Al Qaeda se instala no Iêmen, e negociações de paz emperram

Louis Imbert e Madjid Zerrouky

  • Khaled Abdullah/Reuters

    Simpatizantes houthis protestam contra ataques aéreos liderados pela Arábia Saudita, em Sanaa, no Iêmen

    Simpatizantes houthis protestam contra ataques aéreos liderados pela Arábia Saudita, em Sanaa, no Iêmen

O grupo jihadista se aproveita do caos criado pela guerra para construir um mini-Estado no Sul

Ainda havia esperanças, na última terça-feira (19), de os negociadores dos rebeldes houthis e do ex-presidente iemenita, Ali Abdallah Saleh, chegarem para as conversas de paz que deveriam ter se iniciado na véspera, no Kuait, organizadas pelas Nações Unidas. O enviado especial da ONU, Ismail Ould Cheikh Ahmed, anunciou que haveria um adiamento, ao mesmo tempo em que afirmava que esses opositores do governo de Abd Rabo Mansour Hadi ainda podiam se juntar à delegação governamental, que chegou na hora.

Essas negociações eram vistas por muitos até hoje como as primeiras que teriam uma verdadeira chance de sucesso, mais de um ano depois que a Arábia Saudita entrou em guerra, no dia 25 de março de 2015, à frente de uma coalizão de países árabes em apoio ao governo Hadi, um conflito que resultou em mais de 6.300 mortos.

A Arábia Saudita, que deseja reduzir o poder dos houthis, xiitas vistos como instrumentalizados por seu rival iraniano, havia preparado essas negociações através de contatos diretos com os rebeldes, em Riad. Mas, antes de negociar, estes exigiam a aplicação real do cessar-fogo declarado no dia 10 de abril, que foi gravemente violado de ambos os lados.

Na segunda-feira à noite, aviões da coalizão cruzavam o céu da capital, Sanaa, que se encontra na mão dos rebeldes. Na terça-feira, os combates voltaram com mais intensidade em várias frentes.

Diante do risco de impasse diplomático, há quem comemore. A Al Qaeda na Península Arábica (AQPA) aproveitou os combates do último ano e a intervenção saudita para estender sua influência pelo leste do país, apesar dos ataques aéreos regulares que ainda mataram dezenas de seus membros no dia 23 de março.

"Ainda que a trégua se instale, a guerra voltará (...). Os houthis estão se aproveitando desses jogos políticos para massacrar os sunitas", esbravejava na semana passada Saad Atef al-Awaqi, um comandante jihadista, na publicação semanal do grupo.

Dirigida desde junho de 2015 pelo iemenita Qassem al-Rimi, após a morte de seu antecessor em um ataque de drone americano, a organização tem conduzido uma estratégia de ancoragem territorial, à margem dos combates.

Os jihadistas, em grande parte vindos do tecido tribal local, negociam com as populações pelo controle de tráficos diversos, sobretudo o contrabando de petróleo e de armas, através da cidade portuária de Al-Moukala, que eles controlam desde abril de 2015, e em uma faixa costeira de 600 km onde o grupo pode se deslocar livremente.

Segundo um autonomista sulista, opositor da AQPA, só o controle do porto de Al-Moukala já lhes garantiria uma renda diária de US$ 2 milhões em taxas. Nunca a Al-Qaeda no Iêmen teve acesso a tanto dinheiro assim.

"Grandes quantidades de armas"

Essa renda está sendo em parte reinvestida na construção de um mini-Estado jihadista, com sua polícia religiosa e seus "serviços públicos": pavimentação de estradas, recuperação de hospitais, distribuição de alimentos e de dinheiro aos mais pobres.

A AQPA compra a lealdade das pessoas, procurando evitar reproduzir o erro do "emirado" de Abyan, proclamado em 2011 ao leste de Aden. Os jihadistas haviam sido expulsos de lá um ano depois pelo Exército iemenita, com o auxílio de "comitês populares" locais, depois de ter imposto no local uma ordem islâmica rígida que os tornou impopulares.

A organização teria se apoderado "de grandes quantidades de armas e de munição, inclusive mísseis portáteis solo-ar", graças à retirada do Exército diante do avanço dos houthis, no início de 2015, segundo uma fonte próxima do presidente Hadi. Esse arsenal teria permitido abater um Mirage 2000 da coalização em março, na região de Aden.

Além disso, a AQPA tem combatido em Mareb e sobretudo em Taëz, onde ocorreram as principais violações da trégua.

Os jihadistas fizeram nessa última cidade uma aliança circunstancial com os combatentes vindos do movimento islamita Al-Islah, afiliado à Irmandade Muçulmana, que há meses vem tentando expulsar os rebeldes das posições elevadas que eles mantêm ao norte e a leste de Taëz, de onde eles bombardeiam a cidade.

Acusada de negar o problema, ou até de instrumentalizar a Al-Qaeda em seu benefício, ainda que ela tenha bombardeado as posições jihadistas nas últimas semanas, a Arábia Saudita retruca que a AQPA desaparecerá ou será reabsorvida uma vez que um governo real assuma.

"A coalizão árabe tem o mandato internacional de restabelecer o governo legítimo e a integridade territorial do país", declara ao "Le Monde" um oficial saudita, falando sob condição de anonimato. "Se quiserem eliminar esse grupo, é preciso se concentrar na reconstrução do Estado". Uma aposta arriscada.

Por enquanto, o governo Hadi apoiado pelos sauditas está presente só na metade do tempo em Aden, o grande porto do Sul libertado em julho do cerco dos houthis.

A AQPA rivaliza ali com outros grupos armados para se apoderar dos recursos da cidade. Mas essa dinâmica, mais mafiosa do que ideológica, poderia mudar com um eventual fluxo de jihadistas estrangeiros, que o caos iemenita inevitavelmente vai atrair.

"Ainda é possível recuperar as tribos ligadas à AQPA com novos recursos políticos e econômicos. Com os elementos internacionais, será mais difícil", acredita uma fonte diplomática ocidental.

Tradutor: UOL

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