Para não deslegitimar premiê da Líbia, Ocidente vê intervenção no país com cautela

Nathalie Guibert e Marc Semo

  • MAHMUD TURKIA/AFP

Para dar uma chance ao governo de "união nacional" de Faiez Sarraj, Paris, Roma, Washington e Londres preferem adiar seu plano de guerra contra o Estado Islâmico

Deveria ou não haver uma intervenção na Líbia? Depois de diversas declarações sobre a necessidade de se agir antes que o desastre líbio atinja a Europa, os ocidentais recentemente tiveram um surto de cautela. Contrariando todas as expectativas, o primeiro-ministro "de união nacional", Faiez Sarraj, que tomou posse no dia 30 de março em Trípoli, parece estar conseguindo iniciar um processo político na Líbia. A ideia é lhe dar uma chance, por menor que seja, adiando qualquer intervenção que possa desestabilizá-lo.

O ministro italiano das Relações Exteriores, primeiro político ocidental de alto escalão a ir até Tripoli, no dia 12 de abril, encontrou Sarraj na base naval onde está instalado, e ressaltou que a luta contra o perigo jihadista "é primeiramente missão dos líbios e do governo de união". "Se e quando as autoridades líbias pedirem uma ajuda internacional para a segurança, a questão será estudada e debatida no Conselho de Segurança", explica Paolo Gentiloni. "Não é algo que podemos decidir em Roma, Londres ou Washington."

É uma posição alinhada com a de outras grandes capitais ocidentais. "Não se devem repetir os erros do passado. Ataques aéreos e tropas em solo não são algo que se imagine para o momento", declarou Jean-Marc Ayrault, ministro francês das Relações Exteriores, no dia 8 de abril. "É preciso que os ocidentais tenham o cuidado de não obstrui-lo", já dizia a respeito de Sarraj, em meados de março.

A Itália, que do ponto de vista geográfico está na linha de frente diante do perigo representado pela organização Estado Islâmico (EI) em Sirte, onde ela contaria com 5.000 combatentes a poucas centenas de quilômetros da Sicília, e diretamente exposta a uma volta dos fluxos migratórios, continua muito ativa. "Quanto à questão líbia, nossa liderança moral, histórica, econômica e diplomática é reconhecida", afirma a diplomacia italiana, lembrando que "o processo para a posse de Sarraj e do governo de união nacional foi lançado pela conferência de Roma."

Desde 2015 vinha sendo contínua o entusiasmo a respeito de uma futura intervenção. Um ano atrás, a ministra da Defesa italiana, Roberta Pinotti, havia anunciado que Roma estaria disposta a enviar tropas, e até assumir o comando de uma intervenção, e foi repreendida pelo primeiro-ministro Matteo Renzi. Em fevereiro, planos do estado-maior italiano vazaram para a imprensa, mencionando um envio de 3 mil a 7 mil homens. Em uma entrevista concedida no início de março ao "Corriere Della Sera", o embaixador americano na Itália, John Phillips, mencionou explicitamente 5.000 homens. Matteo Renzi tentou acalmar os ânimos: "Não é o momento para essas demonstrações de força, é preciso ter bom senso e equilíbrio."

As autoridades italianas estão ainda mais prudentes pelo fato de que a grande maioria da opinião pública continua contrária a qualquer intervenção. Em 2011 os italianos já haviam se mostrado bastante hostis à intervenção aérea da Otan, temendo que ela criasse "uma grande Somália à beira do Mediterrâneo", segundo a expressão de Lucio Caracciolo, diretor da revista de geopolítica "Limes".

Operações discretas

Em Paris, François Hollande se decidiu no final de 2015 a favor de operações discretas, ou até secretas, depois de deixar a seu ministro da Defesa o cuidado de alertar incansavelmente os europeus sobre a necessidade de se intervir. A França tem conduzido na Líbia, juntamente com os Estados Unidos, operações contra os líderes do EI e movimentos ligados à Al-Qaeda. A partir de Misrata, Trípoli, Benghazi e Labraq, para onde enviaram forças especiais, os dois aliados vêm trabalhando em conjunto. Paris também enviou conselheiros militares a Benghazi para apoiar as operações anti-jihadistas do general Khalifa Haftar, considerado como o único ponto de apoio no leste líbio. Os ocidentais não descartam mais a possibilidade de que essa figura, rejeitada pelo campo de Trípoli, possa se juntar ao processo político.

