Em Kano, negócios para esquecer o Boko Haram

Joan Tilouine

  • Sunday Alambda/AP

    Tuk-tuks e carros fazem filas para abastecer em Kano, na Nigéria

    Tuk-tuks e carros fazem filas para abastecer em Kano, na Nigéria

A  segunda maior cidade da Nigéria tenta manter seu título de "hub comercial" do Sahel, apesar do contexto de insegurança

Kano, a segunda maior cidade mais povoada da Nigéria, esconde pontos cegos. Afastadas das ruas arenosas e das avenidas retilíneas da fervilhante metrópole comercial do norte do país, existem áridas zonas industriais com fileiras de fábricas abandonadas.

Quase 400 unidades fecharam desde os anos 1990, minadas pela falta de eletricidade, pela alta dos preços da gasolina e dos materiais, abandonadas pelo Estado e entregues à concorrência asiática. Resta uma centena delas, como a de Ali Safiyanu Madugu, de 49 anos.

Nesta manhã de fevereiro, de volta de Abuja, a capital federal, onde conversou com Yemi Osinbajo, o vice-presidente encarregado da economia, o industrial corre para sua pequena fábrica de itens alimentícios, a Dala Foods. Ele faz parte dos resistentes convictos de que o norte da Nigéria, muçulmano e mais pobre que o sul de maioria cristã, pode se recuperar graças à indústria.

Ele quer acreditar que Kano pode continuar sendo influente em todo o Sahel e o hub comercial tão vital para os países vizinhos, alguns deles expostos aos riscos de seca e de crise alimentar.

Longe da radiante Lagos, capital econômica sustentada pelo petróleo, cujas receitas garantem 75% do orçamento do Estado, Kano precisa superar inúmeros desafios: a desvalorização do naira, a moeda nacional, diante do dólar, e uma inflação de 10% em ritmo anual em um momento em que o crescimento vem desacelerando, minado pelo colapso do preço do petróleo.

A esses desafios próprios da maior economia da África se somam um desemprego mais elevado ao norte e um índice de pobreza de quase 50%, contra 16% no sudoeste do país, segundo o Banco Mundial.

Por fim, há a terrível ameaça do Boko Haram, que atacou Kano diversas vezes desde 2012.

"Somos um alvo do Boko Haram, que no entanto não conseguiu nos desestabilizar. É verdade que a economia foi reduzida pela metade, mas nossos comerciantes são mais fortes que os terroristas", acredita Sanusi Lamido Sanusi, ex-presidente do Banco Central que, em junho de 2014 se tornou o emir de Kano, capital de um Estado de quase 12 milhões de habitantes.

Isso porque os negócios estão voltando a melhorar.

"Graças à eleição do presidente Muhammadu Buhari, Kano ressuscitou", comemora Ali Safiyanu Madugu. Eleito em março de 2015, o presidente nigeriano começou a relançar a economia, deu início à luta contra a corrupção e reforçou o combate ao Boko Haram.

Ainda que ele lamente ter tido que demitir metade de seus 150 funcionários em razão de uma queda de 70% em suas vendas nos últimos quatro anos, Ali Safiyanu Madugu está otimista.

"O Boko Haram é coisa do passado! Kano é o hub econômico do Sahel. Os ocidentais não têm essa noção porque 80% da atividade é informal. Mas foi isso que permitiu resistir às crises econômicas mundiais", se vangloria o industrial, em seu escritório decorado com o retrato do emir e do presidente.

Recuperar a indústria dentro de cinco anos

Segundo o think tank britânico Chatham House, a atividade informal representa quase 64% do PIB, em toda a Nigéria.

Umar Farouk Rabi'u, presidente da Câmara de Comércio de Kano, vai além: "A economia informal é nosso ponto forte, não fraco", explica esse rico comerciante, que espera recuperar a indústria dentro de cinco anos.

De volta dos Emirados Árabes Unidos, Rabi'u está determinado a transformar essa megalópole que não possui petróleo, mas sim um potencial agrícola e industrial certeiro, em uma Dubai do Sahel.

"Eko (apelido de Lagos) for show, Kano for real. Aqui, não vivemos das aparências, mas sim fazemos grandes negócios, desde o Sudão até o Marrocos", ele alega.

Um exemplo dessa vontade foi o anúncio do governador de Kanoa, em fevereiro, sobre o lançamento de um projeto de US$ 70 milhões (R$ 253 milhões) para construir uma usina solar com capacidade de produção de 100 MW. E isso em parceria com o homem mais rico da África, Aliko Dangote, originário da cidade, onde este ano abriu uma fábrica de processamento de tomates.

Por ora, na falta de fábricas e infraestrutura modernas, os nababos de Kano têm comercializado amendoim, flores de hibisco, cereais e tecidos que eles exportam para toda a região.

Contrabando e globalização selvagem convivem lado a lado no mercado têxtil de "Kantin Kwari", em pleno centro da cidade. Nesse labirinto de barracas de madeira, transbordam tecidos de cores vivas, as transações são pagas tanto em nairas quanto em dólares ou francos CFA. Os compradores vêm do Mali, de Burkina Fasso, do Níger, do Chade e de Camarões.

