Grupos renovam hotelaria europeia com tecnologia gratuita, tarifa acessível e design atraente

Jérôme Porier

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    Quarto de uma das uunidades do hotel Meininger em Berlim, na Alemanha

    Quarto de uma das uunidades do hotel Meininger em Berlim, na Alemanha

Você sonha em reservar uma cama ou um quarto inteiro por algumas dezenas de euros? Fazer uma refeição entre amigos a qualquer hora do dia ou da noite? Tomar um drink em um terraço com cenário atraente? Meininger, a especialista em albergues da juventude descolados, tem aquilo de que você precisa: uma cama simples a partir de 40 euros ou um quarto por 70 euros (R$ 164 a R$ 287).

Com Wi-Fi gratuito, check-in eletrônico, lounge, sala de jogos e café-da-manhã à vontade por 6,90 euros (R$ 28), além de um design arrojado, a fórmula, que tem como alvo a geração millenium, que faz reservas a partir de seus smartphones, tem feito sucesso.

A taxa de ocupação dos hotéis Meininger, com nove unidades na Alemanha e sete outras na Europa, atinge 90%, enquanto a média do setor não ultrapassa 72%.

Meininger, CitizenM, Okko, Motel One etc Ainda desconhecidos do grande público, os novos conceitos têm se multiplicado pelo mundo da hotelaria, abalando os costumes de um setor que em alguns casos se encontra engessado desde os anos 1950.

Criada por três alemães em Berlim em 1999, a Meininger foi absorvida em 2013 pela indiana Cox&Kings, que quer acelerar seu desenvolvimento internacional. O grupo abrirá seu primeiro estabelecimento em Paris em 2018.

"Além de Paris, estamos preparando dez novas unidades: Amsterdã, Roma, Budapeste, Munique e Veneza", anuncia Navneet Bali, seu presidente.

Hostels descolados

A unidade parisiense, que contará com 200 quartos, ficará situada na Porte de Vincennes, no 20º distrito. Ela concorrerá com o Generator, outro hostel moderno, que tem estado sempre lotado desde que abriu em 2015 na Place du Colonel-Fabien, no 10º distrito.

O grupo britânico Generator Hostels, que conta com oito unidades na Europa, oferece camas a partir de 24 euros (R$ 94).

Para se estabelecer na França, a Meininger fechou uma parceria com a Foncière des Régions, que será proprietária dos prédios. Essa empresa tem acompanhado os novos atores da hotelaria em sua expansão europeia.

"Nós entramos com o capital e construímos o prédio, o que permite que nosso parceiro se concentre na operação, que vá a fundo em seu conceito", explica Philippe Le Trung, diretor de desenvolvimento comercial.

Enquanto os pesos-pesados do setor procuram limitar os riscos associados à operação enquanto desenvolvem suas franquias, seus concorrentes querem continuar sendo operadores.

A Foncière des Régions se associou a uma outra alemã, a Motel One, para abrir um primeiro estabelecimento com essa marca em Paris, em 2017, perto de Porte Dorée.

Generator/Instagram
Café e conservatório do hostel Generator, de Paris

Criada em Munique em 2000 e voltada para a clientela de empresários, a Motel One também usa a estratégia do design para fazer com que as grandes cadeias hoteleiras pareçam ultrapassadas.

"Nós investimos muito na arquitetura e na decoração. Queremos que o cliente fique impressionado assim que ele entra em nosso saguão", explica Philippe Weyland, cofundador do grupo.

Com 53 hotéis e outros 17 em construção, uma taxa de ocupação de 75% em 2015, a Motel One vai de vento em popa. É verdade que sua relação custo-benefício é difícil de bater no centro da cidade.

"Por 150 euros [R$ 615] a noite, nós oferecemos materiais nobres, equipamentos de marca, um banheiro em estilo italiano etc. O cliente não paga muito caro, mas sente-se como se estivesse em um 4 estrelas!", afirma Weyland.

Originária da Holanda, a CitizenM se lançou em 2008 com um conceito bastante parecido, mas apostando na proximidade dos grandes aeroportos. Depois de Schiphol, em Amsterdã, o grupo abriu sete hotéis, sendo um em Roissy-Charles-de-Gaulle em 2014. Seu slogan é: "Luxo acessível para todos". Ou para quem pode desembolsar 100 euros a noite, pelo menos. 

Para simplificar o processo de entrada, a empresa se inspirou no setor aéreo. É o fim do fastidioso ritual do check-in e da gorjeta para o funcionário que sobe com as bagagens.

Mas seu verdadeiro golpe de mestre foi a utilização dos espaços coletivos no térreo do hotel, transformado em lounges zen e coloridos, abertos 24 horas, como em um aeroporto internacional, livros à vontade e esculturas irreverentes, e a possibilidade de pedir um sushi ou um sanduíche a qualquer hora, uma ideia adotada pela maior parte da concorrência.

