Aliadas à coalizão internacional, milícias curdas avançam rumo a reduto do EI na Síria

Allan Kaval

  • Rodi Said/Síria

    Combatentes curdos do YPG e seu veículo militar próximo à cidade de Qamishli, na Síria

    Combatentes curdos do YPG e seu veículo militar próximo à cidade de Qamishli, na Síria

As placas fincadas ao longo da estrada indicam as distâncias que ainda separam Ain Issa das grandes cidades da Síria. Houve um tempo em que "a rodovia internacional" M4, que corre junto ao pequeno vilarejo perdido, ligava as vastas planícies agrícolas do nordeste do país ao porto mediterrâneo de Latakia, atravessando na época Aleppo, centro comercial do norte do país. Esses vestígios de uma época de paz carregam a memória dessa geografia perdida, devastada por cinco anos de guerra.

Alguns raros caminhões ainda sacolejam sua carroceria ruidosa, deixando em seu rastro nuvens de fumaça preta expelida por motores movidos a gasolina mal refinada. No entanto, vista a partir de Ain Issa, a "rodovia internacional" se tornou uma fronteira. Correndo junto às trincheiras e às posições militares, ela separa territórios que passaram para controle curdo de zonas dominadas pelos jihadistas. Raqqa, a "capital" síria da organização Estado Islâmico (EI), se encontra a menos de 60 km ao sul.

As Unidades de Proteção do Povo (YPG, curdos) montaram seu quartel-general em um restaurante abandonado à beira da estrada. As janelas cobertas não deixam mais entrar a luz do dia no salão que já não tem mais suas mesas e cadeiras. Por cima do telhado, os combatentes conseguem observar um front imóvel.

"O dia em que avançarmos, será para ir até Raqqa. Não vamos parar no meio tempo", explica o "camarada" Jiyan, encarregado dessa posição. Até lá, é preciso esperar e aguentar os ataques pontuais lançados pelo EI a partir dos vilarejos por ele ocupados, visíveis no horizonte.

Muitas vezes são apenas morteiros lançados de tempos em tempos, mas às vezes os jihadistas conseguem planejar ataques suicidas. Caminhões-bomba são lançados a toda velocidade através da terra de ninguém, na direção das fileiras das YPG. No dia 18 de fevereiro, o condutor de um desses veículos conseguiu atingir o estacionamento do restaurante antes de se explodir, matando um combatente curdo.

Intermediário da coalizão

Essa porção do front é comandada por Jamshid Ali asker, um curdo sírio de 33 anos. Quando ele não está nas linhas, ele ocupa junto com seus homens uma casa nos limites de Ain Issa. O vilarejo inteiro foi declarado zona militar, mas ainda há vestígios de um cotidiano perdido. Fardas militares e armas automáticas se misturam a uma decoração de tapetes sintéticos, poltronas de estampas floridas e almofadas roxas franjadas.

Em um quarto onde as cortinas filtram o sol do meio-dia, Jamshid Ali Asker, de ar modesto e rosto emaciado, confirma a intenção das forças curdas sírias de avançarem rumo ao sul: "As YPG serão a principal força que libertará Raqqa do Daesh (acrônimo árabe do EI), em coordenação com a coalizão internacional".

Segundo ele, essa cooperação se aprofundou muito no decorrer dos últimos meses. Iniciada durante o cerco a Kobani, no final de 2014, ela se transformou em uma parceria estruturada, em detrimento de grupos rebeldes moderados, uma vez que os curdos se afirmaram como os principais intermediários da coalizão em terra.

"Desde dezembro de 2015, nós encontramos em campo os representantes das forças da coalizão, militares americanos, britânicos e franceses, com quem aprendemos a nos coordenar melhor", afirma Jamshid Ali Asker.

Ele possui um tablet cujo modelo único, amplamente difundido entre as fileiras curdas, é equipado de um aplicativo que lhes permite estabelecer as coordenadas dos objetivos inimigos para enviá-las à "câmara de operação comum", situada nas proximidades de Kobani. É lá que os ataques aéreos são coordenados junto com o comando curdo no decorrer de operações de iniciativa da coalizão.

A ofensiva que resultará na libertação de Raqqa ainda não está pronta para ser lançada, segundo o comandante curdo.

"Deveremos passar da defesa para o ataque. Para isso, precisamos de veículos blindados, sem os quais não poderemos dominar o território entre a rodovia internacional e Raqqa," ele ressalta. "Nosso comando os pediu à coalizão, mas por enquanto não recebemos resposta." 