A Líbia não está "no centro dos interesses" dos Estados Unidos, lembrou Barack Obama, e continua trazendo más lembranças. O presidente americano afirmou no dia 11 de abril à rede Fox News que as consequências da intervenção de 2011 foram "o principal erro" de sua política externa. Ele acusa seus aliados franceses e britânicos de não terem sido suficientemente atentos após a queda do regime de Muammar Gaddafi. Washington respondeu à morte de seu embaixador em Benghazi em 2012, e o Pentágono desde então vem conduzindo incursões regulares contra os líderes da Al-Qaeda e do EI, ao mesmo tempo em que aumentaram seu apoio à Tunísia na área da Defesa. "Nosso esforço continua a abordar as ameaças imediatas contra os interesses americanos, as futuras operações realmente dependerão daquilo que o governo líbio vai pedir à comunidade internacional", explicou o general David Rodriguez, chefe do comando americano para a África, no início de abril.

Em Londres, David Cameron precisa contar com a vigilância da comissão das relações exteriores da Câmara dos Comuns, que exige explicações sobre o plano de envio de 1.000 soldados dentro da futura missão de assistência internacional. "Se tivéssemos planos de enviar forças convencionais em uma missão de apoio na Líbia, certamente teríamos vindo à Câmara para discutir isso", respondeu o primeiro-ministro no dia 17 de março. Mas em 12 de abril, o presidente da comissão, Crispin Blunt, voltou a atacar acusando o ministro das relações exteriores, Phil Hammond, de falta de transparência. A imprensa londrina nos últimos dias deu espaço para as vozes que militam contra uma nova intervenção militar. Segundo uma fonte governamental citada pelo "Times" na quarta-feira (13), "a ideia segundo a qual o primeiro-ministro Sarraj tem condições de dar sinal verde ao que quer que seja é precipitada."

Intervir enquanto Sarraj está em uma fase de legitimação política "teria como efeito imediato desestabilizá-lo, pois os líbios de todas as vertentes continuam ferrenhamente contrários a uma intervenção militar ocidental", diz Patrick Haimzadeh, ex-diplomata francês lotado em Trípoli.

Em compensação, se Sarraj fracassar, os planos militares estarão prontos, e uma coalizão especial, sem mandato explícito mas coberto por legítima defesa, poderá então entrar em ação. Em torno dos Estados Unidos, do Reino Unido, da França e da Itália, ela teria a dupla missão de combater o EI e dar assistência às forças líbias. Uma força de 5 mil a 7 mil homens poderá ser mobilizada, e a Itália e a França disputam sua liderança.

"Não quer um papel de coadjuvante"

"Os italianos poderiam liderar uma intervenção de dimensão média como parte da Otan ou dentro de outra estrutura específica, mas a verdadeira questão é saber se nossos aliados aceitarão isso", explica Stefano Silvestri, ex-presidente do Istituto Affari Internazionali (IAI) de Roma. Ainda que seja possível duvidar da "real vontade da Itália de assumir o comando de uma operação como essa, Roma não quer ter um papel de coadjuvante". Na prática, os italianos já estão efetuando um trabalho de inteligência e, de acordo com diversas fontes oficiais, cerca de cinquenta homens das forças especiais estariam na área.

O Estado-maior de Paris defende uma liberdade de manobra em qualquer coalizão, mas sabe que tem os recursos contados. Seria impossível acrescentar uma operação externa sem abrir mão de outras e sem dispensar os tradicionais recursos americanos, como aviões de transporte estratégico e de abastecimento e drones, por exemplo.

Três opções são possíveis: operações pesadas que combinem campanha de ataques aéreos, treinamento do Exército líbio e supervisão de segurança do regime; uma única campanha aérea para desferir um golpe decisivo contra o EI; ou, mais provável, uma continuidade das ações em andamento, que seriam assumidas de maneira mais aberta e combinadas com uma missão de assistência às forças de segurança líbias. "Os líbios só precisam de nós para treinamento, equipamentos e um eventual apoio aéreo", acredita Haimzadeh.

Tradutor: UOL

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