Tudo é na base da confiança, uma vez que não há nenhum funcionário lá para verificar seu consumo. Além disso, os quartos são menores (18m2), pois o cliente passa pouco tempo dentro deles, mas com camas king size. Tudo é funcional: um tablet comanda as persianas, a cor, a intensidade da iluminação...

O modelo claramente inspirou Olivier Devys, um ex-executivo da Accord, que lançou juntamente com Paul Dubrule, seu ex-chefe, a marca Okko, em 2012, que conta com quatro hotéis 4 estrelas na França.

"Nosso foco são os clientes individuais, e recusamos famílias e grupos", explica Devys. "Quisemos recriar o clima de um clube londrino, onde as pessoas não necessariamente se conhecem, mas partilham dos mesmos valores."

Na Okko, a organização do hotel foi pensada para que o cliente, que carrega ele mesmo suas bagagens, chegue até seu quarto o mais rápido possível. As formalidades de check-in são reduzidas à sua forma mais simples.

Há poucos funcionários, mas são todos sorridentes. Não há mais a armadilha do frigobar, uma vez que o sistema é "all-inclusive", incluindo o Wi-Fi e os filmes. Na cozinha, inspirada em albergues da juventude, há café e iogurte à vontade. E o cliente também pode comprar a qualquer momento uma garrafa de vinho com seu cartão de crédito.

O objetivo do grupo é abrir quatro estabelecimentos por ano ao longo dos próximos dez anos.

Já o lançamento em 2008 do Mama Shelter, no 20º distrito de Paris, longe dos bairros turísticos, mostrou até que ponto a inovação pode valer a pena.

Seu conceito é o de um "kibutz urbano, um refúgio onde todos são bem-vindos", responde o fundador Serge Trigano, que foi presidente do ClubMed entre 1985 e 1997. "O 'Mama' é um lugar ideal para vir jantar ou tomar um drink com os amigos, com quartos acessíveis no andar de cima."

Divulgação
Bar da unidade do grupo MotelOne em Amsterdã (Holanda)

Os espaços têm design sóbrio (concreto, grafites) com a marca de Philippe Starck, mas com detalhes atípicos para um 2 estrelas, como a roupa de cama de luxo e a presença de um iMac. Os preços vão de 69 euros até 135 euros (R$ 282 a R$ 553), contra os 180 euros (R$ 737) pagos em média em Paris. Aqueles que reservam com antecedência pagam menos.

A parte de bar e restaurante, muitas vezes negligenciada na hotelaria de padrão médio, representa nesse caso mais da metade do faturamento.

Sete anos depois, o sucesso continua. Depois de Paris, o Mama Shelter se instalou em Marselha, Lyon e Bordeaux, e apresenta uma taxa de ocupação de 85% na França, um sucesso que incentivou o grupo AccorHotels a comprar uma participação de 35% no negócio em 2014.

Essa parceria permitiu que o Mama Shelter se expandisse rapidamente para outros países. Depois de Istambul e de Los Angeles, um Mama Shelter será inaugurado no Rio de Janeiro daqui a três meses.

"Nossa meta é de 15 estabelecimentos até 2020", afirma Trigano.

Um estímulo

O ponto em comum entre todos esses conceitos é que eles não se reconhecem no sistema de classificação em estrelas, que continua sendo a referência dos grandes grupos. Sem concièrges e com poucos funcionários, muitas vezes limitados a um chuveiro no banheiro, eles não podem aspirar às melhores notas. Mas eles não estão preocupados.

"Ter boas avaliações em sites como TripAdvisor ou Booking permitiu que ficássemos conhecidos e lotados desde que abrimos", afirma Devys.

A internet mudou tudo no setor de hotelaria, que  até então era muito tranquilo. "Agora podemos ver os quartos, o bar, os pratos, fazer comparações em poucos segundos. Todos se tornaram decoradores e críticos gastronômicos", diz Trigano.

Apesar de seu sucesso, a Motel One e seus seguidores continuam atuando em nichos no mercado da hotelaria, bem atrás dos líderes. A AccorHotels, que administra 14 marcas, abre dois novos estabelecimentos a cada três dias. O grupo hoje conta com 3.900 unidades em 92 países. Teria o elefante sentido as picadas dos mosquitos?

"Esses novos atores nos estimulam", admite Vivek Badrinath, vice-diretor da AccorHotels. "Ainda que seja fácil ter altas taxas de ocupação instalando-se unicamente nos centros das grandes capitais, o sucesso deles mostra que os clientes querem opções menos padronizadas."

E é por isso que o grupo francês tem desenvolvido fórmulas onde cada estabelecimento tem sua característica particular, como Mercure, M Gallery e, sobretudo, o Ibis Style, uma rede que confia a decoração de cada um de seus hotéis a um designer.

Tradutor: Lana Lim

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