Após edição caótica em 2015, Festival de Istambul se rende à autocensura e às autoridades

Isabelle Regnier

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    Kerem Ayan, diretor do Festival Internacional de Cinema de Istambul

    Kerem Ayan, diretor do Festival Internacional de Cinema de Istambul

Kerem Ayan se lembrará por muito tempo de seu primeiro ano na direção do Festival Internacional de Cinema de Istambul. No dia 19 de março, uma semana antes da abertura das pré-vendas, um atentado suicida deixou quatro mortos na rua Istiklal, artéria comercial onde se concentram os principais pontos do evento.

Desnecessário dizer que nem os convidados se animaram muito para ir (os americanos foram os mais discretos, mas também não havia muitos franceses), nem o público para comprar ingressos. Nos primeiros dias, as salas estavam longe de lotar, o que também era o caso de muitos bares, restaurantes, pontos turísticos dessa cidade cuja lendária efervescência se diluiu bastante nos últimos meses.

De acordo com o novo diretor, a frequência teria se recuperado ao longo do fim de semana e no meio do festival, que terminou na sexta-feira (15). Ele contava com uma queda de 15% na bilheteria: "Um bom resultado, dadas as circunstâncias".

Nativo de Istambul, esse francófono de 38 anos, formado na Escola Superior de Direção Audiovisual e na Universidade Paris-7, e que teve passagens pela RFI e pelo Festival de Cannes, entre outros, assumiu o cargo após uma edição de 2015 que foi um fiasco.

O cancelamento de última hora das projeções de "Bakur" (ou "North"), de Çayan Demirel e Ertugrul Mavioglu, um documentário sobre o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), a pedido do Ministério da Cultura, baseando-se em uma lei originalmente concebida para proteger direitos autorais, provocou protestos sem precedentes.

Os cineastas e os produtores turcos retiraram seus filmes, o júri cancelou a competição e os organizadores cancelaram a festa de encerramento, na esperança de que o governo abolisse essa regulamentação que obriga os filmes turcos a obterem um certificado especial para passarem em festivais.

Os autores de "Bakur" se recusaram a se submeter a isso, temendo que a iniciativa resultasse, no caso deles, na proibição total do filme.

"O início de uma criminalização"

No contexto mais do que tenso que é o da Turquia de hoje, onde o Estado a cada dia viola um pouco mais a liberdade de expressão, o cinema e em especial os documentários têm sido alvos de um controle mais intenso desde que um primeiro caso de censura abalou o Festival de Antalya, em setembro de 2014, envolvendo um documentário sobre a revolta do Parque Gezi em 2013, que a direção tirou da programação, contrariando o comitê de seleção.

"O setor não reagiu suficientemente na época", acredita Necati Sönmez, diretor do festival Documentarists, que programou "Bakur" para junho de 2015 e discursou em Istambul como parte de uma mesa redonda sobre o futuro dos documentários. "Foi o início de uma criminalização dos documentários e de um amplo movimento de autocensura."

O Festival de Antalya desistiu de apresentar seus documentários dentro de uma competição. O festival 1001 Documentary Film decidiu cancelar sua última edição em razão do "clima político tóxico".

A comissão de ajuda aos documentários passou a se reunir somente uma vez por ano, em vez de duas. A mobilização em torno de "Bakur" se esvaziou. E o certificado, com o qual ninguém realmente se preocupava até o ano passado, se tornou uma condição indispensável para apresentar um filme na maior parte dos festivais do país.

Boa surpresa curda

Kerem Ayan afirma que ainda tem se esforçado para que mudem a lei, mas ele acredita que não tem outra escolha este ano a não ser se adequar a ela. "

Todos os filmes que escolhemos conseguiram o certificado", ele tenta se consolar. Mas embora tenha recuperado sete dos longas metragens que haviam sido retirados no ano passado, ele ignorou o "Bakur", que continua sem certificado.

Entre os vários assuntos que irritam as autoridades turcas, a questão curda é certamente a mais delicada hoje.

"Mais nenhum cineasta curdo pode esperar receber dinheiro do Ministério da Cultura", afirma Necati Sönmez. Um coletivo de cineastas curdos associado à Amed Film Festival de Diyarbakir reagiu, anunciando recentemente que cortaria relações com as organizações oficiais.

No entanto, foi do cinema curdo que veio uma das melhores surpresas do Festival de Istambul. Exibido dentro da competição nacional, "My Own Life", primeiro longa metragem de Adnan Akdag, foi produzido com o salário (e as dívidas) de seu diretor, um professor de eletrônica apaixonado por cinema.

Por influência de Abbas Kiarostami, essa viagem pelo campo cheio de colinas do leste do país é uma narrativa em abismo da história de um jovem interpretado pelo próprio cineasta. Esse rapaz, que por muito tempo sonhou seus filmes sem realizá-los, vai para a casa de seus pais, no pequeno vilarejo de Erzurum, para rodar com a ajuda de seus amigos seu primeiro longa-metragem.

A oposição que "My Own Life" retrata entre uma jovem geração urbana e instruída e pais ainda sujeitos às tradições do modo de vida campesino foi uma das motivações da produção de Istambul em 2016.

Mas esse filme se distingue dos outros por sua luminosidade poética, uma compreensão do espaço, uma arte sutil do contraponto, um humor delicado e por uma construção que leva a uma cisão do filme em duas partes, separadas, como no tailandês Apichatpong Weerasethakul, por um título na tela. Após uma hora de narrativa direta em uma ficção clássica, a câmera pede licença para revelar a história do filme que está sendo feito.

Fruto de uma complexa mistura, o independente Adnan Akdag se diz simpatizante dos curdos, mas não reivindica nenhuma identidade étnica para si mesmo. Para ele, as recusas categóricas que ele enfrentou para conseguir financiamento para seu filme se devem à sua falta de notoriedade e de contatos.

No entanto, na condição de simpatizante dos curdos, ele reconhece que sofre uma pressão muito grande e está preocupado com as consequências que ela poderá ter no financiamento de seu próximo longa metragem, cujo roteiro já está escrito.

Tradutor: UOL

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