Ao norte de Aleppo, uma outra ofensiva contra o EI avança

Benjamin Barthe

  • Hussein Malla/AP

    Soldado do Exército Livre da Síria se levanta sobre tanque diante de mesquita destruída na cidade de Azaz, ao norte de Aleppo

    Soldado do Exército Livre da Síria se levanta sobre tanque diante de mesquita destruída na cidade de Azaz, ao norte de Aleppo

Rebeldes sírios, apoiados por Ancara e por Washington, avançam ao longo da fronteira turca

Os rebeldes sírios se recusam a deixar para o regime de Bashar al-Assad a exclusividade do combate à organização Estado Islâmico (EI). Enquanto as forças pró-governamentais fazem os jihadistas recuarem para a "badiya", a estepe desértica do centro da Síria, onde estes últimos foram perdendo progressivamente Palmira e Al-Karyatain, uma outra ofensiva anti-EI vem se desenvolvendo ao norte de Aleppo, por iniciativa das forças da oposição, e com o apoio dos Estados Unidos e da Turquia.

Diversas brigadas com a marca do Exército Livre da Síria (ELS), o braço moderado da insurreição, conquistaram em três semanas 18 vilarejos, onde há quase dois anos tremulava a bandeira negra do califado. Seu avanço foi facilitado por tiros da artilharia turca e ataques da aviação americana.

O território retomado dos partidários de Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do EI, é um quadrilátero de 80km2 que se estende ao longo da fronteira turca, entre a cidade de Azaz e o vilarejo agrícola de Al-Rai. 

A queda deste último foi um golpe particularmente duro para os jihadistas, porque ela os privou de um dos últimos pontos de passagem para a Turquia.

Os canhões dos rebeldes agora estão apontados para duas outras posses do EI: de um lado, Dabiq, um vilarejo simbólico, considerado na escatologia islâmica como o local da vitória final dos exércitos muçulmanos sobre as forças de Satã, e que é o nome da revista on-line dos ultrarradicais; e, de outro lado, a cidade de Al-Bab, um importante centro administrativo, situado à beira da província de Raqqa, o quartel-general da organização jihadista na Síria.

Três grupos armados

A ofensiva é conduzida por três grupos armados: a divisão Sultan-Murad, composta por turcomenos, que tem o apoio de Ancara; a Legião do Sham, afiliada ao movimento da Irmandade Muçulmana; e a recém-criada brigada Moutassem, que, a julgar pelo material e pelas armas exibidas por seus combatentes na internet, parece ser a nova protegida dos Estados Unidos no campo de batalha sírio.

Em outubro de 2015, o Pentágono havia anunciado a suspensão de seu calamitoso programa destinado a equipar e treinar rebeldes sírios para lutar contra o EI.

A operação havia começado do pior jeito: em julho, somente algumas horas após seu retorno a solo sírio, o primeiro grupo de combatentes treinados pelos Estados Unidos caiu em uma emboscada da Frente Al-Nusra, o braço local da Al-Qaeda. Dois meses mais tarde, um segundo destacamento teve de entregar todo seu equipamento a esses mesmos jihadistas para evitar que fossem feitos prisioneiros.

Depois desse fiasco, os Estados Unidos aumentaram sua ajuda aos combatentes das YPG (Unidades de Proteção Popular), a milícia curda autonomista síria, que se tornou o principal intermediário em solo de sua campanha de bombardeios.

Essa parceria permitiu que as Forças Democráticas Sírias (FDS), uma coalizão curdo-árabe dominada pelas YPG, avançassem ao longo do Eufrates, em uma movimentação destinada a cercar Raqqa.

Mas Washington, bem ciente de que essa reaproximação não agradava seu aliado turco, que considera esses paramilitares curdos uma força terrorista, decidiu tentar mais uma vez se apoiar em combatentes rebeldes.

Sírios treinados na Turquia

Na sexta-feira (1º), o coronel Steve Warren, porta-voz da coalizão anti-EI, declarou que dezenas de sírios estavam sendo treinados na Turquia. A divisão Sultan-Murad e a brigada Moutassem deveriam, segundo a lógica, figurar entre os beneficiários desse novo esforço.

Sendo assim, a ofensiva em solo contra os jihadistas pôde ser retomada, com a bênção da Turquia. As pressões de Ancara haviam obrigado as FDS a suspenderem seu avanço, em dezembro, depois que atingiram a barragem de Tishrin, no Eufrates.

Os Estados Unidos não querem deixar a Rússia, que teve um papel crucial na retomada de Palmira, se apropriar de todo o prestígio da luta contra o Estado Islâmico. Curdos, rebeldes e forças governamentais poderão disputar nos próximos meses a honra de serem os primeiros a terem lançado a batalha de Raqqa.

No sul da Síria, em torno da cidade de Deraa, na fronteira jordaniana, outras unidades rebeldes, afiliadas ao ELS, iniciaram o ataque contra duas formações aparentadas do EI: a Brigada dos Mártires de Yarmouk e o movimento islâmico Muthanna. Inicialmente rotulados como "moderados", esses grupos aos poucos foram se aproximando dos jihadistas.

Acuados diante desses ataques simultâneos, os jihadistas reagiram, na última quinta-feira (7), capturando 300 funcionários de uma fábrica de cimento, na periferia do noroeste de Damasco, uma manobra de desvio de atenção que mal esconde a lenta, mas constante, desagregação do EI na Síria.

Os funcionários foram mais tarde libertados.



 

Tradutor: UOL

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