Irã acusa EUA de manterem sanções apesar de acordo nuclear do ano passado

Louis Imbert

  • Frank Franklin II/AP

    O secretário de Estado dos EUA, John Kerry (esq), dá entrevista ao lado do chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, em Nova York

    O secretário de Estado dos EUA, John Kerry (esq), dá entrevista ao lado do chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, em Nova York

A aplicação do acordo sobre o programa nuclear iraniano havia criado a expectativa da abertura de um "paraíso" para as empresas ocidentais, após dez anos de sanções adotadas pelas Nações Unidas, pelos Estados Unidos e pela União Europeia. Mas, três meses após a retirada de grande parte destas, os esperados investimentos tardam a chegar.

As autoridades iranianas acusam os Estados Unidos de estarem impedindo sua volta ao mercado, ao manter e estender um amplo leque de sanções sobre o programa de mísseis balísticos de Teerã, e seu apoio a organizações que constam em listas terroristas americanas, entre elas o Hezbollah libanês.

Em meados de abril, durante um encontro com o primeiro-ministro italiano, Matteo  Renzi, o Líder Supremo Ali Khamenei avaliou que o Irã ainda não havia constatado "nenhum resultado tangível" após o acordo. "Os americanos (...) estão amedrontando países que gostariam de cooperar com o Irã", ele declarou.

Na última sexta-feira (22), o ministro das Relações Exteriores iraniano, Mohammad Javad Zarif, repetiu essa mensagem em Nova York, com seu costumeiro tom conciliador. Ele exigiu, durante um segundo encontro em uma semana com seu homólogo americano, John Kerry, uma "aplicação verdadeira de todos os benefícios que o Irã deveria tirar do acordo".

Alguns dias antes, Kerry afirmou diante do grupo de lobby pró-Israel J Street que o Irã em três meses só havia conseguido repatriar US$ 3 bilhões (pouco mais de R$ 10 bilhões) em fundos bloqueados ou congelados no exterior durante o período de sanções.

O total dessa soma havia sido estimado em mais de uma centena de bilhões de dólares em julho de 2015, e depois em cerca de US$ 50 bilhões. Ele poderá ser revisto ainda mais para baixo.

Esses fundos são provenientes sobretudo da venda de petróleo, limitada durante o regime de sanções, à China e à Índia. As somas foram guardadas por esses países em antecipação ao pagamento de produtos e serviços fornecidos em troca de petróleo iraniano.

Falta de ativos líquidos

Segundo uma fonte bancária, o Banco Central iraniano na verdade havia recebido de US$ 7 bilhões a US$ 8 bilhões (R$ 25 bilhões a  R$ 28 bilhões) em abril. Essa soma continua pequena, uma vez que Teerã sofre uma grave falta de ativos líquidos, e tem enfrentado dificuldades em repatriar os fundos do petróleo vendido no mercado negro durante os anos de sanções.

Suas exportações de petróleo estão aos poucos se recuperando, a preços baixos, tendo as autoridades assinado vários contratos preliminares de calibre com empresas francesas, italianas e chinesas.

Na quinta-feira (21), o Supremo Tribunal americano ainda condenou o Banco Central iraniano a pagar, dos seus fundos congelados nos Estados Unidos, US$ 2 bilhões às famílias de vítimas americanas de atentados terroristas atribuídos ao Irã, para consternação do país, que diz se tratar de um "roubo".

Na sexta-feira Kerry lembrou, de forma não muito convincente, que "os bancos estrangeiros agora têm a possibilidade de fazer negócios com o Irã".

Assim, nove bancos iranianos, que ainda devem se enquadrar nas normas internacionais, estão se reconectando ao sistema de transferências Swift e meia dúzia de bancos alemães, italianos e franceses fizeram acordos com seus correspondentes iranianos.

Mas os grandes bancos, sobretudo franceses, ainda não tomaram essa iniciativa e estão desistindo de financiar investimentos de grande porte a longo prazo. Franco-iranianos também continuam com suas contas bloqueadas nesses bancos, por medida de precaução.

Os bancos temem a fúria do Tesouro Americano, que pode processar qualquer estabelecimento que tenha interesses nos Estados Unidos e envolvimento com uma transação em dólares que vá parar, por algum meio ou outro, no Irã. O Tesouro dessa forma encoraja as empresas a efetuarem auditorias em suas transações comerciais com um país onde muitas empresas estão ligadas ao Exército.

"Nossos clientes estão com dificuldades para transferir fundos para abrir um escritório, pagar um aluguel, fazer contratações", explica Mahasti Razavi, advogada associada do escritório francês August&Debouzy, em visita a Teerã.

"A comunidade empresarial iraniana está cada dia mais frustrada", diz Cyrus Razzaghi, da ARA Enterprise, uma consultoria baseada no Irã. "Estamos esperando a eleição presidencial americana de novembro e a atitude do próximo Congresso. A ambiguidade sem fim da posição americana pode criar sérios obstáculos."

Enquanto isso, o governo Rohani tem enfrentado uma oposição crescente vinda das fileiras conservadoras, que estão renovando suas críticas contra o acordo nuclear e relançando a ideia de uma "economia de resistência", mais isolacionista.

O país teve crescimento zero durante o ano que terminou em março, segundo o calendário iraniano. Hassan Rohani tem até junho de 2017, data da próxima eleição presidencial, para conseguir resultados tangíveis.

 

Tradutor: UOL

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