Biblioteca Nacional da França fica sem presidente

Em Paris

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Na semana passada, teve festa de despedida na Biblioteca Nacional da França. Bruno Racine, 64, que durante nove anos presidiu esse colosso dos livros, decidiu se despedir de um lugar que inspira respeito. Não das torres da nova biblioteca, mas sim da sala Labrouste (1868), no prédio antigo da rua de Richelieu, obra-prima da arquitetura em ferro, com suas 16 colunas e nove cúpulas em cerâmica, que reabrirá no final do ano após seis anos de restauração. Imbatível como símbolo de conhecimento, assim como da genialidade nacional. Bruno Racine teve muitos convidados, mas faltou alguém importante: seu substituto. Isso porque ele ou ela ainda não foi nomeado.

É uma situação engraçada. Desde 2 de abril, a BnF não tem mais um chefe. Embora a data de saída de Racine fosse conhecida há muito tempo, a presidência, o primeiro-ministro e o Ministério da Cultura não conseguiram entrar em um acordo sobre um nome em tempo. Todos esperavam por uma nomeação após a chegada de Audrey Azoulay ao Ministério da Cultura, em 11 de fevereiro. As semanas se passaram, e os conselhos ministeriais também. Diziam que na pior das hipóteses seria para o dia 30 de março, dois dias antes da saída de Racine. Mas não. Talvez no conselho do dia 6 de abril, ou do dia 13. Um aliado de François Hollande, para justificar essa demora, lembra que o Palácio do Eliseu acaba de passar por uma semana difícil, com o abandono do projeto de reforma constitucional. Ele acrescenta que a BnF pode muito bem viver sem direção por alguns dias. "Afinal, não é como se fosse o chefe das Forças Armadas."

É verdade que não é a mesma coisa. Afinal, é uma casa de cinco séculos, que conta nossa história e carrega uma narrativa universal. É a maior biblioteca do mundo, juntamente com a British Library, de Londres, e a Biblioteca do Congresso, em Washington. É o maior estabelecimento cultural da França, de longe, movidos por 2.400 pessoas e custeados por 200 milhões de euros. Bem maior que o Louvre ou a Ópera de Paris. É também uma casa com dois prédios enormes, onde é preciso manter uma direção diante de cerca de 200 curadores, que competem em erudição, e sindicatos, que mantêm as reivindicações vivas. Enfim, uma casa que precisa redefinir sua identidade num momento em que o digital vem aumentando a distância entre o público e o impresso.

Dois candidatos e rumores

Então a BnF pode ficar sem diretor por alguns dias. É desastroso, do ponto de vista simbólico, e um sinal lamentável que se passa aos funcionários. "Sim, é grave," diz um historiador membro do conselho científico da BnF. "Os políticos provavelmente têm coisa melhor para fazer." Essa é fato é a lógica de um governo socialista que, desde que assumiu o poder, não fez da cultura uma prioridade e emendou três ministros em menos de quatro anos. Além disso, Hollande está fazendo hollandismo, hesitando, sem tomar decisões, esperando até o último momento, até fora do prazo.

Só que existem candidatos. Pelo menos dois. Primeiramente Laurence Engel, que tem uma sólida trajetória no setor de cultura e é considerada a favorita, tanto que sua nomeação era esperada há dois dias. Ela se formou na Escola Normal de Paris e na ENA (escola nacional de administração), foi assessora cultural de Bertrand Delanoë na prefeitura de Paris e depois diretora de assuntos culturais da capital, e por fim diretora de gabinete da ministra Aurélie Filippetti. Ela voltou ao Tribunal de Contas, onde trabalhava originalmente, atuando ao mesmo tempo como "mediadora do livro". Ela apresentou a Audrey Azoulay seu projeto para a BnF, e conta com o apoio de Manuel Valls, que não gostou da saída de Fleur Pellerin a pedido de François Hollande.

O outro candidato é Olivier Poivre d'Arvor, que ocupou diversos cargos no exterior onde defendeu a produção cultural francesa, antes de dirigir a France Culture. É aliado de François Hollande, ainda que essa noção seja arriscada, e também candidato derrotado a vários cargos no setor de cultura. Ele também encontrou a ministra para defender seu projeto para a BnF, em torno de três eixos: aproximação com a academia, defesa da língua francesa e estímulo à leitura. Ele se define como um "desafiador", convicto de que o tempo age a seu favor.

O tempo também deu origem a rumores e um golpe tão torto quanto deselegante para manchar a reputação de Engel, relatado pelo "Le Point" do dia 15 de janeiro: esta poderia ser nomeada por François Hollande para que seu companheiro, Aquilino Morelle, tirado de seu cargo de conselheiro da presidência em 2014, desistisse de publicar um livro incendiário sobre seu antigo chefe. Que seja, diz a editora Grasset, que confirma que esse livro será lançado em setembro, mas cujo tema é a dificuldade de se reformar a França, e não um acerto de contas com o presidente.

O principal risco para os candidatos declarados seria outro. Audrey Azoulay queria ter um pouco mais de tempo para ver se um "acadêmico" não poderia fazer o trabalho para conferir um pouco de cultura a essa casa. São citados alguns grandes veteranos que assombram a biblioteca, como Jean Favier, André Miquel, Emmanuel Le Roy Ladurie. Essa ideia atende a críticas de pesquisadores e de grandes nomes da intelectualidade que se espantaram por não terem sido consultados sobre o processo de recrutamento. "Nós teríamos coisas a dizer", afirma um historiador. Uma pessoa que consiga somar conhecimento acadêmico a um senso de gestão certamente é uma peça rara. Mas o ministério tem tomado o cuidado de falar que os dois candidatos declarados são "legítimos" e possuem chances iguais. Enfim, ninguém vê a hora de que essa escolha seja feita.

Tradutor: UOL

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