Enda Kenny por sua falta de energia para defender a memória da insurreição da Páscoa de 1916.

Eles sugerem que isso não surpreende, uma vez que ele não se sente à vontade com essa história pois dirige o Fine Gael, o partido herdeiro dos militantes que em seguida aceitaram a divisão da ilha e a continuidade da lealdade à Coroa britânica do "Estado Livre da Irlanda" criado em 1922.

O outro grande partido irlandês atual, o Fianna Fail, surgiu do campo adversário na sangrenta guerra civil que se seguiu em 1922-1923. Esses nacionalistas acabaram conseguindo a vitória e fundaram essa República da Irlanda que os insurgentes de 1916 haviam proclamado de maneira efêmera.

Por ironia da História, neste momento em que a República da Irlanda está celebrando o centenário da "Páscoa sangrenta", os dois partidos que surgiram dessa terrível cisão acabam de ser condenados pelos eleitores a se unirem para governar o país.

Durante as legislativas de 26 de fevereiro, o Fine Gael, no poder desde 2011, obteve somente 50 cadeiras, ante as 44 do Fianna Fail, sendo que são necessárias 80 para se ter uma maioria no Dail, a assembleia nacional irlandesa.

Portanto, há um mês o país vem vivendo sem governo, sendo Kenny somente um interino.

Clodagh Kilcoyne/Reuters
Mulheres passam por mural que marca o aniversário de 100 anos do levante da Páscoa em Dublin, na Irlanda


O peso da História não é a principal razão desse bloqueio. O choque da crise financeira de 2008 abalou a sociedade irlandesa e a austeridade drástica imposta pelo Fine Gael é hoje contestada, sobretudo desde que o país passou a viver uma retomada econômica espetacular. Mas a herança das lutas passada ainda pesa na vida política, pelo menos simbolicamente.

"O antagonismo entre os dois partidos tem estruturado nosso sistema desde a fundação da República", constata Michael Gallagher, professor de ciências políticas na Trinity College.

"As pessoas votam no Fianna Fail ou no Fine Gael de pai para filho". "Nas famílias pró-Fianna Fail, as pessoas continuam vendo o Fine Gael como o partido dos traidores na guerra civil. Seria difícil ver uns votando nos outros", confirma seu colega Frank Barry, professor de comércio internacional.

No entanto, as orientações políticas de centro-direita dos dois partidos irmãos inimigos são muito parecidas, ainda que o Fianna Fail acredite ser mais popular.

"Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, é evidente que nada de substancial separa os dois partidos", escreveu Fintan O'Tool, editor-chefe do "Irish Times". "Mas um narcisismo patológico impede o Fianna Fail de apoiar o Fine Gael".

Por enquanto, os dois campos negam qualquer aproximação. Enda Kenny abriu negociações com parlamentares independentes para tentar formar uma coalizão minoritária durante uma votação no Parlamento de 6 de abril. Mas esta precisaria do apoio do Fianna Fail, pelo menos em certos pontos-chave de seu programa.

E embora todos especulem quanto à perspectiva de uma "grande coalizão" entre os dois partidos, por enquanto não passa de uma fantasia.

O Fianna Fail acabaria porque os membros não suportariam isso, de acordo com diversos observadores. Provavelmente em razão da divisão história, mas também porque esse partido, que por muito tempo dominou a vida política, chegou em segundo lugar nas eleições e correria o risco de ser engolido por seu rival em posição de relativa vantagem.

"Mártir católico"

A lembrança das antigas querelas durante as comemorações da Páscoa de 1916 não deve facilitar sua tarefa, passada a emoção dos discursos e das coroas de flores.

A insurreição da central dos correios foi um acontecimento complexo, pouco capaz de suscitar uma união nacional. Organizado em plena guerra mundial por alguns poucos militantes, o levante só se tornou popular quando quinze de seus autores foram executados pelos britânicos, tornando-se mártires da causa nacionalista.

"Foi um acontecimento minúsculo que teve um enorme impacto pois foi continuamente reinterpretado", analisa Fintan O'Toole. A "loucura trágica" se tornou, segundo ele, um "martírio católico."

A insurreição, como evento fundador da República da Irlanda, também é considerada pelo ex-Exército Republicano Irlandês (IRA) e pelos partidários da violência como algo que valida sua estratégia.

Arlene Foster, a primeira-ministra (unionista) da Irlanda do Norte, ainda recusou o convite para participar das comemorações, chamando a revolta de 1916 de "ataque contra a democracia" e acusando a cerimônia de enviar um sinal positivo ao "republicanismo violento".

Já o Sinn Féin, que foi o braço político do IRA, se proclama o herdeiro autêntico da revolta de 1916 e organizará, no dia 24 de abril, um verdadeiro aniversário do levante, uma marcha contra a austeridade em Dublin para exigir a implantação dos "verdadeiros ideais" da República.

"Em nome de Deus e das gerações passadas", os insurgentes da central de correios de Dublin haviam proclamado "a igualdade de direitos e de oportunidades para todos os cidadãos" e "o direito do povo irlandês à propriedade da Irlanda."

 

Tradutor: UOL

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