Além dos blindados tomados do inimigo, as forças curdas contaram até hoje com veículos civis reforçados artesanalmente por placas de metal soldadas. Um jipe, recoberto de uma blindagem improvisada com estampas de camuflagem pintadas de forma rudimentar, ocupa o pátio.

Raqqa Media Center via AP/Arquivo
Militantes do Estado Islâmico desfilam por Raqqa

Cooptação de figurões locais

Ainda que a cooperação da coalizão com as forças curdas seja eficaz no plano militar, ela pode comportar riscos políticos consideráveis. Em sua luta contra os jihadistas do EI, as YPG, apoiadas pela aviação da coalizão, assumiram o controle de territórios que excedem de longe os únicos enclaves curdos do norte sírio para estender seu domínio até zonas de povoamento árabe.

O PYD, movimento político que supervisiona as YPG, pretende unificar todos esses territórios dentro de uma estrutura autônoma "federada", cuja criação ele anunciou de maneira unilateral em meados de março com o apoio de certas personalidades árabes.

Esse projeto, que provocou a rejeição tanto do regime sírio quanto da oposição, na verdade é a tradução institucional das Forças Democráticas Sírias (FDS), a estrutura militar criada pelas YPG junto com certos grupos armados menores, de árabes e outros, representando outras comunidades.

"A importância militar dos grupos armados (não curdos) é política. As YPG representam a única força importante, mas não podemos libertar Raqqa sem envolver elementos árabes", explica o comandante Jamshid Ali Asker.

Contudo, uma vez libertada a cidade, esse papel de figuração poderá não bastar. Mas a equipe de treinamento curda afirma que quer aplicar em Raqqa um sistema similar ao que pratica fora das zonas curdas, cooptando figurões locais.

É esse modelo que prevalece no vilarejo de maioria árabe de Tal Abyad, situado na fronteira com a Turquia e cujo controle foi assumido pelas forças curdas em junho de 2015. Em um escritório da "casa do povo" local, a instituição civil de base nas regiões que passaram para controle curdo, Azad, um oficial do movimento curdo, fala sobre os esforços de preparação que estão sendo feitos para o período que se seguirá à libertação de Raqqa.

"Atualmente, estamos organizando reuniões com personalidades influentes, pessoas de autoridade reconhecida, chefes de tribo originários de Raqqa para que eles informem sobre nosso programa a seus aliados. Uma vez libertada a cidade, eles poderão instalar ali estruturas de governo conformes a nosso modelo federal", ele explica, abaixo de um retrato do líder do PKK que se encontra preso, Abdullah Ocalan, chefe e fundador da organização curda turca gêmea do PYD e em guerra contra Ancara.

Segundo ele, nenhuma outra forma de governança poderá ser tolerada. Quanto à dúvida sobre se os representantes da coalizão intervirão nesse trabalho político, o camarada Azad se recusa a responder.

No entanto, na retaguarda do front, há alguns vilarejos árabes onde tremula a bandeira da revolução síria e onde os emblemas das YPG estão ausentes. A Brigada dos Revolucionários de Raqqa, um grupo que emanou do Exército Livre da Síria, instalou seu quartel-general nesse reduto territorial.

Após uma conturbada história que a viu jurar lealdade à Frente Al-Nusra, afiliada à Al-Qaeda, e depois ser expulsa de Raqqa pelo EI e em seguida se aproximar das YPG em Kobani, a brigada não pretende deixar seus aliados curdos decidirem o destino de Raqqa.

Mahmoud al-Hadi, 50, presidente do "comitê político" do grupo, afirma estar trabalhando na formação de um futuro conselho local sem se coordenar com os esforços de seus aliados curdos: "O povo de Raqqa jamais aceitará ser controlado por estrangeiros novamente. Eles não querem a divisão da Síria. Se os curdos tentarem impor seu sistema, a população não deixará barato".

Somente a existência de um inimigo em comum confere uma coerência precária a essa aliança desequilibrada entre os rebeldes de Raqqa e as YPG. Al-Hadi também não descarta que o fim da tirania jihadista em Raqqa vá marcar o início de novos problemas. "Uma vez vencido o Daesh, só poderemos contar com a coalizão para garantir relações pacíficas entre todos", ele avisa.

Tradutor: UOL

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