Hollande, um presidente em estado de emergência

David Revault D'allonnes

  • Charles Platiau/Reuters

    O presidente da França, François Hollande, acena para fotógrafos no palácio do Eliseu, em Paris

    O presidente da França, François Hollande, acena para fotógrafos no palácio do Eliseu, em Paris

Atletas chamam esse instante de "money time": um período breve, mas decisivo, em todo final de partida, que oferece uma última chance de mudar o desfecho das coisas.

O discurso de François Hollande, na última quinta-feira (14), transmitido pela rede France 2, de certa forma abriu o "money time" de seu mandato, como o pontapé inicial de uma contraofensiva da primavera que também soa como sua última chance. O chefe do Estado mais uma vez repetiu: "Seguirei até o fim."

Mas dessa vez a promessa não soou mais como uma tentativa desesperada de entrever novamente a saída de um túnel que, a um ano do primeiro turno da eleição presidencial, parece fora de alcance.

"Estamos convencidos de que os dois ou três próximos meses serão importantes para recolocar em perspectiva nossa ação", explica o palácio do Eliseu. "É agora, em um momento em que os resultados estão chegando, que é preciso mostrar isso. A partir do outono, com as prévias da direita, será muito mais difícil."

Três meses para sobreviver? Até pouco tempo atrás, o presidente calculava em off que Nicolas Sarkozy, que estava bem para trás, tinha até o verão para tentar alcançar Alain Juppé e que depois seria tarde demais. O diagnóstico hoje parece valer para ele mesmo. Especialmente depois da publicação da pesquisa Ipsos-Sopra Steria para o "Le Monde", no dia 30 de março.

Tempo desperdiçado

Quando Hollande viu o "Le Monde" chegar a seu gabinete, naquela quarta-feira, ele excepcionalmente ficou visivelmente abalado: o estudo o dava como eliminado já no primeiro turno, independentemente do adversário. No Eliseu, esses números implacáveis causaram comoção. E levantaram, com acuidade, a questão da gestão do tempo.

"Na verdade, não estamos a treze meses da eleição presidencial, mas a seis. Quando o avião decola às 20h30, é preciso estar às 19h30 no aeroporto. E o tempo vale muito dinheiro", acredita Julien Dray, antigo aliado do presidente.

Seria preciso reconquistar o mais rápido possível o mínimo essencial para resistir às interrogações crescentes dos socialistas e à pressão deles para uma prévia. O presidente, que desperdiçou tempo demais, especialmente nos primeiros meses do mandato, teria então algumas semanas para permanecer na corrida. Em busca do tempo desperdiçado. Na quinta-feira à noite, o chefe do Estado se esquivou de todas as perguntas sobre esse ponto.

"Em julho, se ele disser 'não, não sou candidato', então será não. Mas se ele não disser nada, será sim", prognostica um conselheiro do Eliseu. Até lá, a operação "Restaurar Hollande", lançada no discurso transmitido pela France 2, visa restabelecer urgentemente a base mínima indispensável para a preparação de uma candidatura. É agora ou nunca, basicamente.

Recuperar-se nas pesquisas, reconstruir uma mensagem, reintroduzir a divisão: a essa altura, as três tarefas do presidente parecem uma missão política impossível. Em primeiro lugar, as pesquisas.

No dia 2 de abril, durante um seminário no palácio do Eliseu, François Hollande ouviu o resumo sobre o estado da opinião pública com Brice Teinturier, o diretor do Ipsos, e Martial Foucault, diretor do Cevipof. Com uma pergunta: "Onde estão as pessoas que votaram em Hollande em 2012?"

Em seguida, ele almoçou com os ministros Ségolène Royal e Emmanuel Macron, Julien Dray, vice-líder do Partido Socialista, Guillaume Bachelay, seus amigos da comunicação Robert Zarader e Philippe Grangeon, seus conselheiros Vincent Feltesse e Gaspard Gantzer.

Na agenda estava a preparação do programa "Diálogos cidadãos" e "a forma como utilizar os três próximos meses para recolocar em perspectiva aquilo que fizemos", segundo o palácio do Eliseu.

Em seguida, a divisão. Os aliados do presidente esperam que o problema da divisão, depois de ter acabado com a maioria, ganhe em breve uma oposição engajada nas prévias.

"Nos últimos dois anos ocupamos sozinhos o ringue da batalha política, com a esquerda contra a esquerda", lamenta o secretário de Estado encarregado das relações com o Parlamento, Jean-Marie Le Guen. "É possível pensar que um dia, talvez, problemas surjam no coração da direita."

Mas é também em relação às propostas dos candidatos às prévias da direita, que rivalizam no campo liberal, que os hollandistas esperar restabelecer um combate entre campos.

"No próximo semestre, a situação será diferente", acredita o palácio do Eliseu. "A direita, com seu ultraliberalismo unilateral e sem concessão, evidenciará o lado positivo de nossa ação. As pessoas que se esqueceram das diferenças entre direita e esquerda vão se lembrar delas."

François Hollande pareceu tentar, no discurso da France 2, recuperar antecipadamente seu método da conciliação visando "modernizar o país e proteger o modelo social."

"Precisamos vender o sucesso"

Por fim, resta a questão provavelmente mais difícil, a da mensagem.

O diagnóstico de seu conselheiro Bernard Poignant foi: "A questão mais importante é, o que Hollande deve dizer aos franceses para que eles tenham vontade de reelegê-lo? Os dois presidentes reeleitos não o foram através de um programa. Mitterrand foi reeleito para bloquear o liberalismo de Chirac, e Chirac para bloquear a permissividade de Jospin quanto à segurança."

Mas antes de "bloquear", o presidente deve primeiro colocar as coisas em ordem. Explicar os mal-entendidos. Justificar as diferenças entre a conquista do poder e seu exercício.

"De qualquer jeito, para 2017 é preciso acertar as contas de 2012. Em fevereiro, você atacou o mercado financeiro, e um ano depois a prioridade se tornou a competitividade. Houve um choque em nosso bloco eleitoral. É preciso dar satisfações", diz Poignant.

"Qual foi o fio condutor? O que foi que eu fiz?", perguntou Hollande no discurso da France 2. Ele pareceu desfiar o catálogo das medidas adotadas desde 2012, mas nem por isso esse "fio" apareceu em toda sua clareza.

"Quero insistir também naquilo que está melhor", ele também afirmou. Então não houve um mea culpa, nem mesmo o início de uma lista de pontos negativos e positivos. Mas sim um exercício de justificativas e de explicações, um presidente em posição de acusado defendendo-se. Uma defesa, aliás, que ele mesmo pretende vender nas próximas semanas sobre o tema da "França que ganha".

"Temos três meses para arrumar as coisas e explicar que não falhamos, não traímos e não terminamos. Precisamos vender o sucesso", resume um colaborador próximo.

"Devemos apresentar nossas realizações com base nos valores que são os nossos, devolver sentido àquilo que está sendo feito, para fazer planos pensando no próximo ano", acredita a ministra do Meio Ambiente, Ségolène Royal.

Devolver "sentido", ser "pedagógico" com as reformas e as prestações de contas: são as mesmas preocupações, sem tirar nem pôr, desde o outono de 2012 e as primeiras dificuldades de seu mandato. Mas dessa vez François Hollande, presidente em estado de emergência, quase não tem mais tempo.

Tradutor: UOL

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