Superpopulação e tensões persistem na "selva" de Calais

Maryline Baumard

  • Pascal Rossignol/Reuters

    Refugiado caminha entre abrigos próximos a mensagem que diz "Nós temos um sonho", em Calais, na França

    Refugiado caminha entre abrigos próximos a mensagem que diz "Nós temos um sonho", em Calais, na França

Apesar do desmantelamento da parte sul do acampamento, o objetivo de reduzir o número de refugiados não foi atingido

Em todo o horizonte, só se vê azul e branco. De todas as elevações da "selva" de Calais, o panorama é o mesmo quando se olha para o norte: uma extensão contínua de lonas azuis, salpicada pelo branco dos trailers e das grandes tendas coletivas. A "selva" agora parece ser uma coisa só, de tão juntas que estão as barracas, quase sobrepostas umas às outras. Em compensação, na direção sul, as dunas voltaram a se impor em torno de uma pequena escola, de uma igreja eritreia e da mesquita; somente os "locais de convivência" subsistem, um mês após o desmantelamento do acampamento.

Entre os dias 29 de fevereiro e 16 de março, 7,5 dos 18 hectares desse acampamento onde param os migrantes a caminho da Inglaterra, foram desmantelados. Segundo o balanço oficial, 328 pessoas foram realojadas nas grandes tendas da Defesa Civil e 254 aceitaram ir para um centro de acolhimento e orientação (CAO), em outras partes da França; muitas vezes após uma passagem pelos contêineres do centro de acolhimento provisório (CAO), aonde 315 migrantes da zona sul também chegaram de mala e cuia.

Segundo Christian Salomé, do Albergue dos Migrantes, a conta é diferente. "Um quarto dos que foram retirados se encaminhou para Paris ou outros pequenos acampamentos vizinhos" como o de Norrent-Fontes, que de repente ganhou 50 novos ocupantes, e "metade simplesmente se deslocou uma centena de metros, se reinstalando na zona norte".

Ainda que a prefeita de Pas-de-Calais, Fabienne Buccio, negue esses dados, ela reconhece que o norte pode ter "aumentado em um terço". Portanto, o objetivo de "desinchar" o local e de "oferecer a todos uma moradia digna", como tantas vezes repetiu o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, não foi realmente atingido.

Na prática, a situação está pior do que antes, ainda que a "selva" pareça mais "contida". Os sudaneses foram as primeiras vítimas. O fim de seu bairro os obrigou a procurar asilo no norte. Se antes eles moravam em três ou quatro em abrigos de madeira, agora eles tiveram de encontrar um lugar entre afegãos ou se amontoar sob uma tenda.

"Antes tínhamos nosso pequeno vilarejo. Agora temos esse dormitório", diz Lahbib, 28, mostrando as fileiras de camas de campanha.

Ahmid, um jovem sírio de 23 anos, tem mais revolta dentro de si. Esse despejo confirmou seu desejo de sair o mais rápido possível "desse país que não nos quer e onde não nos sentimos em segurança".

Depois de ter sua tenda destruída, ele encontrou um lugar em uma cabana de madeira junto com três outros ex-universitários de Damasco, como ele.

"De qualquer modo, o que quero é ir para a Inglaterra, o resto não importa muito", observa esse jovem que na véspera de nosso encontro havia passado a noite ao relento. É meio-dia. Ele está cansado e vai matar tempo até a noite "antes de tentar a sorte mais uma vez".

Embora Fabienne Buccio conte oficialmente 1.639 imigrantes na "selva", o Albergue dos Migrantes, que mobilizou 14 pessoas entre o dia 29 de março e 5 de abril para um recenseamento, conta 3.376 fora da infraestrutura administrada pelo Estado. Se a isso somarmos os contêineres, o abrigo de mulheres e as tendas da Defesa Civil, 5 mil migrantes ainda estariam em Calais, apesar de todas as retiradas feitas pelo Ministério do Interior no final de outubro.

Cazeneuve contesta esse número, mas o "Le Monde" pôde constatar no local uma grande concentração humana, composta de públicos muito diferentes, pessoas de passagem, como Ahmid, e sedentários para quem a "selva" é mais uma favela do que um acampamento.

Shahid, o paquistanês, está tão feliz em Calais quanto o sírio Imad está infeliz. Sentado no meio de seu barraco improvisado, esse ex-policial de 36 anos, a quem a Itália reconheceu o status de refugiado, chegou da Catania, na Sicília, depois de procurar emprego por quatro anos em vão. Ele toca uma loja nos Champs-Elysées da qual não poderia estar mais orgulhoso.

"Nunca se antecipam"

A renda de seu pequeno bazar na avenida principal lhe permite pagar os 600 euros (R$ 2.380) do aluguel mensal (não se sabe a quem) e enviar 300 euros (R$ 1190)  à sua família em Peshawar, onde sua mulher, seus cinco filhos e seus pais contam com ele. Então Shahid e seu amigo se revezam 24 horas por dia.

"Aqui o principal produto é o cigarro", ele conta, e para aumentar o lucro ele mesmo enrola o tabaco importado da Bélgica, sem saber por quanto tempo ficará lá.

O sonho do Ministério do Interior de ver o fim dessa "selva", para manter em Calais somente o parque de contêineres, um abrigo para mulheres e um conjunto de tendas da Defesa Civil, ou seja, um total de 2 mil vagas organizadas e controladas, parece se distanciar.

"O desmantelamento da zona norte não está previsto para os próximos dois meses", repetem em uníssono as organizações humanitárias. "Como aqui o poder público sempre só reage e nunca consegue antecipar nada, estão esperando para ver quantas outras pessoas vão chegar com a volta do bom tempo e o fechamento da rota dos Bálcãs. Além disso, acho que também estão esperando para ver se o Reino Unido sairá da União Europeia ou não", observa o funcionário de uma ONG.

Enquanto isso, Fabienne Buccio pediu aos atores locais que lhe apresentem propostas de adaptações da zona norte para tornar o lugar mais habitável. Algumas organizações estão meio irritadas com a ideia de que amanhã talvez os retirem.

Ainda que seja cada vez menor a probabilidade, as associações estão hesitantes, depois de terem visto a destruição de abrigos que eles passaram o verão tentando isolar e proteger das intempéries na zona sul.

O desmantelamento de metade do acampamento em março enviou para Paris vários migrantes -- e seus coiotes. Segundo uma fonte policial, as partidas para as ilhas britânicas agora estão sendo feitas a partir de Ile-de-France, algo a que o Ministério do Interior não estava acostumado; e alguns outros acampamentos vão se instalando em série na costa nórdica que desce até Cherbourg.

A cidade, cujo ex-prefeito não é ninguém menos do que Bernard Cazeneuve, chegou a se tornar um local de passagem para o Reino Unido, com um registro de 400 tentativas nos dois primeiros meses do ano. Agora as pessoas precisam escolher entre Calais ou a costa.

Tradutor: UOL

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