Juventude sul-coreana procura seu lugar na política

Philippe Mesmer

  • Ed Jones/AFP

    Contagem de votos nas eleições legislativas sul-coreanas

    Contagem de votos nas eleições legislativas sul-coreanas

Campanha das legislativas não respondeu à angústia dos mais jovens

Direitos, inclusive o de viver sua vida. Era isso que exigiam cerca de 30 jovens em uma manifestação fim de semana em Gwanghwamun, a dois passos da prefeitura de Seul. "Queremos a redução da idade do direito de voto de 19 para 18 anos", explicou ao "Le Monde" Gonghyun (pseudônimo), líder da associação de defesa dos direitos dos jovens Asunaro e bastante ativo nas redes sociais. "Queremos também o direito de participar das atividades políticas". Foi uma manifestação modesta, a quatro dias das legislativas de 13 de abril. Mas o descontentamento da juventude sul-coreana se manifesta mais pela internet.

Embora estudantes secundaristas tenham participado do movimento pela democracia nos anos 1960, qualquer atividade política ou adesão a partidos é proibida a eles. Participar de movimentos de greve pode impedir uma pessoa de encontrar emprego. "Está escrito nos regulamentos das escolas", explica Gonghyun, que abandou seus estudos na prestigiosa Universidade de Seul por oposição ao sistema educacional e que passou mais de um ano na prisão por ter se recusado a cumprir serviço militar.

"Se você não presta atenção, tudo parece tranquilo", acredita esse jovem de cabelos longos e óculos redondos. "Mas muitos estudantes hoje não estão satisfeitos com suas vidas, estão se posicionando e abandonando os estudos."

De fato, o ativista há uma dezena de anos constata uma vontade crescente entre os jovens de expressarem opiniões políticas, em parte porque os sucessivos governos parecem restringir cada vez mais as liberdades. O presidente conservador Lee Myung-bak (2008-2013) e a atual dirigente, Park Geun-hye, também conservadora, têm reforçado cada vez mais legislações consideradas danosas à liberdade. Como a lei contra o terrorismo, votada em março e que dá novos poderes ao serviço nacional de inteligência (NIS), muitas vezes criticado por sua proximidade com a esfera conservadora e por sua ingerência na vida política do país.

Punições físicas

A administração Park quer ainda modificar os conteúdos dos manuais escolares, por considerá-los "excessivamente à esquerda", ou até ostensivamente "pró-norte-coreanos". O campo conservador critica sobretudo a forma como é apresentada a Guerra da Coreia (1950-1953) ou a chamada ideologia norte-coreana isolacionista do "Juche". "Não podemos ensinar às nossas crianças uma história distorcida", insiste o primeiro-ministro Hwang Kyo-ahn.

Esses debates irritam os jovens, que acreditam que ainda há problemas mais profundos, a começar pelas discriminações contra os alunos repetentes, os homossexuais, ou ainda os mais pobres. O descontentamento é contra um sistema que obriga o aluno a passar 15 horas por dia em aula. "Nós estudamos feito loucos", lamenta um aluno do colégio para rapazes Hongil de Mokpo (sudoeste), que denuncia a persistência das punições físicas apesar da proibição oficial, e a ausência de direitos, como o de usar cabelo comprido. "Não temos nenhuma boa lembrança de nossos anos de adolescência."

O cansaço é acentuado pela dificuldade de se encontrar um emprego. A Coreia do Sul tem enfrentado um índice de desemprego crescente entre os jovens, de 12,5% em fevereiro. Essa situação reforça a crítica ao sistema escolar, que antigamente permitia que todo universitário formado entrasse facilmente no mercado de trabalho, o que justificava o investimento feito pelas famílias, que chegam a dedicar 10% de suas rendas à educação.

Essa angústia incentiva os jovens a militarem e alimenta uma espécie de repúdio à sociedade. Segundo uma pesquisa de dezembro de 2015, do jornal "Hankyoreh", 22,8% dos jovens na faixa dos vinte anos queriam sair do país. Eles se dizem cansados de uma sociedade hipercompetitiva. Muitos não hesitam em falar que estariam vivendo uma "Hell Choson" ("Inferno de Choson", referência à última dinastia que reinou na península, entre 1392 e 1910).

As aspirações dos jovens a uma vida melhor não parecem preocupar muito os candidatos às legislativas, que abrem poucas perspectivas de melhora. A campanha se focou nas questões econômicas, mas ela foi marcada sobretudo pelas divisões dentro dos grandes partidos.

Do lado da maioria, o Partido Saenuri de Park Geun-hye se dividiu quanto à escolha dos candidatos. Park quis impor seus seguidores, alienando parte de seu próprio campo. Embora esperasse a maioria absoluta das 300 cadeiras da Assembleia Nacional, o Saenuri não conta com mais do que 135 parlamentares, ante 152 na Assembleia atual, o suficiente para perturbar as ambições da presidente, a um ano e meio do final de seu mandato. O barulho feito em torno do anúncio, no dia 11 de abril, da deserção de um oficial da inteligência norte-coreana e, no dia 8 de abril, de treze funcionários de um restaurante norte-coreano da China, pode ter sido uma tentativa de restaurar a imagem do Saenuri.

A situação não é muito mais favorável para a oposição. Colocado no comando de uma estrutura encarregada de preparar a eleição para o Partido Minjoo por seu presidente Moon Jae-in, Kim Jong-in, um economista que se distanciou dos conservadores depois de ter trabalhado com o presidente autoritário Chun Doo-hwan (no cargo entre 1981 e 1988), e depois de ter contribuído para a vitória de Park Geun-hye em 2012, provocou polêmica dentro do partido. "Ela só pensa no poder", é a crítica feita a ele internamente.

Essa rejeição acaba beneficiando os partidos secundários. O Partido do Povo, criado em janeiro por Ahn Cheol-soo, um empresário que fez fortuna com as novas tecnologias e que rompeu com o Partido Minjoo, poderá surpreender. As últimas pesquisas lhe davam 16% das intenções de voto, um avanço de seis pontos em um mês.
 

Tradutor: UOL

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