Aziz Saleh é um comerciante iemenita originário de Aden, que reside em Kano desde os anos 1980. Ele foi testemunha, e até mesmo ator, da desindustrialização.

"Só restou uma fábrica de tecidos em Kano e seus preços são bem mais elevados que os da China", ele fala mostrando seu estoque de tecidos importados. Sócio do senhor Li, que faz viagens frequentes entre Kano e Shenzhen, Aziz Saleh escoa suas "mercadorias por todo o Sahel e além".

Balé incessante

Esses tecidos africanos made in China entram no continente através do porto de Cotonou, em Benin, onde 50% dos contêineres recebidos no terminal administrado pelo grupo Bolloré na verdade são destinados à Nigéria.

Ex-diplomata nigeriano e empresário de Kano, Bachir Barrado lamenta a banalização desse "tráfico". Ele cita o Banco Mundial, que estima em US$2 bilhões por ano o valor de tecidos importados ilegalmente do Benin.

"Os chineses dominaram e monopolizaram a economia de Kano com a cumplicidade de bandidos locais", diz Barrado, indignado.

Desse tráfico, há um nome que é citado por todos: Alhaji Dahiru Mangal, o proclamado "rei do contrabando".

Presidente de uma companhia aérea, a Max Air, Mangal fez fortuna com seus milhares de caminhões carregados de tecidos chineses, que há uma década percorrem as rotas entre Cotonou e Kano através de Maradi, no Níger, sem serem parados nem controlados nas fronteiras.

Um dos pontos de passagem de seus caminhões se encontra 215 km mais ao norte, em Jibiya, no Estado vizinho de Katsina. Nesse dia, um agente alfandegário vestido com um robe de chambre observava esse cortejo, de cara feia.

Talvez ele estivesse irritado com o incessante balé de carros, caminhões e motos que atravessam ilegalmente essa fronteira através de pistas que serpenteiam nas areias, a algumas centenas de metros dele.

"Kano não é mais do que um imenso lugar de trânsito em um mundo globalizado onde tudo é ilegal, informal, e onde 80% dos produtos vêm da China", suspira Garba Ibrahim Sheka, professor de economia na Universidade de Bayero, em Kano.

Segundo ele, a cidade deveria, além de desenvolver a indústria, continuar apoiando a agricultura. "Mas esse setor é uma atividade de pobres, e os políticos não querem realmente ajudá-los", lamenta o professor. Ao longo da estrada que liga Kano ao Níger, há campos secos e sem plantações.

A essas dificuldades que outras economias africanas viveram ou estão vivendo durante seu desenvolvimento, se soma o perigo do Boko Haram. Quando Ibrahim Diarra, 33, deixou Jibiya e a fronteira ao volante de seu caminhão azul, ele o fez com um frio na barriga. Esse jovem caminhoneiro marfinense partiu de Abidjã na direção de Kano a 50km/h carregado de toras que entregou na capital saheliana, antes de tomar a estrada para Kano carregado de amendoins do Níger.

"Aqui, tudo se compra e tudo se vende, mas as rotas ainda são perigosas e todos se preocupam com o Boko Haram", ele diz, enfim aliviado quando se aproxima do mercado de cereais de "Dawanau", uma dezena de quilômetros ao norte de Kano.

Com seus 9.200 atacadistas, e quase o dobro de trabalhadores que preparam e carregam os sacos de gergelim, feijão, milheto, flores de hibisco, esse mercado é um dos maiores da África Ocidental... Um hub regional, ainda informal, que se manteve hermético à influência ocidental e no qual os chineses não conseguiram penetrar.

"Dawanau é a teta da África Ocidental. Se sua atividade parar, então os mercados de toda a faixa saheliana vão se esvaziar, e então haverá uma crise alimentar", acredita Mohammed Agouna, comerciante chadiano residente em Kano há dois anos e de onde ele exporta gergelim, sorgo e outros cereais para o Chade e Camarões.

Nas movimentadas vielas do mercado, 80% dos produtos provêm dos campos de 13 províncias do norte da Nigéria, ilustrando o vigor de Kano apesar das ameaças terroristas. O pulmão da economia saheliana não teve o mesmo destino de Maiduguri, a capital do Estado de Borno, devastada pelo Boko Haram, um trauma vivido de perto por Abubakar Shaibu.

Esse agricultor de Maiduguri antigamente vinha escoar sua produção em Dawanau, e hoje ele percorre as vielas do mercado em busca de um emprego. Ele teve de abandonar suas terras ao fugir do Boko Haram, que ainda detém como refém uma de suas três filhas.

"Em Kano, as pessoas desconfiam dos refugiados e nos comparam com o Boko Haram", ele diz abatido e com a barriga vazia. "Antes eu ganhava bem a vida e era respeitado em Dawanau. Agora as pessoas me evitam porque sou inútil". As esperanças desse modesto agricultor, agora sem terras e sem casa, estão no renascimento de uma Kano industrial e agrícola.

Tradutor: UOL

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