Análise: A fria retomada do diálogo entre a Otan e a Rússia

Jean Pierre Stroobants e Isabelle Mandraud

  • Pavel Rebrov/Reuters

    Moradora passa muro com grafite do presidente russo, Vladimir Putin, em Simferopol, na Crimeia

    Moradora passa muro com grafite do presidente russo, Vladimir Putin, em Simferopol, na Crimeia

Diálogo havia sido interrompido devido à anexação da Crimeia por parte de Moscou e ao conflito ucraniano

Pouco determinante, mas muito simbólica, a reunião do Conselho Otan-Rússia no último 20 de abril, em Bruxelas, pretendeu esboçar uma retomada do diálogo entre a Aliança Atlântica e Moscou, suspenso em abril de 2014. Na época, o intuito era dar uma resposta ao conflito desencadeado pela Rússia contra a Ucrânia e congelar qualquer cooperação, tanto civil quanto militar. Essa decisão havia sido confirmada em setembro de 2014, durante uma cúpula de países da Otan, no País de Gales, e acompanhada de um apelo pelo fim da ocupação da Crimeia.

Dois anos mais tarde, num momento em que a Aliança prepara uma nova cúpula —em julho, em Varsóvia—, parece ter chegado a hora de "reabrir o canal de discussões", para usar a expressão de um diplomata. Foi trabalhoso, mas Paris e Berlim acabaram convencendo seus parceiros mais reticentes, como os Estados bálticos, a Polônia, mas também o Canadá, prometendo-lhes que a retomada das conversas não significaria a volta da cooperação. E certamente não da transformação da Rússia em uma verdadeira parceira, como foi considerado no início da década.

Na realidade, foi a atitude mais conciliadora do secretário de Estado americano, John Kerry, que acabou tornando possível um acontecimento que seria inimaginável até alguns meses atrás. De qualquer forma, a ordem do dia da discussão, que a essa altura era limitada aos embaixadores, foi cuidadosamente calibrada, após várias conversas entre os dois lados.

A diplomacia russa não conseguirá obter "pontos diversos" que lhe permitiriam, por exemplo, afirmar a necessidade de combater conjuntamente as ameaças prioritárias em sua opinião: o terrorismo e o narcotráfico. Ela terá de se contentar com outras conquistas: os princípios do ato que fundou a relação entre a Otan e Moscou não serão questionados, e a "presença avançada" de "forças permanentes e substanciais", exigida ruidosamente por seus antigos países-satélites, será limitada a alguns milhares de soldados.

Não é o suficiente para preocupar demais o presidente Vladimir Putin, ainda que ele continue com sua habitual retórica sobre a ameaça ocidental em torno de seu país.

Segundo seu porta-voz Dmitri Peskov, o diálogo que está recomeçando "não será fácil". "As relações Otan-Rússia sobreviveram a uma falta de confiança que parecia esquecida, mas que logo voltou, e talvez até mesmo a um triunfo da desconfiança mútua", ele declarou na terça-feira em Moscou.

"Notamos ações muito hostis por parte da Aliança em termos de reforço de suas capacidades em nossas fronteiras e achamos que essas ações constituem uma ameaça aos interesses e à segurança nacional da Rússia".

Quanto ao sistema de defesa antimíssil, cuja instalação vem avançando na Romênia e na Polônia, os embaixadores ocidentais repetirão mais uma vez que ele não visa a Rússia e que eles permanecem abertos a um diálogo aprofundado sobre esse ponto.

A "inevitável" Ucrânia

A agenda das discussões de quarta-feira evocou sobretudo três domínios. O primeiro é a questão ucraniana, "inevitável", aos olhos da Otan. Moscou, que contesta "as supostas atividades militares perigosas" de seu Exército, teria preferido que ela fosse tirada da pauta. Já os países da Europa Central e Oriental faziam dela um de seus cavalos de batalha.

O acordo encontrado resultará em insistir na necessária aplicação dos acordos de Minsk e em lançar um novo apelo a Moscou para que sua diplomacia "jogue o jogo". Simbolicamente, e para não alarmar Kiev, uma reunião do Conselho Otan-Ucrânia estava prevista para preceder o encontro de quarta-feira.

A segunda parte das discussões seria sobre "as atividades militares". Em outras palavras, sobre os meios de prevenir incidentes e os "atritos" nas fronteiras dos dois lados, que se multiplicaram. O mais grave ocorreu em novembro de 2015, quando um avião de caça russo foi abatido por dois F-16 turcos.

A Alemanha insistiu muito para que um diálogo direto com Moscou fosse criado para aperfeiçoar mecanismos de prevenção, e a Otan menciona "padrões" que estabeleceriam os limites dos exercícios realizados regularmente pelos Exércitos de ambos os lados. O debate sobre essas questões, conduzido dentro da Organização pela Segurança e pela Cooperação na Europa (OSCE), se encontra bloqueado desde 2011.

Além disso, Estados-Maiores ocidentais estão preocupados com a expansão e a modernização rápida da frota russa de submarinos, cada vez mais difíceis de detectar.

O terceiro tema das discussões foi o mais consensual: as delegações conversaram sobre a situação no Afeganistão e a segurança regional, culminando em uma menção à missão não combatente "Resolute Support", que a Otan vem conduzindo no país para treinar as forças de segurança e tentar instaurar um estado de direito. Essa missão deve a princípio terminar no final de 2016.

Ainda que prudente e tímido, o encontro de quarta-feira terá marcado uma etapa importante na movimentada história das relações entre o bloco atlântico e Moscou. O Conselho Otan-Rússia foi instaurado em 2002, e seus trabalhos haviam sido suspensos uma primeira vez entre agosto de 2008 e a primavera de 2009, após a ação militar russa na Geórgia.

Os Aliados hoje continuam pedindo para que o Kremlin reveja sua decisão de reconhecer como Estados independentes as regiões georgianas de Abkhazia e Ossétia do Sul, para tranquilizar os países do Leste que temem que depois desses episódios o da anexação da Crimeia também logo seja esquecido.

Para Paris e Berlim, a discussão de quarta-feira também deve visar "definir" a futura cúpula da Aliança, em Varsóvia, para evitar que ela descambe para uma diatribe contra a Rússia, como teriam desejado certas capitais do Leste. Maria Zakharova, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, alertou que a Rússia iria exprimir sua "preocupação sobre a direção tomada pela Aliança para o confinamento da Rússia e a ampliação de sua infraestrutura para o Leste, que ela considera como um atentado ao espírito do ato fundador das relações entre Rússia e Otan".

Para limitar os riscos de mal-entendido, o chefe da diplomacia francesa, Jean-Marc Ayrault, em visita a Moscou na terça-feira (19), recomendou uma outra reunião da Otan dedicada às relações com a Rússia antes da cúpula de Varsóvia.

Tradutor: UOL

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